“Eu Daniel Blake” é um longa-metragem dirigido por Ken Loach (2016), cineasta reconhecido por sua formação política e olhar sobre a classe trabalhadora. O filme apresenta uma clara crítica aos desmontes das políticas públicas voltadas para o bem-estar social do trabalhador na Inglaterra. Escrita por Paul Laverty, a obra ganhou diversos reconhecimentos da indústria cinematográfica, tais como o Cannes Film Festival (2016) e BAFTA Awards (2017). Acostumado com as narrativas sobre a classe trabalhadora, é notória a semelhança desse longa-metragem com outras narrativas de Loach, especialmente a intitulada “My Name Is Joe” (Loach, 1998)1.
A história aborda a vida de Daniel Blake, um carpinteiro de Newcastle na Inglaterra, viúvo, com 59 anos que, após sofrer um problema cardíaco, é desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho. Dan, como é chamado pelos mais próximos, busca então receber os benefícios concedidos pelo governo aos que se encontram nessa situação, entretanto, ele esbarra na extrema burocracia governamental, amplificada pelo fato deste ter uma idade elevada e ser um excluído digital2, ou seja, conforme apresentado no filme, Blake não possui domínio para manusear computadores e por isso enfrenta dificuldades para operar sistemas de informação, necessitando de auxílio de terceiros.
Numa de suas várias idas ao departamento governamental, ele conhece Katie, mãe solteira de duas crianças, desempregada, que havia se mudado recentemente para a cidade e não possuía condições financeiras para manter a si e aos filhos, tampouco qualificação profissional que a possibilite ingressar em um emprego. Após defendê-la durante uma discussão no departamento do Serviço Social Inglês, Blake se aproxima de Katie e iniciam uma amizade.
Na busca pelos benefícios sociais, o protagonista esbarra em obstáculos tecnológicos e burocráticos em diversos momentos, desvelando a estrutura disfuncional dos procedimentos impostos para o acesso aos recursos materiais (teoricamente) disponíveis aos trabalhadores. Os obstáculos ficam ainda mais complicados quando o indivíduo é um excluído digital (Sousa, 2017), como no caso de Blake.
A constante necessidade do preenchimento de formulários se faz presente em várias cenas. Dentre as várias situações constrangedoras e desgastantes, Blake é submetido a entrevistas com perguntas padronizadas que não abordam sua debilidade cardíaca, além da exigência de inúmeros documentos que somente podem ser enviados pela internet, desconsiderando por completo as condições físicas e o conhecimento tecnológico que este possui. Observa-se um cenário que enfatiza o absurdo kafkiano dos círculos da papelada (Kafka, 2005) e, paralelamente, a degradação das condições de vida do trabalhador.
Ao retratar a degradação da saúde de um trabalhador, a obra ilustra alguns aspectos dos determinantes sociais sobre a saúde, tais como a idade, estilo de vida, organizações sociais de apoio, até questões como o desemprego e a falta de assistência. O problema de saúde retratado na história do protagonista foi um infarto. O Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) é um tipo de acometimento que acarreta ao indivíduo grande incapacidade laboral temporária ou permanente. Além disso, tal evento exige diferentes tipos de ações de reabilitação, tendo em vista a recuperação funcional dos enfermos (Leal et al., 2014).
O diretor Ken Loach deixa claro o quanto o enrijecimento e absolutismo das normas e procedimentos ocasiona injustiças junto aos que dependem dos serviços, tornando-os praticamente inalcançáveis. Apesar de os médicos lhe recomendarem o afastamento do trabalho, representantes do governo, ao notarem que Blake conseguia levantar os braços, sugerem que este procure por emprego enquanto aguarda o julgamento de seu pedido de auxílio. Esse aspecto, representado no filme, denota claramente a diferença entre o trabalho prescrito e o trabalho real, como apontado por Dejours (2005). Como bem colocado por Areosa (2019, p. 9), o trabalho prescrito é “sempre incompleto” a crítica do entendimento desse trabalho é algo muito presente na vida do trabalhador, uma vez que, é fazendo o trabalho real, que este nota aspectos que não funcionam bem, ou seja, que não são exequíveis ou aplicáveis para a realização das tarefas preestabelecidas.
No filme, a injustiça é representada por diferentes facetas, contemplando as dimensões indicadas por Fraser (1997): econômica, quando os personagens têm negado o auxílio material adequado para manutenção da qualidade de vida; e simbólica, quando não são reconhecidos como cidadãos, transformando-os em seres praticamente invisíveis para as autoridades.
A obra retrata a marcha de um trabalhador rumo à pobreza e o desespero enquanto aguarda e luta pela garantia de seus direitos em um momento de incapacidade, o que demonstra como a fragilidade dos serviços estabelecidos para prover o trabalhador podem levá-lo a uma condição de miséria. Enquanto aguarda o desfecho de sua situação, Blake se vê obrigado a vender móveis e objetos particulares para conseguir dinheiro para sua subsistência. Nesse processo, o protagonista acaba se enfraquecendo e se afastando do convívio com os amigos. Apesar da condição de um homem trabalhador do protagonista, essa identidade fica em segundo plano durante o filme, sendo a figura do cidadão clamando por seus direitos e pela sua dignidade, o plano principal. Segundo Lukács (2012), é o trabalho o fenômeno que marca a estrutura ontológica do ser social. O homem surge como um ser genérico, mas o trabalho e as relações de produção no contexto capitalista moldam o homem. Nesse sentido, nota-se o quanto Blake revela um sentimento de frustração, por não poder estar trabalhando, fazendo o que fez durante toda uma vida.
Paralelamente à narrativa de Blake, o filme aborda a trajetória decadente de Katie que, tendo dois filhos (Dylan e Daisy) e sem oportunidades de emprego, se vê forçada a prostituir-se. Dylan apresenta um perfil hiperativo e resistente à interação com adultos, bem como finge não ouvir o que por eles lhe é dito. O comportamento do menino talvez remeta a um quadro de autismo, que não é explorado ao longo do filme.
Katie foi transferida pelo departamento de habitação de Londres, onde morava num albergue, para residir em uma velha casa em Newcastle com os dois filhos. É provável que Katie represente os moradores afetados pela crise imobiliária ocorrida no Reino Unido que atingiu Londres, forçando indivíduos a procurarem locais de moradia na periferia (Taylor, 2015) e se distanciarem da família e redes de apoio. Não por acaso, suicídios e mortalidade em áreas como Newcastle foram associadas à austeridade, isto é, ações do governo para reduzir custos, seja por meio de cortes de gastos ou aumento de impostos (Dorling, 2017; Pring, 2017). A austeridade e os cortes no orçamento governamental no Reino Unido foram impulsionados a partir do ano de 2010, agravando a desigualdade entre governos locais e aumentando a injustiça territorial (Gray & Barford, 2018).
Antes de ingressar na prostituição (em função do desespero e desassistência, frise-se), Katie passa por dois momentos marcantes. Num deles, Daniel acompanha Katie e seus filhos a um banco de alimentos, onde pela primeira vez foram tratados com dignidade e atenção. Drenada pela fome e falta de sono, além de desarmada pela simpatia daqueles atores sociais, Katie apressadamente abre uma lata de alimento, devorando com bastante pressa o conteúdo, ao mesmo tempo, em que se esconde e chora copiosamente.
A realidade de Katie aproxima-se em boa parte da realidade brasileira, onde se observa nos últimos anos um crescente número de mães solteiras, com baixa qualificação e renda que se encontram em situação de vulnerabilidade social (Cavenaghi & Alves, 2018). O filme nos lembra que na austeridade neoliberal não se pode esperar do Estado a promoção do bem-estar social, isto é, um conjunto de ações e instituições voltadas para a qualidade de vida e serviços sociais (Laurell, 1995). Como bem retrata o filme, há um grande distanciamento e uma luta constante entre o sistema de assistência social e o trabalhador, que passa a ser apenas um número. Como bem pontua Petković (2018), com a expansão do neoliberalismo no Reino Unido, houve um alavancamento do Estado punitivo.
Na obra, o Centro de Assistência Social é retratado como um local onde as pessoas não possuem qualquer tipo de empatia com o público, porém esse cenário é rompido por uma das personagens, Ann, uma gentil funcionária que demonstra, além da empatia, certa compreensão e respeito pelos cidadãos que procuram o referido Centro. O comportamento de Ann não é bem recepcionado por sua chefe, o que torna perceptível a demasiada pressão exercida sobre a equipe, que se encontra vinculada a metas de desempenho, perguntas roteirizadas e elevada insegurança quanto a manutenção do emprego, ademais, observa-se a estigmatização do beneficiário que busca auxílio.
Igualmente, as formas de tratamento aplicadas sugerem que o Estado culpa o indivíduo por não conseguir um emprego, sugerindo que o cidadão é disfuncional porque não sabe preencher um currículo, não possui acesso às ferramentas tecnológicas ou não foi capaz de seguir uma das inúmeras regras rigidamente impostas. Tal situação é retratada no filme quando Blake é direcionado para uma oficina de elaboração de currículos. Nas palavras do diretor Ken Loach “dizem às pessoas mais vulneráveis que sua pobreza é sua própria culpa. Se você não tem trabalho, é sua culpa que você não conseguiu um emprego” (York, 2016). De acordo com Kramer (2017), é inerente ao modelo neoliberal culpabilizar o trabalhador pelo seu sucesso ou insucesso. Isso decorre de um cenário onde, devido ao crescimento dos ideais neoliberais, o Estado, ao introduzir novas formas de relação, também gera uma nova concepção de indivíduo, com sua subjetividade introjetada por ideias de competição, que naturaliza o risco e que se torna o único responsável por seu destino (Dardot & Laval, 2016). Tal aspecto pode impactar a saúde mental do indivíduo, pelo fato dele não possuir um emprego formal e não ser visto como um “cidadão ativo e produtivo” (Pinheiro & Monteiro, 2007, p. 42).
Um dos momentos marcantes do filme, refere-se à rebelião final do protagonista contra os funcionários da assistência social, que se recusaram a responder à sua reivindicação. Com uma lata de spray de tinta na mão, ele grava uma mensagem nas paredes do Centro de Assistência Social, recebendo em seguida muitos aplausos dos transeuntes: “I’m Daniel Blake, appeal data before I starve and change the shite music on the phones” (“Eu sou Daniel Blake, exijo a data do meu recurso antes que eu morra de fome e a mudança da música de merda dos telefones”). Esse episódio ilustra a clara manifestação da sua existência, perante um sistema que o deixa invisível.
Por mais que a obra de Ken Loach trate de leis e regras tipicamente inglesas, é impossível não se identificar de algum modo com a saga do personagem-título e até mesmo traçar um paralelo com a realidade política existente no Brasil.
Apesar das diversas críticas que podem ser extraídas da obra, há um claro exame à privatização, pois os profissionais da assistência social, com os quais Blake teve que tratar, são terceirizados. Nessa situação, se de um lado o cidadão busca a eficácia do atendimento, de outro há uma busca pela eficiência da operação, que parece cinicamente estruturada para difamar, humilhar e frustrar os clientes-cidadãos, no caso os trabalhadores, que acabam desistindo, economizando, desse modo, o tempo e dinheiro da empresa que presta o serviço. Na visão de Prado e Duarte (2015), a racionalização é uma característica do capital, que no âmbito político tem sido utilizada para explorar o trabalho. Nas palavras de Loach: “(...) a verdade do que o filme diz, que centenas de milhares de pessoas neste país sabe, é que as pessoas mais vulneráveis e mais pobres são tratadas por este governo com uma brutalidade insensível que é vergonhosa” (Loach, 2017).
Algo semelhante a esse cenário tem se visto no Brasil. Para Druck et al. (2019), o capitalismo globalizado vem transformando a economia e impondo uma lógica de volatilidade e de acumulação flexível, alicerçados na flexibilização e precarização do trabalho, alimentado por uma racionalidade neoliberal do Estado. A reforma trabalhista brasileira, ocorrida no ano de 2017 com a aprovação da Lei 13.467, demonstrou a ofensiva do capital no desmonte de direitos sociais e trabalhistas, possível no Brasil por conta de três aspectos: ação classista do capital sobre a classe trabalhadora; ocorre num momento de fragilidade democrática e com o aval do Poder Judiciário; e, por fim, por meio da contestação do paradigma protetivo dos trabalhadores e a negação da hipossuficiência deste, isto é, da falta de reconhecimento deste na sua condição de vulnerável e subordinado (Druck et al., 2019).
A busca do trabalhador por direitos está se tornando algo cada vez mais penoso e sendo um panorama cada vez mais comum. No Brasil muitos trabalhadores passam por diversas situações humilhantes ao se afastarem do trabalho por acidente ou doença. Em razão disso, necessitam de assistência social na figura do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Estudos revelam que no Brasil vários trabalhadores sofrem assédio moral durante perícias judiciais (Lima et al., 2014); danos morais durante o exame pericial da Previdência Social (Barros, 2019); descaso, desconfiança e atendimento inadequado por parte de peritos do INSS (Zavarizzi & Alencar, 2018), bem como vivenciam contradições entre as decisões emanadas por médicos do INSS e médicos externos à instituição, sobre o estado de saúde do trabalhador (Schlindwein, 2013).
A racionalização do trabalho e a burocracia estatal retratadas no filme não estão distantes daquelas vistas no contexto nacional. Como tem demonstrado alguns estudos (Prado & Duarte, 2015; Stopa, 2019), o acesso a benefícios por meio do INSS tem sido caracterizado pela falta de informações, critérios enrijecidos que tornam o percurso do beneficiário penoso, ao mesmo tempo em que é visível a restrição aos benefícios.
Outra história que surge no filme, é a do vizinho de Blake, “China”. Em um segundo plano, Loach retrata a mudança histórica nas relações de trabalho. “China” trabalha sobre regime de flexibilidade da jornada de trabalho, endossada pelo discurso do empreendedorismo. O jovem atua no comércio informal, onde negocia a preço reduzido tênis de marcas reconhecidas, os quais obtêm diretamente da fábrica por meio de um intermediário que trabalha em uma unidade fabril na Ásia. Novamente, só é demonstrada a classe trabalhadora no sentido econômico, pela posição que esses indivíduos ocupam nas relações de produção. Entretanto, não há classe no sentido sociológico: não há luta explícita ou organização de classe. A “viração” (Telles, 2006) se coloca como alternativa concreta e não como luta de classe. Nesse ponto, é importante notar que o filme apresenta uma clara mudança nas relações de trabalho. Enquanto Blake é um exemplo de trabalhador do modelo operário, “China” atua na informalidade, com horários e ganhos flexíveis, um empreendedor.
Todo o enredo do filme acontece no quadro de um Estado neoliberal forte e altamente punitivo. Dispositivos de controle da sociedade contemporânea e das relações de poder e dominação são observados na obra. Assim, ao retratar as formas de atuação do Estado neoliberal, o filme remete aos conceitos de sociedade disciplinar de Foucault (1998), assim como de sociedade de controle de Deleuze (1992). A vigilância e intervenções contínuas do Estado neoliberal e suas instituições, como retratados em “Eu, Daniel Blake”, são retratos do poder coercitivo das instituições no modelo neoliberal.
No neoliberalismo a figura do cidadão tende a uma dissolução, em razão da quebra da relação historicamente construída entre o sujeito e o Estado, na qual este não garante os direitos básicos à maioria dos cidadãos (Brown, 2015). Assim, o que Daniel Blake retrata é a figura do Estado no modelo neoliberal e o papel que este possui na reprodução do capital e na degradação da justiça e do bem-estar dos cidadãos. A situação do vizinho de Blake, “China”, representa bem a causalidade do trabalho assalariado e o fomento da ideia de empreendedor de si (Oliveira & Sampaio, 2018).
Loach utiliza das histórias de Blake e Katie para expor as dificuldades enfrentadas pelos mais vulneráveis no modelo neoliberal, demonstrando como, e por meio de ações estatais impositivas, os sujeitos são obrigados a se remodelarem dentro dos padrões tidos como aceitáveis, ganhando notoriedade, o homos economicus3. Observa-se que em “Eu, Daniel Blake”, o cidadão como portador de direitos sociais e políticos torna-se apenas o “homo economicus”; o bem-estar keynesiano é transformado no aparato coercitivo para facilitar a economia capitalista de livre mercado.
No entanto, apesar o modelo neoliberal ser um catalisador da individualização e do isolamento entre os trabalhadores, inclusive com repercussões sobre os processos de adoecimento destes (Antunes & Praun, 2015), no filme, é possível notar, em diferentes situações, a solidariedade emergir entre os trabalhadores. Além da ajuda mútua entre Blake e Katie, ambos são agraciados por microssolidariedades ao longo do filme, como, por exemplo, “China” (vizinho de Blake) que, em determinado momento, o ajuda no preenchimento de um formulário na internet, mesma atitude de Ann do setor de assistência, que sai do protocolo e se arrisca para auxiliá-lo a superar a burocracia. Assim, a obra apresenta de forma sutil pequenos núcleos de cooperação e solidariedade entre pessoas que estão buscando oportunidades ou enfrentando problemas pela falta delas. É normal que trabalhadores em quaisquer cargos desenvolvam estratégias defensivas (Dejours, 1999a; 1999b) para conseguirem realizar a atividade, garantir sua manutenção e/ou tornar o sofrimento tolerável. Nesse sentido, nota-se que o sujeito ou grupo não consegue transpor para um espaço de ação, de discussão como proposto pela clínica do trabalho, mantendo-se encoberto pelo sistema defensivo (Amaral et al., 2021). Existe a preocupação com o “sofrimento ético” que o sofrimento não é somente psíquico, mas, também, pelo aspecto de exclusão social (Bertini, 2014). Além disso, esse "sofrimento ético" impele o trabalhador a praticar determinadas ações que ele condena moralmente, no entanto, devido ao trabalho ele pratica mesmo sobre reprovação da consciência moral (Areosa, 2019).
A obra do diretor Ken Loach é caracterizada, desde o início, por reproduzir infortúnios da classe trabalhadora e mostrar como as pessoas se encontram encurraladas em determinadas situações. Para alguns críticos, o filme peca na falta de sutileza e certo exagero nas situações representadas, já outros defendem tal abordagem como meio de atrair a atenção do espectador e demonstrar a crueldade do Estado com o cidadão. Nesse ínterim, a história percorre um caminho efetivo no sentido de envolver o público emocionalmente e politicamente na problemática representada.
O filme acerta ao retratar as grandes dificuldades que o cidadão pode ter ao buscar seus direitos, haja vista as diferenças abissais entre aqueles que possuem empregos bem remunerados e os que se encontram em situação de vulnerabilidade. Assim, a obra apresenta uma realidade perversa que permite ao público compreender até que ponto políticas, regras e processos podem causar danos àqueles que necessitam de assistência e benefícios governamentais, especialmente os trabalhadores.
Os personagens principais são brancos, deixando-se de discutir como as questões raciais também interferem na injustiça social. Contudo, o filme não deixa de abordar essa questão, quando entra em cena o vizinho de Blake (o “China”), um jovem negro e que, sem muito direcionamento na vida, atua na venda de sapatos como forma de empreender, porém, sob o olhar desconfiado de Blake no que concerne à origem dos produtos. Além disso, Daisy, a filha de Katie, é notoriamente mestiça.
Um dos aspectos que fragiliza o enredo do filme está no fato de os personagens principais não terem suas histórias contadas. Assim, observa-se que Blake e Katie são apresentados apenas como vítimas e/ou heróis, restando ocultos traumas, desafios ou falhas que estes possam ter no decorrer de suas jornadas de vida. Por exemplo, o protagonista é viúvo e, aparentemente, sua esposa apresentava problemas mentais, mas esse assunto não é clarificado ao longo do filme. Também não é abordada a relação de Katie com a família e os pais de seus filhos que, nitidamente, não oferecem suporte material nem emocional às crianças.
Finalmente, a obra constitui boa referência aos profissionais que atuam nas áreas de saúde e assistência social que abordam temáticas sobre a saúde do trabalhador, assim como aos interessados em questões sociais e laborais contemporâneas.














