O isolamento social foi uma das principais medidas de saúde, até o momento, para conter o avanço da Covid-19 (SARS-CoV-2) no mundo. No Brasil, em março de 2020, o Ministério da Saúde regulamentou os critérios para isolamento e quarentena para evitar a contaminação pelo vírus (Ministério da Saúde, 2020a). No início de julho de 2020, o Brasil acumulava aproximadamente 1.448.000 casos e 60.600 mortes (Ministério da Saúde, 2020b). No entanto, o distanciamento social também poderia causar impactos individuais negativos relacionados a transtornos de saúde mental, especialmente estresse, ansiedade e depressão (Pereira et al., 2020). Sabe-se que alguns grupos são especialmente vulneráveis e, ao longo da vida, vivenciam com mais frequência situações de isolamento, como as minorias sexuais (Brennan et al., 2020). As desigualdades sociais e políticas preexistentes à pandemia já impactavam desproporcionalmente a vida das pessoas LGBT+. As determinações de distanciamento social poderiam aumentar a desigualdade, visto que as taxas de depressão e abuso de substâncias já eram elevadas e podem se agravar ainda mais devido ao contexto (Kline, 2020).
A rede de apoio social tornou-se especialmente importante durante esse período. O apoio social de familiares, amigos e parceiros românticos vivenciado por pessoas LGBT+ está relacionado a uma menor incidência de transtornos de saúde mental, como depressão, ideação suicida e ansiedade (Darwich et al., 2012; McDonald, 2018; Rosario et al., 2011). Além disso, esse grupo sofre preconceito em múltiplos contextos, desde o atendimento à saúde até o ambiente familiar. O modelo de saúde pública brasileiro historicamente não abordou de forma eficaz a saúde das minorias sexuais, nas quais a discriminação ainda ocorre com frequência (Lima et al., 2016). Ainda assim, a comunidade LGBT+ é uma população que tende a receber menos apoio e comunicação familiar, fatores importantes para a manutenção da autoestima, diretamente relacionada a um melhor manejo de situações adversas da vida, contribuindo para a redução do estresse (Silva & Cerqueira-Santos, 2018). Em relação aos relacionamentos românticos, homens e mulheres de minorias sexuais têm menor probabilidade de se casar ou viver com um parceiro (Gonzales & Ehrenfeld, 2018). No Brasil, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda é recente e enfrenta dificuldades nos poderes legislativo e executivo para ser garantido com maior igualdade (Coitinho & Rinaldi, 2018), assim como a adoção por casais homoafetivos, que ainda é uma ideia rejeitada e cercada por crenças negativas (Cerqueira-Santos & Santana, 2015). Dessa forma, as redes de apoio, que já eram precárias para a maioria das pessoas LGBT+, tornaram-se ainda mais limitadas com o isolamento imposto. A falta do apoio necessário está relacionada a menores níveis de autoestima e maior estresse (Brooks et al., 2020; Kline, 2020).
Observa-se que as pessoas LGBT+ mais vulneráveis são aquelas rejeitadas por familiares, membros da comunidade e amigos próximos (Duncan & Hatzenbuehler, 2014; Zervoulis et al., 2019). Essa vulnerabilidade é causada, entre outros fatores, pela falta de comunicação. Os sinais de falta de comunicação saudável na família manifestam-se por meio de baixo apoio social percebido, baixa autoestima e sentimentos de solidão, fatores que, somados à sensação de falta de oportunidades no mundo real, estão relacionados ao uso de aplicativos de relacionamento (DeHaan et al., 2013; Zervoulis et al., 2019).
A busca por parceiros online é popular entre os membros da comunidade LGBT+ (Choi et al., 2016). Um relatório publicado pelo Match Group – empresa proprietária de aplicativos de relacionamento, incluindo o Tinder – apontou um aumento na interação entre seus usuários em todo o mundo como consequência do isolamento social imposto pela Covid-19 (Match Group, 2020). O aumento no uso dessas plataformas pode ter sido uma consequência de sentimentos negativos amplificados pelo isolamento social na comunidade LGBT+. Também estaria relacionado ao ato de sair de casa para ter relações sexuais casuais, apesar da possibilidade de praticar sexo online (Brennan et al., 2020; Souza et al., 2021). De fato, algumas medidas de proteção estão sendo adotadas por aqueles que estão tendo relações sexuais casuais durante esse período, como evitar beijos, tomar banho e limpar o ambiente antes e depois do ato sexual. No entanto, essas estratégias tendem a não ser eficazes para conter a infecção por Covid-19 (Souza et al., 2021). Tal exposição é preocupante, visto que as pessoas LGBT+ já são vulneráveis devido a fatores emocionais e psicológicos (Meyer, 2003). Membros da comunidade podem buscar compensar a falta de apoio por meio de conversas online, o que pode levá-los a quebrar o distanciamento social e se tornarem vulneráveis ao vírus da Covid-19 (Brennan et al., 2020; Souza et al., 2021).
Aplicativos de namoro e plataformas relacionadas podem desempenhar um papel na manutenção da saúde mental no contexto atual. O uso moderado desses aplicativos tem sido associado à redução de sentimentos de depressão e solidão e a um maior senso de pertencimento à comunidade LGBT+ (Hunt et al., 2018; Zervoulis et al., 2019). O simples ato de compartilhar informações pessoais em aplicativos de geolocalização já está relacionado a menores níveis de solidão (Taylor et al., 2017), o que indica que pessoas LGBT+ não utilizam esses aplicativos apenas para sexo casual ou para encontrar parceiros românticos, mas também para encontrar outros amigos na comunidade. O grupo de homens gays solteiros e homens que fazem sexo com outros homens (HSH) merece atenção especial, pois são os principais usuários desse tipo de plataforma (Ciocca et al., 2020; Goedel & Duncan, 2015; McKay et al., 2020; Souza et al., 2021).
Com base nisso, este trabalho teve como objetivo investigar a relação entre a percepção de isolamento social e o uso de aplicativos de namoro e plataformas relacionadas entre jovens LGBT+. Também buscou compreender aspectos relacionados ao uso dessas plataformas por jovens LGBT+ e suas experiências durante o isolamento social com suas famílias e longe dos amigos.
Método
Amostra
A amostra foi composta por 816 jovens LGBT+ do Brasil, com idade entre 18 e 32 anos, com uma importante concentração de participantes com menos de 20 anos no momento da pesquisa (25,9%). Os critérios de inclusão na amostra foram: ser LGBT+, ter entre 18 e 32 anos e concordar com os termos da pesquisa. A idade média dos participantes foi de 23,02 anos (SD = 3,98). A maioria dos participantes residia em áreas urbanas (95,5%). Em relação à etnia, a maioria dos participantes era branca (53,8%), seguida por pardos (27,9%), negros (15,9%) e outras identificações (2,3%). A maioria dos participantes já havia concluído o ensino médio (52,6%), sendo que 45,0% possuíam diploma de ensino superior.
Os estudantes representavam 39,0% da amostra, com outros 22,3% trabalhando e estudando. Aqueles que apenas trabalhavam somavam 23,1% e os desempregados, 14,1%. Outras situações representavam 1,5%. Sobre como estavam trabalhando e desempenhando suas atividades durante a pandemia, 55,9% estavam utilizando a internet, 10,8% estavam trabalhando/estudando presencialmente, 25,2% estavam com as atividades suspensas e 8,1% preferiram não responder. Apenas 14,2% faziam parte de um grupo de risco profissional (por exemplo, profissionais de saúde) e 35,7% moravam com alguém que pertencia ao grupo de risco para a Covid-19. Apenas 1,2% recebeu diagnóstico positivo para Covid-19, mas 13,6% disseram não ter certeza, pois apresentaram sintomas, mas não fizeram o teste. No entanto, 23,4% tinham um parente ou amigo próximo que já havia sido infectado pelo vírus; 19,5% não tinham certeza.
Instrumentos
(a) Questionário socioidentitário para investigar aspectos sociais e identidades dos participantes. Perguntas relacionadas à idade, moradia, orientação sexual, identidade de gênero, experiência de isolamento social, percepção de aceitação familiar da identidade LGBT+, etc. Este instrumento foi utilizado em estudos anteriores (por exemplo, Ramos et al., 2020; Silva & Cerqueira-Santos, 2018).
(b) Perguntas do tipo Likert, com escala de 0 (nenhuma concordância) a 10 (concordância total), sobre a percepção da pandemia de Covid-19 e do isolamento social, listadas na Tabela 1. Foi desenvolvido para este estudo com base em outros estudos: Brooks et al. (2020), Salerno et al. (2020), Pereira et al. (2020) e Wang et al. (2020). Este instrumento também foi utilizado em outros estudos, como Gato et al. (2021).
(c) Questionário sobre o uso de aplicativos de relacionamento, abordando a intensidade de uso, práticas associadas ao uso e lista de aplicativos utilizados. Os participantes foram questionados sobre o uso de aplicativos de relacionamento, a frequência de uso durante o isolamento social, a frequência média de uso semanal antes do isolamento social, quais plataformas eram utilizadas e os objetivos e resultados do uso durante o isolamento social.
Tabela 1 Média e Concordância sobre Isolamento Social e Covid-19
| Média (SD) | Frequência em porcentagem | |||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| ∑ Concordância | Zero | 1-2 | 3-4 | 5-6 | 7-8 | 9-10 | ||
| 1. Quanto a pandemia de Covid-19 afetou sua vida? | 7,67 (1,90) | 99,5% | 0,5% | 1,4% | 3,5% | 14,9% | 47,9% | 32,0% |
| 2. Quão limitado(a) você se sente para realizar as atividades normais da vida devido à pandemia de Covid-19? | 8,18 (1,93) | 99,3% | 0,7% | 0,7% | 3,2% | 11,8% | 33,2% | 50,3% |
| 3. Quanto a pandemia de Covid-19 afetou você emocionalmente? | 8,13 (2,12) | 98,1% | 1,1% | 1,2% | 3,3% | 14,7% | 25,4% | 54,3% |
| 4. Em que medida você se sente desconfortável em sua família, na atual situação de confinamento social? (Para aqueles que estão com a família em isolamento social) (n = 656) | 5,74 (3,09) | 91,5% | 8,5% | 9,6% | 14,9% | 19,2% | 26,9% | 20,7% |
| 5. Quanto a pandemia de Covid-19 fez você se sentir isolado(a) de seus amigos heterossexuais ou cisgêneros? | 6,64 (3,01) | 93,1% | 6,9% | 5,9% | 8,5% | 20,0% | 25,9% | 32,9% |
| 6. Quanto a pandemia de Covid-19 fez você se sentir isolado(a) de seus amigos LGBT+? | 7.13 (3.01) | 93,9% | 6,1% | 4,5% | 8,0% | 14,1% | 25,0% | 42,3% |
| 7. Quanto a pandemia de Covid-19 fez você se sentir isolado(a) do(a) seu/sua namorado(a)? (Para aqueles em um relacionamento) (n = 358) | 6.16 (4.02) | 77,5% | 22,5% | 3,2% | 3,1% | 8,4% | 17,3% | 39,3% |
| 8. Quanto você se sente "sufocado(a)" por não poder expressar sua identidade LGBT+ com sua família na atual situação de confinamento? (Para aqueles que estão em isolamento social com a família) (n = 656) | 5.82 (4.00) | 76,4% | 23,6% | 5,1% | 6,4% | 12,1% | 14,0% | 38,7% |
| 9. O quão medo você tem de ser infectado(a) pelo novo coronavírus? | 8.00 (2.48) | 97,4% | 2,6% | 1,8% | 5,2% | 11,4% | 26,0% | 53,0% |
| 10. O quão bem informado(a) você se considera sobre a pandemia de Covid-19? | 8.29 (1.54) | 99.9% | 0.1% | 0.1% | 1.7% | 9.2% | 41.4% | 47.4% |
Desenho da pesquisa
Esta pesquisa faz parte do projeto "Redes de Apoio Social e Saúde Psicológica entre Jovens LGBT+ durante a Pandemia de COVID-19", resultado de uma parceria internacional com a Universidade do Porto que incluiu o Brasil e outros cinco países da Europa e América Latina. Sete universidades participaram do projeto e aplicaram, por meio de uma plataforma online, um protocolo de pesquisa semelhante durante o período de isolamento social causado pela pandemia de Covid-19. A coleta de dados no Brasil ocorreu entre 9 e 22 de maio de 2020, período em que os casos de Covid-19 no país aumentaram de cerca de 155.000 para mais de 330.000 e as mortes de cerca de 10.000 para mais de 20.000 (Ministério da Saúde, 2020b). Este momento é representativo da maior mobilização de isolamento social da pandemia no Brasil. Redes sociais (Facebook, Instagram e Twitter) e a página de um grupo de pesquisa foram utilizadas para a divulgação da pesquisa.
Este estudo foi aprovado pelo comitê de ética (CAAE 30192720.0.0000.5546) e seguiu os princípios éticos que regem a conduta de pesquisas com seres humanos, de acordo com as resoluções brasileiras. Para que os participantes respondessem ao questionário online, foi necessário concordar com os procedimentos e objetivos da pesquisa, informados por meio de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Os dados coletados foram inseridos no software SPSS, onde foram realizadas as análises estatísticas descritivas e inferenciais: médias, frequências, teste t e teste qui-quadrado de independência. Testes t para amostras independentes foram realizados entre as variáveis do questionário de percepção da pandemia de Covid-19 e do isolamento social e as seguintes variáveis dicotômicas: gênero, estar ou não em isolamento social, estado civil, estar ou não com a família durante o isolamento social, quebrar o isolamento social para encontros amorosos e uso de aplicativos de namoro e plataformas relacionadas. Esta última variável também foi analisada em relação à idade. Diferenças de gênero também foram investigadas em relação à frequência de uso de aplicativos. Além disso, foi realizado um teste t para amostra única entre as questões 5 e 6 (sobre o quão isolados se sentem de seus amigos LGBT+ e amigos não LGBT+) do questionário de percepção sobre a pandemia de Covid-19 e o isolamento social. Os testes qui-quadrado foram realizados entre o uso de aplicativos e plataformas de namoro e as variáveis: gênero, estar em isolamento social ou não, estado civil, estar com a família ou não durante o isolamento e quebrar o isolamento social para encontros amorosos. A associação com gênero, estado civil e estar ou não com a família durante o isolamento também foi investigada. Por fim, verificou-se se a avaliação da quantidade de dias de uso das plataformas de relacionamento estava associada aos dados numéricos dessa frequência. O d de Cohen, o coeficiente Phi e o V de Cramer foram os indicadores utilizados para demonstrar os tamanhos do efeito.
Resultados
A amostra foi composta por homens (46,7%), mulheres (52,1%) e indivíduos intersexo (1,2%). As pessoas cisgênero (91,8%) eram a maioria, seguidas por pessoas não binárias (4,7%), transgênero (3,1%) e outras identificações (0,5%). Em relação à orientação sexual, homossexuais (59,3%) e bissexuais (32,7%) eram em maior número, sendo pansexuais (5,6%) e outros (2,3%) uma minoria. Apenas 46,8% estavam em um relacionamento afetivo-sexual no momento da pesquisa.
Quase quatro quintos dos participantes declararam estar em isolamento social (79,5%). Apenas 19,6% dos entrevistados não estavam com a família durante esse período da pandemia, 70,3% já moravam com a família e 10,0% não moravam, mas, devido à pandemia, retornaram para casa. Quase todos os entrevistados se sentiram emocionalmente afetados pela pandemia de Covid-19 (98,9%) em algum grau e 93,9% se sentiram isolados de seus amigos LGBT+ em algum nível durante esse período. Esses dados estão apresentados na Tabela 1, juntamente com as demais questões do questionário de percepção sobre a pandemia de Covid-19 e o isolamento social. A diferença entre o sentimento de isolamento em relação aos amigos mostrou diferenças entre amigos LGBT+ e amigos não LGBT+, sendo a média para o primeiro grupo significativamente maior (t = 4,671; p < 0,001; d de Cohen = 0,16).
Foram encontradas diferenças significativas nas médias do questionário de percepção sobre a pandemia de Covid-19 e o isolamento social nas questões 3 e 10 (sobre o impacto emocional e o nível de informação) em relação ao gênero. As mulheres sentiram-se mais afetadas emocionalmente [Homens = 7,71 (SD = 2,31); Mulheres = 8,26 (SD = 1,87); t = -5,241; p < 0,001; d de Cohen = 0,26] e os homens sentiram-se mais bem informados sobre a pandemia de Covid-19 [Homens = 8,43 (SD = 1,49); Mulheres = 8,16 (SD = 1,57); t = 2,511; p = 0,012; d de Cohen = 0,17]. Em relação à situação de isolamento, houve diferença significativa nas questões 2 e 10 (sobre a sensação de limitação e o nível de informação). Aqueles que estavam em isolamento sentiram-se mais limitados [Msim = 8,28 (SD = 1,89); Mnão = 7,78 (SD = 2,01); t = -2,991; p = 0,003; d de Cohen = 0,25] e consideraram-se mais bem informados [Msim = 8,36 (SD = 1,42); Mnão = 8,02 (SD = 1,92); [t = -2,141; p = 0,033; d de Cohen = 0,20].
Em relação à presença ou não da família durante o isolamento, foram encontradas diferenças significativas nas questões 1, 4, 7 e 8 (que tratam, respectivamente, do impacto na vida, do desconforto com a família, do sentimento de isolamento em relação ao namorado ou namorada e da sensação de "sufocamento" pela família em relação à identidade LGBT+). Os indivíduos que não estavam com a família sentiram-se mais afetados pela pandemia de Covid-19 [Msim = 7,59 (SD = 1,93); Mnão = 7,98 (SD = 1,76); t = 2,316; p = 0,021; d de Cohen = 0,21]; aqueles que estavam com a família durante o isolamento sentiram-se mais desconfortáveis na situação de confinamento social [Msim = 5,74 (SD = 3,09); Mnão = 4,34 (SD = 3,32); t = -5,044; p < 0,001; d de Cohen = 0,43], sentiram-se mais isolados de seus namorados(as) (entre aqueles em um relacionamento) [Msim = 7,27 (SD = 3,43); Mnão = 2,99 (SD = 3,91); t = -9,362; p < 0,001; Cohen’s d = 1,16] e sentiram-se mais "sufocados" em relação à sua identidade LGBT+ no âmbito familiar [Msim = 5,82 (SD = 4,00); Mnão = 3,13 (SD = 3.97); t = -7,625; p < 0,001; Cohen’s d = 0,67].
Em relação àqueles que estavam ou não em um relacionamento, houve diferenças significativas entre os grupos nas perguntas 1, 7 e 8 (sobre o impacto na vida, o sentimento de isolamento em relação ao parceiro e a sensação de "sufocamento" na família em relação à identidade LGBT+, respectivamente). Aqueles em um relacionamento sentiram que suas vidas foram mais afetadas [Msim = 7,84 (SD = 1,75); Mnão = 7,52 (SD = 2,01); t = -2,360; p = 0,019; d de Cohen = 0,16] e sentiram-se mais isolados de seus parceiros [Msim = 6,16 (SD = 4,02); Mnão = 3,37 (SD = 4,19); t = -6,992; p < 0,001; d de Cohen = 0,67]. Aqueles que não estavam em um relacionamento sentiram-se mais "sufocados" em relação à expressão de sua identidade LGBT+ dentro da família [Msim = 4,74 (SD = 4,24); Mnão = 5,78 (SD = 3,98); t = 3,594; p < 0,001; d de Cohen = 0,25].
Aplicativos de Namoro e Relacionamento
No total, 42,4% da amostra utiliza (n = 346) aplicativos de namoro ou plataformas relacionadas. Esse uso foi associado ao gênero [χ²(1) = 71,765; p < 0,001] e ao fato de estarem ou não em um relacionamento [χ²(1) = 128,901; p < 0,001]. Assim, homens e pessoas solteiras estariam mais associados ao uso dos aplicativos (Phi = 0,298; Phi = 0,397). Entre os que utilizam, 64,5% são homens e 76,3% são pessoas solteiras. Entre os que não utilizam, 63,8% estão em um relacionamento e 65,6% são mulheres.
Diferenças significativas no questionário de percepção subjetiva foram encontradas apenas na questão 3, sobre o quanto a pandemia afetou emocionalmente. O grupo que não utilizou plataformas online sentiu-se mais afetado [Msim = 7,87 (SD = 2,24); Mnão = 8,32 (SD = 2,01); t = -2,945; p = 0,003; d de Cohen = 0,21]. Em relação à idade média dos que utilizam e dos que não utilizam os aplicativos online, o grupo com idade significativamente maior foi o que mais utilizou [Msim = 23,41 (SD = 3,92); Mnão = 22,74 (SD = 4,01); t = 2,369; p = 0,018; [d de Cohen = 0,16].
Entre os que se identificaram como usuários desses aplicativos, os homens preferiram usar: Tinder (82,9%), Grindr (78,8%), Hornet (25,7%), Scruff (24,3%), Bate Papo UOL (12,2%), Happn (6,3%), Badoo (6,3%), “Par Perfeito” (1,4%) e outros 9 aplicativos mencionados em menor proporção. As mulheres preferiram usar: Tinder (94,3%), Happn (13,1%), Badoo (7,4%), Her (5,7%), Wapa (4,1%), Grindr (2,5%), Taimi (2,5%), Femme (1,6%), Bate Papo UOL (1,6%) e outros 6 aplicativos mencionados com menor frequência.
Em relação ao número de dias de uso desses aplicativos durante a última semana, os homens (M = 2,79; SD = 2,47) apresentaram uma média de uso significativamente maior (t = 4,904; p < 0,001; d de Cohen = 0,49) do que as mulheres (M = 1,69; SD = 1,95). Em relação à média de dias de uso por semana antes do isolamento social, a diferença também foi significativa [Homens = 3,64 (SD = 2,36); Mulheres = 1,88 (SD = 1,84); t = 7,627; p < 0,001; d de Cohen = 0,83].
A diminuição do uso durante o período de isolamento social relatada pelos participantes foi significativa (t = -5,058; p < 0,001; d de Cohen = 0,27; r = 0,507; p < 0,001). Eles indicaram que o uso diminuiu em quase metade dos casos (45,7%), permaneceu constante em 29,8% e aumentou em 24,6%. Calculando essas classificações com base na média de dias informada, 42,8% diminuíram o uso, 33,2% mantiveram e 24,0% aumentaram. Houve associação entre as duas classificações [χ²(4) = 157,268; p < 0,001; V de Cramer = 0,477].
Os objetivos dos homens nesses aplicativos durante o isolamento social foram distribuídos entre: distração (68,9%), conversa (59,9%), relacionamento afetivo (53,2%), sexo casual (50,0%), amizade (48,6%), ver fotos (37,4%), masturbação (36,9%) e sexo virtual (18,9%). Outras respostas totalizaram 0,9%. Entre as mulheres, os objetivos foram: conversar (63,1%), distração (62,3%), relacionamento afetivo (50,8%), amizade (50,8%), sexo casual (29,5%), ver fotos (18,9%), masturbação (4,9%) e sexo virtual (4,1%). As demais respostas totalizaram 0,9%.
Em relação ao que foi alcançado por meio dos aplicativos durante o isolamento social, os homens responderam: conversa (66,7%), distração (63,1%), ver fotos (58,6%), sexo casual (44,6%), masturbação (42,3%), amizade (41,0%), sexo virtual (25,7%), relacionamento afetivo (14,4%). Outras respostas totalizaram apenas 0,9%. Os resultados alcançados pelas mulheres foram: distração (65,6%), conversa (63,1%), amizade (49,2%), ver fotos (36,9%), sexo casual (21,3%), relacionamento afetivo (20,5%), sexo virtual (9,0%), masturbação (6,6%) e beijos (1,6%).
Quebra do isolamento social
O isolamento social foi rompido para encontros com parceiros sexuais por 26,7% dos participantes. Especificamente, entre os usuários de aplicativos de relacionamento, esse número sobe para 29,8%. No entanto, não foi encontrada associação entre as variáveis [χ²(1) = 2,860; p = 0,091]. Homens e mulheres apresentaram frequências muito semelhantes, e não houve associação entre gênero e a quebra do isolamento para encontros [χ²(1) = 2,234; p = 0,135]. O resultado se repetiu em relação a estar ou não em isolamento com a família [χ²(1) = 1,097; p = 0,295].
Associações com a ruptura do isolamento foram encontradas apenas para a variável “estar em um relacionamento ou não” [χ²(1) = 24,075; p < 0,001; Phi = 0,172]. Entre aqueles que romperam o isolamento, 61,0% estão em um relacionamento. Por outro lado, entre aqueles que não romperam o isolamento para ter encontros presenciais, 58,4% não estão em um relacionamento. Assim, aqueles que estão em um relacionamento apresentaram maior probabilidade de romper o isolamento. Em relação ao questionário de percepção sobre a Covid-19 e o isolamento social, apenas a questão 9, sobre o quanto sentem medo de serem infectados, apresentou diferenças significativas nas médias em relação a romper ou não o isolamento social para encontros [Msim = 7,66 (SD = 2,68); Mnão = 8,13 (SD = 2.39); t = -2,299; p = 0,022; d de Cohen = 0,18].
Discussão
Este estudo apresentou resultados que estão em consonância com outros estudos sobre a Covid-19 em outros países. A taxa de isolamento social de 79,5% foi superior à média nacional para o período (menos de 50%) e resultados semelhantes foram encontrados em um estudo desenvolvido nos Estados Unidos, onde, em uma amostra de homens gays e bissexuais, 88% adotaram a estratégia de isolamento durante um determinado período da pandemia (McKay et al., 2021). No mesmo sentido, foram os dados de homens que fazem sexo com homens do Brasil e de Portugal que responderam estar em isolamento, 71% e 74,6%, respectivamente (Souza et al., 2021).
É importante ressaltar que o grupo em isolamento social se sente significativamente mais bem informado sobre a Covid-19 e mais limitado por causa desse contexto. Os fatores envolvidos nessa postura de isolamento podem ser explicados pelas informações que as pessoas possuem sobre o alcance e as características da pandemia. Um estudo que explorou o impacto da informação online na intenção de autoisolamento dos indivíduos constatou que aqueles que utilizam redes sociais percebem maior gravidade na situação e alcançam maior autoeficácia. Ambos os construtos, gravidade e autoeficácia, impactam positivamente a intenção de autoisolamento quando comparados ao grupo de pessoas que não utilizam redes sociais como ferramenta de informação (Farooq et al., 2020). Embora os aplicativos (aplicativos, sites ou plataformas de relacionamento) não sejam considerados a priori como redes sociais, como Facebook e Instagram, entende-se que a presença do usuário nesses aplicativos contribui como uma extensão de sua rede de relacionamentos interpessoais, o que pode impactar as informações que ele acessa e discute (Higa et al., 2014).
Os resultados apresentados mostram que as mulheres relataram ter sido mais afetadas emocionalmente. Esse resultado pode estar associado ao estigma encontrado ao se identificar como lésbica e bissexual, o que, em situações da vida cotidiana, mesmo sem uma pandemia, já aponta para um maior sofrimento em comparação com mulheres heterossexuais (Cochran et al., 2003). A suscetibilidade ao mal-estar subjetivo decorre da discriminação, especialmente quando há autoidentificação como lésbica ou bissexual e exposição dessa condição a outras pessoas, a partir de uma perspectiva heteronormativa (Kulkin, 2006). Os dados sobre a saúde mental da população em geral mostram que as mulheres apresentam indicadores piores em comparação com os homens, reforçando que as diferenças de gênero, sobre as quais a sociedade brasileira se estrutura, são um dos fatores estressantes para essa parcela da população (Read & Gorman, 2010).
As mudanças impostas pela pandemia de Covid-19, especialmente o isolamento social, foram destacadas como elementos que afetaram o bem-estar da população estudada. Nesse contexto de isolamento, estar ou não com familiares também apresentou resultados significativos. A literatura sobre o apoio social da população LGBT+ aponta para a importância da família como elemento protetor para os membros desse grupo (McConnell et al., 2015; 2016; Watson et al., 2016). Embora o papel de apoio da família seja enfatizado, observa-se que, quando isso não ocorre, há um impacto negativo considerável no bem-estar da população LGBT+ (Higa et al., 2014; Puckett, Woodward et al., 2015).
Nesse sentido, os participantes que não estavam com a família e se sentiram mais afetados pela pandemia indicaram ter percebido apoio social do grupo familiar e, ao mesmo tempo, consideraram-se aceitos no ambiente familiar. Além disso, devem ser considerados os fatores práticos de não estar com a família neste momento, em muitos casos a pressão financeira aumentou e há limitações na divisão de responsabilidades e tarefas, ou mesmo a sensação de solidão que pode surgir por estar longe de seus laços afetivos.
Em contrapartida, o grupo de pessoas que estava morando com suas famílias sentiu-se mais desconfortável com o isolamento social e mais sufocado para expressar sua identidade LGBT+ (um indicador de limitação da expressão). Possivelmente, encontram-se em um ambiente familiar que pode ser considerado com apoio social restrito em relação à sua identidade. É preocupante que este seja o maior grupo da amostra, cerca de 80%. Isso serve de alerta tanto para a situação precária de aceitação familiar vivenciada por esses jovens quanto para os possíveis resultados negativos para sua saúde mental que podem decorrer dessa experiência prolongada de exposição ao problema (Pereira & Leal, 2005; Perucchi et al., 2014; Toledo & Teixeira, 2013).
No que diz respeito à associação entre estar com a família e sentir-se mais isolado do namorado ou namorada, é importante atentar para esse aspecto, visto que alguns estudos confirmam a importância dos relacionamentos afetivos para o bem-estar subjetivo da população LGBT+ (Grossman et al., 2000). Talvez por isso, aqueles que estavam em um relacionamento sentiram que suas vidas foram as mais afetadas pela pandemia. As condições de estigma e discriminação intrafamiliar podem contribuir de forma singular para a população estudada, por exemplo, dificuldades em realizar videochamadas ou outras formas de interação que expressem sua identidade aos familiares. No entanto, ter um relacionamento pode desempenhar um papel protetor, visto que aqueles que não têm um relacionamento se sentem mais sufocados em relação à sua identidade LGBT+.
O impacto do isolamento social nas relações dentro do grupo LGBT+ não se restringe à interação com namorados(as). O papel das amizades como fonte de apoio social merece atenção substancial, o que a literatura na área confirma como um elemento de suporte para os membros do grupo (Frost et al., 2016). No contexto de isolamento, especificamente em ambientes onde o comportamento de identificação LGBT+ é restrito devido a limitações familiares, esse contato com amigos pode ser afetado quando estes também se identificam como LGBT+. O problema é flagrante em casos em que há maior experimentação de gênero, como em homens afeminados ou pessoas em transição de gênero (por exemplo, Ramos et al., 2020). Nesta amostra, os participantes sentiram-se significativamente mais isolados de seus amigos LGBT+ do que de seus amigos não LGBT+, o que pode impactar a rede de apoio e o bem-estar dessa população (Frost & Meyer, 2012; Kertzner et al., 2009; Puckett, Levitt et al., 2015). Considerando que esse suporte é realizado por meio de plataformas que preservam a intimidade do usuário, como redes sociais ou outros aplicativos de bate-papo, essa pode ser uma alternativa que pesquisas futuras precisariam avaliar.
Como já apontado por outras pesquisas, ser homem e solteiro foram fatores associados ao uso de aplicativos de namoro nesta amostra (Ciocca et al., 2020; Goedel & Duncan, 2015; McKay et al., 2020; Souza et al., 2021). Alguns dados fornecidos por empresas de aplicativos de namoro relatam o aumento do uso desses aplicativos e da quantidade de mensagens enviadas durante o período da pandemia (Brennan et al., 2020). Considerando esse contexto de isolamento social condicionado pela pandemia, o uso de aplicativos de namoro pode desempenhar o papel de ferramenta para lidar com as dificuldades impostas pelo momento. Nesse sentido, os resultados indicam que as pessoas que não usaram aplicativos de namoro durante o período de isolamento social apresentaram maiores dificuldades emocionais em comparação com o grupo de participantes que usaram os aplicativos.
O uso de aplicativos de namoro como estratégia de enfrentamento sugere uma gama mais ampla de usos e efeitos desses aplicativos na vida dos usuários. Embora no imaginário social esses aplicativos sejam descritos como instrumentos que visam apenas facilitar o estabelecimento de relações sexuais (Duguay, 2016; Timmermans & Courtouis, 2018). Especificamente, o uso de aplicativos de namoro pode servir como ferramentas de libertação para aqueles que se sentem oprimidos ou são sensíveis à rejeição (Hance et al., 2017). Além disso, há evidências da importância desses aplicativos em situações como o isolamento social com a presença de familiares, permitindo que as pessoas criem um espaço para a expressão de sua identidade sem a interlocução com aqueles que as cercam.
Com base na compreensão de que os aplicativos de namoro podem ser um elemento que contribui para a saúde mental, funcionando como uma ferramenta de apoio social para parte dos participantes da pesquisa, é necessário verificar as características que sustentam essa usabilidade. Os dados indicam que os homens não apenas representam o maior número de usuários, mas também são aqueles que dedicam mais tempo ao uso desses aplicativos. Nesta amostra, houve uma diferença na média de dias de uso por semana durante o isolamento e antes da pandemia, tanto para homens quanto para mulheres, sendo os homens novamente os usuários mais frequentes. No entanto, conforme os próprios participantes relataram, houve uma diminuição no uso, demonstrando que o isolamento social interferiu nessa dinâmica. Por um lado, os usuários podem ter encontrado mais dificuldades para usar os aplicativos devido à falta de privacidade em casa. Além disso, o uso pode ter perdido o sentido também devido às limitações impostas pela dinâmica do isolamento: impossibilidade de encontros presenciais, falta de locais para encontros íntimos ou públicos, dificuldade em justificar a saída de casa para os familiares, etc.
Um estudo anterior relacionado ao aplicativo Grindr mostrou que o grupo de homens que fazem sexo com homens (HSH) utiliza o aplicativo de acordo com seis necessidades: inclusão/aprovação social, sexo, amizade/rede de contatos, relacionamentos românticos, entretenimento e pesquisa baseada em localização (Van de Wiele & Tong, 2014). Entre as descobertas desse mesmo estudo, destaca-se que os homens que vivem em pequenas áreas urbanas usavam o aplicativo com o objetivo de expandir sua rede social, enquanto aqueles que vivem em áreas maiores buscavam com mais frequência relações sexuais. Outro ponto apontado por Van de Wiele e Tong (2014) foi que a expansão das interações sociais é marcada pela divulgação da identidade no perfil do aplicativo, o que serviria como um mecanismo modulador de confiança entre os pares. Essas duas variáveis, geolocalização e informações compartilhadas, não foram abordadas neste estudo e indicam caminhos para uma compreensão mais aprofundada das características dos relacionamentos por meio desses aplicativos.
Para entender como os aplicativos estão colaborando com a saúde mental dos participantes, é necessário descobrir quais são os propósitos de uso declarados pelos usuários. De acordo com os resultados encontrados, há uma predominância da busca por distração e conversas, sendo essas as duas respostas mais frequentes tanto para homens quanto para mulheres. Embora esses dados não correspondam ao que está presente no imaginário social – que vislumbra a busca por sexo casual como a principal motivação para o uso de aplicativos de namoro (Duguay, 2016) – eles acabam corroborando estudos anteriores que associam o uso de aplicativos a esse propósito e não apenas à busca por parceiros sexuais casuais ou relacionamentos de longo prazo (McKay et al., 2020; Van de Wiele & Tong, 2014). O sexo casual aparece para os homens como o quarto e para as mulheres como o quinto motivo, mas com adesão muito menor. Em geral, os homens demonstraram maior engajamento nas possibilidades oferecidas pelos aplicativos do que as mulheres. O sexo virtual, por exemplo, que foi a resposta menos frequente entre os propósitos de uso, é buscado por 18,9% dos homens e apenas 4,1% das mulheres. Mas é evidente o papel que os propósitos, a priori, como amizade, conversa e distração têm para ambos os grupos. O foco dado pelos respondentes pode ser afetado por sua condição de isolamento social, de modo que a estratégia de mudar o perfil de busca para interações não sexuais ou baseadas em relacionamentos de longo prazo pode revelar um efeito colateral devido à mudança de ambiente e sem planejamento prévio.
Em consonância com o que a amostra busca por meio dos aplicativos, as conquistas obtidas por meio deles durante a pandemia também tiveram a distração e as conversas como os resultados mais frequentes entre esses jovens. No entanto, houve diferenças marcantes entre o que era almejado e o que foi alcançado durante esse período. Por exemplo, houve um aumento na opção de visualização de fotos e uma diminuição nos relacionamentos afetivos.
The low frequency of isolation breakdown among users of these platforms (29.8%) helps to certify the intention to use the apps for activities outside the strict realm of sexual relations, or at least the choice to postpone these meetings to a safer time. Although the intention was beyond sex, it is noted that men responded to have established casual sex (44.6%) due to apps, in line with the survey of another Brazilian and Portuguese sample, specifically of MSM, which revealed that 53% of participants had had casual sex during the isolation period (Souza et al., 2021). In another study, conducted in the United States, it was noted a decrease in the number of partners of MSM during the pandemic and the adoption of new strategies for having sex such as the use of virtual media (McKay et al., 2020). In the present sample, 25.7% of men and 9.0% of women had already practiced virtual sex, from the dating apps, at the time of the survey.
Unlike what happened with the use of apps, the break from social isolation did not differ between men and women. Nor did it differ concerning whether or not they were with the family during the period. However, those in a relationship broke social isolation significantly more. This raises the hypothesis that relationships can stimulate inconsistency in social isolation, perhaps young people feel more secure in breaking social isolation with someone from a previous coexistence. However, this is not confirmed by the recommendations of health protocols. Even those participants who did not break up were more afraid of being infected.
Considerações Finais
Os desafios de vivenciar o isolamento social em decorrência da pandemia de Covid-19 demonstram algumas especificidades quando se trata da população LGBT+, devido às vulnerabilidades históricas ligadas a esse grupo. O estigma e a discriminação social, que estão associados ao maior número de casos de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático nessa população, são alguns dos indicadores que demonstram a necessidade de realização de estudos e políticas públicas voltadas especificamente para esse grupo (Hatzenbuehler, 2010; 2014; 2017). Além disso, o preconceito é considerado uma variável que contribui para o afastamento dessa população dos serviços de saúde e assistência social.
A amostra é composta majoritariamente (91,8%) por indivíduos cisgênero. De acordo com estudos na área de estigma e discriminação, a população transgênero apresenta maiores taxas de abuso de substâncias, estigma e assédio quando comparada à população cisgênero (Gamarel et al., 2014; Hughto et al., 2015). Assim, esses dados indicam que a população alcançada durante a pesquisa está inserida em um grupo vulnerável, no que diz respeito ao amplo grupo LGBT+, mas não representa a parcela mais afetada pelo processo de estigmatização (Hughto et al., 2015).
Os resultados encontrados nesta pesquisa estão associados ao período em que ela foi realizada, aproximadamente dois meses após o início do isolamento social no Brasil. O monitoramento dessas variáveis por um período mais longo poderia demonstrar mudanças tanto na adesão ao isolamento social quanto no uso das redes sociais. A regularidade da coleta de dados nesse contexto de pandemia, abrangendo diferentes momentos ou fases do isolamento, enriqueceria o conhecimento sobre o efeito dos aplicativos de relacionamento na população LGBT+.
Estudos futuros devem investigar o papel desses aplicativos no suporte social em contextos com e sem isolamento social. Além disso, é importante compreender outros mecanismos de comunicação, como as redes sociais, e as adaptações utilizadas pela comunidade LGBT+ no contexto do isolamento social familiar. As experiências de homofobia familiar durante a pandemia devem ser exploradas por meio de pesquisas para possibilitar a compreensão desse fenômeno. Este estudo demonstrou que o uso de aplicativos por jovens LGBT+ durante o isolamento social pode ser uma ferramenta de proteção, com a manutenção de redes sociais. A quebra do isolamento para encontros amorosos por meio de aplicativos não foi fortemente associada, o que reduz a ideia de que jovens socialmente isolados tenderiam a sucumbir aos apelos de encontros afetivo-sexuais pela internet.














