SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.24 número2Cuidado, controly contemporaneidad: consideraciones sobre la relación adulto-niñoRaíces metapsicológicas de la compasión índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Articulo

Indicadores

Compartir


Revista Subjetividades

versión impresa ISSN 2359-0769versión On-line ISSN 2359-0777

Rev. Subj. vol.24 no.2 Fortaleza  2024  Epub 20-Mar-2026

https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v24i2.e13092 

Estudos Teóricos

A jornada heróica na obra Vidas Secas: Apropriações entre literatura e psicologia analítica

The heroic journey in the work Vidas Secas: Appropriations between Literature and analytical psychology

La jornada heroica en la obra Vidas Secas: Apropiación entre literaturay psicologia analítica

Le voyage héroïque dans l’æuvre Vidas Secas: Appropriations entre littérature et psychologie analytique

Rita de Cássia Rebouças Rodrigues1 
http://orcid.org/0000-0002-5246-5593; lattes: 2350498575894197

Julio Cledson de Oliveira Guedes2 
http://orcid.org/0000-0001-8328-6160; lattes: 4091541420188058

Francisco Welligton de Sousa Barbosa Junior3 
http://orcid.org/0000-0002-1513-236X; lattes: 4662758014055142

José Clerton de Oliveira Martins4 
http://orcid.org/0000-0002-8229-0915; lattes: 8918639286213239

1Graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará; Doutoranda em Saúde Pública do Curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará; Mestrado em Saúde Pública do Curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará; especialização em Gestão em Saúde pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca - ENSP/FIOCRUZ; especialização em Avaliação Psicológica pela Universidade Federal do Ceará

2Graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará e mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará. Foi docente na Faculdade de Tecnologia Intensiva, FATECI e Professor Orientador de TCC na Escola de Saúde Pública do Ceará

3Doutorando em Estudos Culturais na Universidade de Aveiro/Portugal, com Estágio Doutoral na Universidade de Lancaster/Inglaterra (2023) e Intercâmbio na Universidade de Deusto/Espanha (2018). Bolsista de Investigação pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)/Portugal. Mestre em Psicologia (2020). Mestre em Literatura pela Universidade de Évora/Portugal (2018). Graduado em Psicologia pela Universidade de Fortaleza/Brasil (2016)

4Doutor em Psicologia (Universitat de Barcelona/UB/Espanha). Mestre em Psicologia (Universitat de Barcelona/UB/Espanha). Mestre em Artes da Cena (ESCH/SP). Pós-doutorado em Estudos Culturais (2018/19), realizado na Universidade de Aveiro/UA (Portugal). Pós-doutorado em Estudos sobre Ócio e Desenvolvimento Humano (CAPES 2005-2006) realizado na Universidad de Deusto/UD (Espanha). Graduação em Psicologia (IES/Brasil)


Resumo

O presente artigo busca identificar as etapas da jornada heroica captadas do enredo da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e vividas pelo personagem retirante Fabiano. Com esse fim, realizamos uma revisão narrativa de literatura sobre o âmbito conceituai convocado, com foco na psicologia analítica, o que serviu de base para a análise do personagem em seu percurso interno e externo no decorrer da obra. Isso nos permitiu a interpretação de que Fabiano percorre as doze etapas da jornada heroica, em que percebemos um ciclo em que se expressam, por exemplo, as relações entre seu caminho de herói, os complexos familiares, e como o personagem os vive, assim como seu renascimento para outras possibilidades. Tal percurso vivido por Fabiano nos permite tanto a percepção deste enquanto um herói que, a cada instante, vive desafios, assim como nos convoca a percepção sobre nós próprios enquanto heróis, Fabianos que vivem entre a seca e a abundância.

Palavras-chave jornada heroica; processo de individuação; literatura; Vidas Secas

Abstract

This article seeks to identify the stages of the heroic journey captured from the plot of the novel Vidas Secas by Graciliano Ramos, and experienced by the retreatant character Fabiano. To this end, we carried out a narrative review of the literature on the conceptual framework, focusing on a Jungian prism, which served as a basis for analyzing the character in his internal and external journey throughout the work. This has allowed us to interpret that Fabiano goes through the twelve stages of the heroic journey, in which we perceive a cycle that expresses, for example, the relationships between his hero’s path, his family complexes, and how the character lives them, as well as his rebirth into other possibilities. Fabiano’s journey allows us to perceive him as a hero who, at every moment, faces challenges, as well as summoning our perception of ourselves as heroes, Fabians who live between drought and abundance.

Keywords heroic journey; individuation process; literature; Vidas Secas

Resumen

El presente artículo busca identificar las etapas de la jornada heróica captadas de la trama en la obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, y vividas por el personaje emigrante Fabiano. Con esta finalidad, realizamos una revision narrativa de literatura sobre el ámbito conceptual convocado, con enfoque en un prisma junguiano, lo que sirvió de base para el análisis del personaje en su trayectoria interna y externa a lo largo de la obra. Esto nos permitió la interpretación de que Fabiano recorre las doce etapas de la jornada heroica, la cual percibimos un ciclo en que se expresan, por ejemplo, las relaciones entre su camino de héroe, los complejos familiares, y cómo el personaje los vive, así como su renacimiento para otras posibilidades. Tal trayecto vivido por Fabiano nos permite tanto la percepción de este mientras héroe que, a cada instante, vive retos, así como nos convoca a nuestra percepción sobre nosotros mismos mientras héroes, Fabianos que viven entre la sequía y la abundancia.

Palavras chave jornada heroica; proceso de individuación; literatura; Vidas Secas

Résumé

Cet article cherche à identifier les étapes du voyage héroïque, tel qu’il est represente dans l’æuvre Vidas Secas, de Graciliano Ramos, et vécues par le personnage retraité Fabiano. À cette fin, nous avons mené une revue narrative de la littérature sur le cadre conceptuel envisage, en nous concentrant sur une perspective jungienne, qui a servi de base pour analyser le personnage dans son parcours interne et externe tout au long du récit. Cela nous apermis d’interpréter que Fabiano traverse les douze étapes du voyage héroïque, révélant un cycle où se manifestent, par exemple, les relations entre son parcours de héros, les complexes familiaux et la manière dont le personnage les vit, ainsi que sa renaissance vers de nouvelles possibilités. Un tel voyage vécu par Fabiano nous permet non seulement de lepercevoir comme un héros confronté à des défis à chaque instant, mais aussi de réfléchir à notre condition de héros, à l’instar de Fabiano, oscillant entre sécheresse et abondance.

Mots-clés voyage héroïque; processus d’individuation; littérature; Vidas Secas

Joseph Campbell, em 1949, escreveu um livro chamado O Herói de Mil Faces (Campbell, 2015). Nesse livro propõe um caminho onde, obrigatoriamente, o herói, ou monomito, deve fazer a sua jornada para que se torne um enredo interessante, que se faça reconhecer a figura do herói no crescimento alcançado e na conquista de cada etapa desse trajeto.

A ideia de monomito em Campbell (2015) explica, através de sua onipresença (estar em todos os lugares ao mesmo tempo – como se fosse uma fusão de várias teorias), por meio de uma mescla entre o conceito junguiano de arquétipos (no caso, o arquétipo do herói), forças inconscientes da concepção freudiana e a estruturação dos ritos de passagem por Arnold Van Gennep (2013). Com base nesses conceitos, Campbell faz sua pesquisa sobre a estrutura de mitos, lendas e fábulas. Sua conclusão foi que em todas as histórias existe um herói e que a narrativa gira em torno de suas aventuras.

Partindo dessas ideias, Campbell desenvolveu uma estrutura de eventos que demonstra que o herói passa por doze etapas. Ideia que corresponde ao mito de Hércules e seus doze trabalhos mitológicos, tal como apontado por Salis (2017). São essas as doze etapas: mundo comum, chamado à aventura, recusa do chamado, encontro com o mentor (ou ajuda sobrenatural), travessia do primeiro limiar para o desconhecido (início da transformação), o ventre da baleia (testes aliados e inimigos), aproximação da caverna oculta (revelação), provação suprema (transformação), recompensas (elaborações de novas realidades), ressurreição (travessia do segundo limiar para o conhecido), elixir (o dom da deusa), volta ao mundo comum (mudança e amadurecimento da personalidade).

E quem é o herói? O herói é um personagem que descobriu ou realizou algo extraordinário. Alguém que deu a vida para algo muito maior que si mesmo. Nessa concepção são criados os mitos, narrativas que estão além do tempo e que fazem parte da representação da vida simbólica do homem, sendo os mitos uma parte da capacidade humana de se reinventar. Histórias sobre heróis são encontradas em todos os tempos e em todas as culturas porque é sobre esses personagens, que realizaram uma proeza muito acima do poder humano, que vale a pena escrever e contar sua história (Salis, 2003, 2017). Há dois tipos de proezas: a física, em que o herói pratica um ato de coragem, derrotando um inimigo feroz numa batalha, salvando uma vida ou protegendo seu povo. O outro tipo é a espiritual, onde o herói aprende a lidar com o nível superior da vida e retorna com um ensinamento ou mensagem. Existe o herói extrovertido, que realiza feitos e proezas; e o herói introvertido, que conquista um amadurecimento interno, uma vitória de uma limitação pessoal.

No início do século XX, Sigmund Freud (2021) explicou a relação dos mitos com nossa personalidade, retomando a importância da mitologia em nossa vida. Posteriormente, outros estudiosos, como Carl Jung e Joseph Campbell, formularam teorias para explicar a ligação entre os mitos e a personalidade humana. Agora os mitos são importantes não para explicar a realidade externa, mas o nosso inconsciente, nossa “realidade” interna (Campbell, 2017).

A partir de suas pesquisas e dos relatos de seus pacientes, Jung começou a perceber que além das memórias e de fantasias pessoais, existiam outros tipos de conteúdos que eram provenientes (possivelmente) da mitologia e da imaginação humana no mundo inteiro. Essa descoberta fez com que Jung investigasse em seus estudos e criasse a sua teoria para o inconsciente coletivo. O inconsciente coletivo relaciona-se com a consciência por várias vias: por meio dos sonhos, dos mitos, da linguagem poética, da fantasia e das inspirações. Muitas pessoas costumam ter visões e outras sensações sobrenaturais e guiam-se na vida por seus sonhos, por intuições interiores ou pelo contato com a natureza (Jung, 2017b).

A arte muitas vezes serve de caminho para expressões de experiências coletivas. Tanto a Odisseia de Homero (2022), como o Vidas Secas de Graciliano Ramos (2018), tem elementos arquetípicos do homem em uma jornada em busca de si mesmo. Jung criou o termo arquétipo para designar as estruturas inatas em cada indivíduo que são capazes de formar ideias mitológicas. Grinberg (1997, p.134) diz que o mundo arquetípico é o “mundo invisível dos espíritos, dos deuses, demônios, vampiros, duendes, heróis, assassinos e todos os personagens de épocas passadas da humanidade sobre os quais foi depositada forte carga de afetividade”. Os arquétipos são conceitos vazios; são formas universais coletivas, básicas e típicas da vivência de determinadas experiências recorrentes, que expressam a capacidade criativa única e autônoma da psique. Conforme Von Franz, citado por Grinberg (1997, p. 138), os arquétipos “seriam como núcleos ativados (...), cuja função seria organizar representações simbólicas em determinados padrões de comportamento”. É necessário ressaltar que os arquétipos não são uma experiência que se herda, mas o potencial de repetição dessa experiência. Se tornam símbolos à medida em que se revestem das experiências pessoais, tanto as conscientes como as inconscientes.

O herói em sua jornada virou um símbolo arquetípico e foi colocado na literatura, representando um dos processos de individuação. O processo pelo qual a consciência de uma pessoa se diferencia ou se individualiza da de outras é conhecido como individuação e a meta desse processo é fazer o indivíduo conhecer-se a si mesmo tão completamente quanto for possível (autoconsciência). A consciência e a individuação caminham lado a lado no desenvolvimento da personalidade, pois o início da consciência é também o início da individuação (Grinberg, 1997). Assim, tanto Ulisses (personagem de Homero) como Fabiano (personagem de Graciliano Ramos) representam símbolos arquetípicos para mudança de consciência e amadurecimento trazidos pela experiência de uma jornada (a viagem de Ulisses e a saída do sertão para a cidade de Fabiano); e, apesar dos textos escritos com séculos de diferença, trazem na sua forma arquetípica os mesmos dilemas humanos.

Assim, e sabendo a literatura como expressão de culturas, realidades e estórias humanas ao longo da História (Barbosa, 2018), buscamos identificar as etapas da jornada do herói captadas do enredo da obra Vidas Secas de Graciliano Ramos (2018) e vividas pelo personagem Fabiano, o qual, junto a sua família, representa o sertanejo brasileiro que vive suas dificuldades e angústias diante das intempéries do clima semiárido, a extrema pobreza, as dificuldades da exclusão social e os momentos de adoecimento e morte (Barbosa, 2018; Carneiro et al., 2011; Ribeiro, 2015; Rocha et al., 2010).

É importante ressaltar que escolhemos essa obra por algumas razões: 1) devido ao seu caráter atual referente a muitas das vivências do sertanejo no Nordeste brasileiro; 2) por ser um marco na literatura brasileira durante e após o regionalismo, movimento literário iniciado na década de 1930 e que, dentre outros aspectos, ampara-se em uma espécie de “realismo bruto”, buscando apresentar, de uma forma “crua”, realidades vividas nas diferentes regiões brasileiras, tomando como ênfase as relações entre o indivíduo e a sociedade. Relações em que se destacam processos de produção de subjetividade permeados por opressões e exclusões (Barbosa, 2018); e 3) por ser a obra mais marcante de Graciliano Ramos, autor conhecido pela forma como desenvolve os seus personagens, levando em consideração a complexidade psicológica de cada um, fruto de uma relação “crua” com o tecido social (Barbosa, 2018; Bosi, 2015). É o que ocorre no caso de Fabiano, personagem principal da obra.

Método

Orientados a partir do objetivo apresentado, realizamos no presente texto uma revisão narrativa de literatura, em que tomamos dois conceitos centrais, conforme apontado: a jornada do herói e seu respectivo processo de individuação, o que teve como base obras de autores como Campbell (2015, 2017), Jung (2013a, 2013b, 2014, 2015, 2017a) e outros, os quais dialogam a partir de uma ênfase na psicologia analítica.

Tal revisão narrativa, com ênfase nas obras dos autores citados, serviu de base para a análise do personagem Fabiano, da obra Vidas Secas, à luz dos conceitos apontados. Ainda nesse processo, observou-se a apreensão desses conceitos desde um olhar sensível que se debruça sobre esse personagem em sua relação com os demais – sua família, constituída por Sinhá Vitória, Menino mais velho, Menino mais novo e a cachorra Baleia – e suas peculiares características, fatos que eles vivem, assim como sua relação com aspectos sociais, históricos e culturais brasileiros.

Ressalta-se também que o processo narrativo do presente artigo nos apresenta o personagem de acordo com o seguimento da obra, respectivamente capítulo a capítulo ao longo de seus treze contos, em que cada capítulo, com as simbologias que lhe estão presentes, se faz metáfora das passagens do processo do que apreendemos como sua jornada heroica.

Apresentação da obra Vidas Secas e seu personagem Fabiano

Obra do escritor Graciliano Ramos, Vidas Secas foi escrita e publicada em 1938 (Barbosa, 2018; Moraes, 2015) durante a segunda geração do modernismo brasileiro, marcada pelo regionalismo, em que autores de diversas regiões do país denunciavam opressões e injustiças sociais sofridas pelo povo brasileiro, assim como o descaso do governo (Barbosa, 2018; Bosi, 2015).

Considerado um romance documental, Vidas Secas traz a história de Fabiano, sua família e sua cadela Baleia. Na obra, o autor narra a difícil vida desse sertanejo em meio à escassez e à pobreza, apresentando uma intensa crítica social e deixa perceber a angústia, o sofrimento e os dilemas que permeiam o universo psicológico dos personagens (Barbosa, 2018).

O personagem Fabiano, após um trecho difícil da jornada com sua família, chega a uma fazenda abandonada e tem a breve ilusão de que suas vidas podem recomeçar dali. Então, orgulhoso de haver vencido parte de suas dificuldades, ele se expressa: “—Você é um homem, Fabiano” (Ramos, 2018, p.18), para depois corrigir: “— Você é um bicho, Fabiano” (Ramos, 2018, p.18) porque é apenas enquanto animal que Fabiano consegue se expressar e, de fato, passar pelo que passou, andando ao sol, em “caminhos cheios de espinhos e seixos” (Ramos, 2018, p.10), comendo raízes.

Logo em seguida, a cadela Baleia aparece, e Fabiano a saúda também dizendo: “—Você é um bicho, Baleia” (Ramos, 2018, p.19). Percebemos, então, que Fabiano estabelece uma relação projetiva com o animal. Um cachorro que tem o nome de Baleia, um animal que vive na água, e que pode ter sido escolhido pelo autor para representar o desejo daquilo que é inalcançável. Não é possível ter água, mas é possível desejar. Assim, Fabiano projeta seus medos e sua desolação até naquilo que a natureza poderia mostrar em meio a toda aquela agrura, como a contemplação da cor azul, que passa a representar o céu e o tempo, e que se mostra sem sinais de chuva. O azul do céu, para Fabiano, torna-se sinistro, lhe infunde um terror contra o qual não se pode lutar, carregado de todas as aflições e privações possíveis. Ele percebe que estão “ameaçados pela ausência”, como diz Didi-Huberman (2010, p. 34), “mas a modalidade do visível torna-se inelutável – ou seja, votada a uma questão de ser – quando ver é sentir que algo inelutavelmente nos escapa, isto é: quando ver é perder”.

Fabiano é o produto do seu território, que compreende seu meio físico, social e cultural. Assim, o território explica quem ele se tornou, e como sua história está condenada a uma vida seca. A paisagem exterior, inexoravelmente seca, torna-se uma projeção desse homem.

Aspectos conceituais da psicologia analítica percebidos na obra Vidas Secas

Aqui vamos discutir alguns conceitos da teoria junguiana que serão usados em interpretações a partir leitura da obra citada de Graciliano Ramos, para, através da arte do escritor, mostrar a força arquetípica que permanece até hoje no sertanejo, um dos representantes da alma brasileira, representante heroico e excluído, enfrentando as dificuldades criadas pelo clima, pela cultura e pela extrema pobreza (Barbosa, 2018; Carneiro et al., 2011; Ribeiro, 2015; Rocha et al., 2010).

Segundo Jung, tudo o que podemos conhecer sobre o inconsciente fazemos por meio do nosso consciente, de sorte que no máximo é possível tecer considerações a partir dos efeitos do inconsciente que se fazem perceber na consciência. Por essa perspectiva, a nossa vida consciente estaria para a ponta de um iceberg, assim como o inconsciente estaria para a parte submersa daquele, imensurável e indefinível em sua forma. Jung entende que pela impossibilidade de se conhecer o inconsciente diretamente e pela experiência das inúmeras manifestações deste, pode-se afirmar que o Ego, o centro da parte consciente da psique, seria uma pequena parte imersa num vasto inconsciente (Jung, 2013a).

Pela experiência em psicoterapia, Jung (2013a) acredita que os conteúdos do inconsciente podem ser originários do inconsciente pessoal e do inconsciente coletivo. No entanto, e apesar de não ser possível determinar a origem desses conteúdos, Jung acredita que seus produtos podem ser classificados dessa forma. O inconsciente pessoal “engloba as aquisições da existência pessoal: o esquecido, o reprimido, o subliminarmente percebido, pensado e sentido” (Jung, 2013 a, p. 426). Com relação ao inconsciente coletivo, Jung explica que é uma camada mais profunda do inconsciente, cujos produtos seriam constituídos de conteúdos que vão além da experiência pessoal de vida do indivíduo. Assim, como cada célula do corpo humano é uma célula nova e seu DNA contém o resultado de toda a evolução que a espécie sofreu desde o início dos tempos, também a psique teria em sua constituição a habilidade de pensar de toda a história da humanidade, herdada em forma de categorias e/ou possibilidades (Jung, 2015). Esses conteúdos foram chamados por Jung de arquétipos ou imagens primordiais, e existem porque “nossa mente inconsciente, bem como nosso corpo, é um depositário de relíquias e memórias do passado” (Jung, 2014, p. 63). Um estudo da estrutura do inconsciente coletivo revelaria as mesmas descobertas que se fazem em anatomia comparada (Jung, 2017b, p. 36).

A teoria dos arquétipos de Jung (2013 a) desenvolveu-se em três estágios. Em 1912 ele escreveu sobre imagens primordiais que reconhecia na vida inconsciente de seus pacientes, como também em sua própria autoanálise. Essas imagens eram semelhantes a motivos repetidos em toda parte e por toda a História. Porém, dentre seus aspectos principais estava a sua numinosidade, inconsciência e autonomia e, na concepção de Jung, o inconsciente coletivo promove tais imagens. Por volta de 1917 escrevia sobre dominantes não pessoais ou pontos nodais na psique, que atraem energia e influenciam o funcionamento de uma pessoa. Foi em 1919 que, pela primeira vez, fez uso do termo “arquétipo”, a fim de evitar qualquer sugestão de que era o conteúdo e não o esboço ou padrão inconsciente e irrepresentável que era fundamental. São feitas referências ao arquétipo per se para que fosse claramente distinguido de uma imagem arquetípica compreensível ou compreendida pelo homem.

O arquétipo é um conceito psicossomático, unindo corpo e psique, instinto e imagem. Para Jung isso era importante, pois ele não considerava a psicologia e imagens como correlatos ou reflexos de impulsos biológicos. Sua asserção de que as imagens evocam o objetivo dos instintos implica que elas merecem um lugar de igual importância (Jung, 2013b). Os arquétipos são percebidos em comportamentos externos, especialmente aqueles que se aglomeram em torno de experiências básicas e universais da vida, tais como nascimento, casamento, maternidade, morte e separação.

Padrões arquetípicos esperam o momento de se realizarem na personalidade, são capazes de uma variação infinita, são dependentes da expressão individual e exercem uma fascinação reforçada pela expectativa tradicional ou cultural e, assim, portam uma forte carga de energia, potencialmente arrasadora, a que é difícil de resistir. Ressalta-se que a capacidade do fazer depende do estágio de desenvolvimento e do estado de consciência. Além disso, os arquétipos suscitam o afeto, cegam o indivíduo para a realidade e tomam posse da vontade.

Comportamentos arquetípicos têm sua maior evidência em tempos de crise, quando o ego está vulnerável ao máximo. Qualidades arquetípicas são encontradas em símbolos e isso, em parte, responde por sua fascinação, utilidade e recorrência. Os deuses são metáforas de comportamentos arquetípicos, enquanto mitos são encenações arquetípicas. Tais arquétipos não podem, completamente, ser integrados nem esgotados em forma humana sendo que a análise da vida implica uma conscientização crescente das dimensões arquetípicas da vida de uma pessoa, (Jung, 2013b).

James Hillman, fundador da escola da psicologia arquetípica, cita o conceito de arquétipo como o mais fundamental na obra de Jung, referindo-se a essas mais profundas premissas do funcionamento psíquico como delineadoras do modo pelo qual percebemos e nos relacionamos com o mundo (Hillman, 2010).

Dessa forma, todos os seres humanos podem viver as categorias arquetípicas dentro das diversas possibilidades de suas próprias experiências pessoais. Exemplos dos arquétipos são o arquétipo materno, o arquétipo paterno, o arquétipo de velho sábio e o arquétipo do herói. Tais categorias são comuns a todas as pessoas, pois, a princípio, todos fomos gerados por um pai e uma mãe, todos entramos em contato com algum tipo de conhecimento/sabedoria, todos vivemos algum tipo de situação que nos levou rumo ao fortalecimento de nossos poderes pessoais em nossas jornadas.

Dos processos do inconsciente, ora em atitude de compensação, ora em movimento de oposição à atividade consciente, Jung (2015) constatou que existe como pano de fundo na vida dos indivíduos uma força que os leva a realizar a totalidade do Ser. Para ele, os processos inconscientes se relacionam de forma complementar à atitude consciente para que seja formada a totalidade que chamou de “si-mesmo”, ou Self. Dessa forma, quando adoecemos, fisicamente ou psicologicamente, por trás desses acontecimentos estaria a realização do propósito do Self, que “abarca não só a psique consciente, como a inconsciente, sendo, portanto, por assim dizer, uma personalidade que também somos” (Jung, 2015 p. 53). Esse movimento de realização do Self é chamado por Jung de processo de individuação, sendo um caminho contínuo.

O processo de individuação é constante. Não é um lugar em que o indivíduo chega; mas um processo que passa a viver, de forma contínua, justamente porque o inconsciente é imensurável. Além disso, a individuação está diretamente relacionada à diferenciação do coletivo, integrando o inconsciente pessoal, reconhecendo o inconsciente coletivo e, posteriormente, se diferenciando deste.

A “jornada do herói” é uma das formas de se observar o processo de individuação. Por ser o herói um arquétipo, encontraremos situações e eventos, ou seja, sincronicidades, onde podemos acompanhar esse processo. No caso da literatura, o arquétipo do herói cria mitos e grandes estórias.

Utilizaremos esses conceitos teóricos da psicologia analítica para analisar a obra Vidas Secas de Graciliano Ramos (2018), pela óptica da abordagem junguiana, com foco na jornada mitológica do herói, o personagem Fabiano e seu processo de individuação durante a narrativa da referida obra.

Análise da jornada do herói no livro Vidas Secas

O mundo comum, chamado para a aventura e a recusa do chamado

A chegada da família de Fabiano à fazenda abandonada, no primeiro capítulo de Vidas Secas, representa como inicia a jornada do herói: uma retirada forçada de onde se estava antes, pois algo sempre nos tira de onde não queremos sair. O livro deixa claro toda a insegurança e medo que Fabiano sente durante essa etapa, onde não se sabe direito para onde ir, mas se deve ir, já que em qualquer novo início de uma etapa da vida seremos assaltados por nossas sombras. Assim, Fabiano se mostra em conflito com seus sentimentos, seja pelo filho mais velho, que para de caminhar, ou pelo papagaio morto, que serviu de última refeição. O contexto da morte é representado na paisagem e na fazenda abandonada. O primeiro estágio do caminho do herói é uma urgência. O arquétipo se mostra ouvindo um chamado para a mudança, para seguir em frente diante de escolhas que não se têm razões para crer numa vitória.

A jornada deveria continuar ou ali seria o destino final, onde todos ficariam felizes e gordos? O arquétipo de herói, quando vivido intensamente, procura uma casa, um lugar para ser feliz e para se sentir vivo, onde o azul do céu não assusta, mas encanta. O herói saiu do lugar que estava porque o lugar não o queria mais. A exclusão acontece quando a rejeição se apresenta, e o herói sempre passa pela situação da rejeição. No caso de Fabiano, essa exclusão ainda não estava tão clara nessa etapa da estória, mas a rejeição era, de alguma forma, sentida.

Outro ponto de destaque refere-se ao fato de que ser um pai/herói parece ser um dilema para Fabiano. O complexo paterno vence o arquétipo do herói, e Fabiano resolveu parar numa “fazenda morta” onde ele espera encontrar uma vida melhor para sua família.

Encontro com o mentor e a travessia do limiar

No capítulo dois do livro vem a apresentação de Fabiano. O tempo passou desde a chegada à Fazenda Morta e Fabiano, ao decorrer desse tempo, estava nos afazeres que prestava ao dono da fazenda, percebendo-se como alguém cuidando da vida e dos pertences dos outros, sem nada seu para cuidar. Percebe-se possuído por uma persona.

Em momento seguinte notamos o herói e sua persona se digladiando. Fabiano, em um ato-falho, fala que é um homem, para depois se corrigir e dizer que é um bicho. No fundo, o herói não esqueceu sua essência e seus sonhos, mas a persona se impõe com contra-argumentos, dentre os quais está o argumento sob a forma de como é tratado pelos brancos: como bicho. Aos bichos é dada a pobreza, a exclusão e a opção de ir embora – ser eternamente nômade. Assim, o patrão acaba aceitando seus serviços, porém, não era verdadeiro, pois essa aceitação, o personagem Fabiano sabia que nunca a teria.

Inconscientemente, o herói sabe que ele não pertence àquele lugar, que ali ele é um hóspede empurrado pela “seca”, e que estava apegado a uma vida que não duraria muito tempo.

Fabiano foi tirado de seu mergulho dentro de si por um dos filhos. Não entendendo a pergunta, reprimiu-a, ficando temeroso com o que ele via como “educação” para seus filhos. As reflexões foram para o seu Tomás da Bolandeira (que dentro da jornada do herói ocupa o lugar do pequeno mentor), que, apesar de ser um homem letrado, estava sob os mesmos ditames do clima, da cultura e da pobreza. Para Fabiano, o conhecimento de seu Tomás da Bolandeira não mudou a vida dele, muito menos o preparou para lidar com a seca.

Seu Tomás da Bolandeira se torna um símbolo de receio para Fabiano, receio de que um dia os filhos se interessem mais pelas letras do que aprender a ser um vaqueiro, profissão que vinha de seus avós, passando por seu pai. Mais uma vez o complexo paterno afeta Fabiano, levando-o a problemas de sobrevivência, pois aqui esse complexo está associado a sobreviver a uma “vida seca”, não a viver. Afinal, para Fabiano, os bichos sobrevivem, debatendo-se novamente com a ideia de não poder ser homem, mas apenas um bicho.

Fabiano mostra que tem a consciência polarizada para a sobrevivência de si e de sua prole e joga para a inconsciência a inteligência analítica, ao ser confrontado por perguntas por um filho. Primeiramente, lembra que um dia foi do mesmo jeito, para depois lembrar que privilegiar a inteligência diante de uma “vida seca” não é bom. Lembrando do próprio pai, Fabiano constela o complexo paterno, e age do mesmo modo com os filhos.

No limiar do inconsciente ficam forças arquetípicas atingindo Fabiano, questionando suas escolhas de sobrevivência, e ele se agarra a uma persona que representa a única coisa que lhe foi permitido aprender ser a vida toda: ser um bicho.

O ventre da baleia (testes, aliados e inimigos)

No capítulo, intitulado “Cadeia”, temos um dos momentos angustiantes do livro. Nesse ponto estão presentes vários símbolos, sobre os quais, a partir de então, nos detemos. O primeiro é a água que se faz presente. Pedindo um pouco de aguardente para o bodegueiro Inácio, Fabiano percebe que há água na bebida e pergunta porque o dono do estabelecimento coloca água em tudo. Primeiro ele pensa e, depois que a bebida começa a fazer efeito, pergunta. Tem o silêncio como resposta.

Dentro do simbolismo da alquimia, a água corresponde aos sentimentos (Jung, 2021). Ter uma vida seca é ter uma vida sem sentimentos, ou que pelo menos os sentimentos não fossem colocados como importantes para a sobrevivência – repressão esta característica da cultura nordestina.

A aguardente acaba tendo a influência de afrouxar a persona e seus mecanismos de defesa, deixando Fabiano mais exposto ao seu inconsciente pessoal, que começa a copiar os comportamentos do erudito seu Tomás da Bolandeira. Vai para a calçada conversar. Então encontra o Soldado Amarelo – que o convida a jogar cartas.

Doenças relacionadas ao fígado deixam a pele amarelada, porém, a palavra “amarelo” aqui, referente ao soldado, pode estar associada à covardia ou à traição. O convite para jogar cartas foi entendido como ordem por Fabiano, que não soube dizer não, ainda seguindo com a imitação de seu Tomás da Bolandeira.

É possível perceber que em Fabiano existe algo reprimido com relação ao seu Tomás: se Fabiano, quando sóbrio, o criticava e o menosprezava, agora, bêbado, tentava usar as palavras de seu Tomás da Bolandeira, embora as usasse fora de contexto. Bêbado, Fabiano tentava se parecer a quem tanto criticava.

Aqui o arquétipo de herói está preso no ventre da baleia. Não vê seu próprio comportamento, se deixando guiar na direção de forças arquetípicas. No jogo, Fabiano perde todo o seu dinheiro e, mais tarde, entra em atrito com o Soldado Amarelo, explodindo com um palavrão de raiva e frustração, pois ele mesmo não entendia por que tinha ido jogar. Sua reação foi de bicho acuado. O bicho que sua persona afirmava que ele era.

Surpreendido com o chamado de outros soldados e levado à delegacia, foi espancado e preso. Durante toda a situação ele ficou se culpando por não saber falar como seu Tomás da Bolandeira, pois assim saberia se defender.

Agora não estava mais bêbado e tinha consciência de que faltava algo em si que poderia ajudar e até facilitar a sua sobrevivência: saber falar, saber as letras, estudo. Se vendo trancado dentro da cela, Fabiano lembra-se da esposa e filhos e da cachorra, que precisavam dele e que deveriam estar preocupados com ele.

Na cela o sentimento de raiva oscila entre si mesmo, o Soldado Amarelo e os governantes. Num raio de lucidez e frustração, Fabiano percebe que não nasceu igual aos outros e que, em parte, o Governo e a sociedade tinham culpa nisso.

Aqui estamos diante de mais uma situação arquetípica, em que estarmos presos e expostos a sentimentos fortes e profundos pode trazer à consciência percepções duras que antes eram cobertas pelos tapetes da inconsciência. Fabiano nunca fora bicho por escolha, mas pela falta de escolha, e sua revolta, quando percebe essa realidade, é expressa em autoagressão.

Fabiano está se conscientizando de um arquétipo cultural dominante no sertão nordestino: o arquétipo da exclusão, representado pelo deus Hefesto. Hefesto era um deus coxo e deformado. Fora expulso do Olimpo pelo pai Zeus com a anuência de sua mãe Hera. Jogado do Olimpo, caiu montanha abaixo durante nove dias, sendo resgatado e criado por ninfas. Sendo único deus que trabalha no panteão grego, suas criações e invenções são usadas pelos deuses, mas ele próprio não tem acesso ao Olimpo. Hefesto, apesar de ser um deus criativo, sua força de trabalho não lhe dá um lugar dentre os deuses, ele sempre é lembrado por sua feiura e deficiência (Dell, 2014).

Fabiano percebe que estava definida sua natureza de bicho desde o nascimento, quando o direito de estudar não foi lhe dado. A injustiça que estava sofrendo era apenas mais uma de várias que ele sofria a vida inteira e não percebia.

Para compensar o sentimento de se rebelar contra todos no lugar e fugir ou matar todos os que naquele momento simbolizavam sua percepção de ter uma vida seca, novamente o complexo paterno volta a dominar Fabiano, trazendo-lhe a lembrança de que tinha esposa, filhos e uma cachorra, que precisavam dele. Ele compara a família a “cambões” – pedaço da carroça onde se prendem os bois. Constata que está preso a pessoas que o impedem de fazer de sua vida o que ele quer. Novamente o complexo paterno surgindo, fazendo com que a ideia da família de cambões o acalmasse em relação ao seu destino. Sua jornada de Herói mais uma vez sendo cortada pelo complexo paterno.

Aproximação da caverna oculta

Neste momento do livro começamos a conhecer melhor os elementos que compõem a família de Fabiano – Sinhá Vitória, o menino mais velho e o menino mais novo, bem como a cachorra Baleia que, de certa forma, também é mostrada como membro da família por Fabiano.

A esposa aparece como alguém que tem desejos, mas não se responsabiliza por eles, e espera que o marido possa realizá-los. Sinhá Vitória quer uma cama como a que viu na casa de seu Tomás da Bolandeira: uma cama feita de madeira – diferente daquela em que eles dormiam: feita de duras vara, que se quebravam e tinham de ser substituídas. É então que percebemos o primeiro cambão que impede que Fabiano tome um caminho de herói: o compromisso com o desejo alheio, com aqueles pequenos grandes sonhos de outros, estes que esperam que nós os realizemos.

Quanto aos filhos, estes não são nomeados, mas são queridos pelo pai do jeito que ele sabe ser. A afeição é seca, pouco desenvolvida, ficando claramente na função inferior da família. Os filhos são uma preocupação para Fabiano, a qual está restrita à sobrevivência. E o aprendizado limitado àquilo que o pai sabe fazer.

O filho mais novo se destaca pela adoração à figura paterna, adoração essa que passa despercebida pelo pai. Deseja ser como o pai, porque assim acredita que será respeitado na família. O processo de identificação é forte. Era o filho que prestava atenção às estórias que o pai contava, mesmo que ninguém mais da família acreditasse. A mesma rudeza com que o filho mais velho era tratado, o filho mais novo também o era. Porém, para ele, havia uma função de aprendizado e conquista: ser visto pelo pai como um igual.

O filho mais velho era questionador. Realista, olhava para o mundo exterior e queria entender tudo o que estava em volta. O pai não gostava de suas perguntas, a mãe muito menos. Com a mãe ele conseguia dialogar, com o pai não. O filho mais velho acreditava que todos no mundo eram bons e que saber as coisas que seu Tomás da Bolandeira sabia era bom. Queria aprender a ler e a escrever.

Fabiano considerava os filhos cambões, assim como ele fora um cambão para seu pai. Uma roda que não para de girar. A construção de uma família é um desafio para quem vive na linha da pobreza. O senso de responsabilidade com a família é interpretado pelo personagem principal como um peso, um cambão. A dificuldade de comunicação entre os membros da família associada à dificuldade de expressão dos sentimentos torna tudo mais complicado, trancando os personagens dentro de seus próprios mundos.

Quando todos ficam trancados em casa devido a uma grande chuva de inverno, o pai passa a contar estórias de suas proezas pelo mundo. A esposa fica ocupada com o fogo para aquecer a casa, considerando como mentira tudo o que o marido contava. O filho mais velho encontra contradições na estória do pai e perde o interesse. O filho mais novo é o único espectador. Fabiano conta estórias como se fosse uma fuga da realidade, como se fosse sua forma de ensinar alguma coisa aos filhos.

Fabiano leva a família a uma festa religiosa numa cidade próxima à fazenda, porque era a tradição e porque ele precisava enfrentar as pessoas da cidade. Depois do ato religioso, bebe e tenta provocar as pessoas da festa, que ignoram ou não entendem o que ele está falando. A bebida o tirou do estado de desconfiança e medo para deixá-lo agressivo. Fabiano acaba dormindo. A esposa fica procurando sua cama na feira da cidade e os filhos querendo saber o nome das coisas que viam, buscando entender por que tinha tanta gente ali.

Nessa etapa da jornada do herói, a caverna oculta, passamos por um momento na escuridão da caverna. Perdemo-nos dentro de nosso cotidiano. Estamos correndo atrás de uma saída, dando voltas sem rumo. Sentimo-nos presos por nossas responsabilidades, por nossas escolhas, fantasias e mentiras. Sentimo-nos presos dentro da caverna, que pode ser nossa prisão ou aprendizado, pois, na caverna é onde passamos pela provação suprema e poderemos encontrar ou não nossa recompensa.

No caso do personagem Fabiano, os sentimentos secos traziam uma vida seca. Ou seria a vida seca trazia sentimentos secos? A função inferior, dentro da tipologia junguiana, é a porta para o inconsciente pessoal e tudo indicava que o personagem Fabiano tinha a função sentimento como função inferior, assim como toda a família.

Tomando da água como símbolo dos sentimentos e como o ponto psíquico mais fraco dessa dinâmica familiar, é então onde está o ponto fraco do herói e onde a próxima etapa da jornada acontece.

Provação suprema

Provavelmente, este capítulo explora toda a complexidade emotiva da família de Fabiano e dele próprio. Nosso ponto fraco sempre nos traz nossas maiores provações. Matar a cachorra Baleia, para Fabiano, foi como matar alguém da família.

Dentre os membros da família, Fabiano tinha um vínculo de proximidade justamente com a cachorra. Toda relação com animais de estimação é projetiva. Fabiano projetava em Baleia uma aceitação que não sentia na família, e matar a Baleia foi perceber que ele ficaria sozinho dentro da família.

A provação suprema tem como situação algo que pode ser sacrificado para se atingir um nível melhor de compreensão sobre si mesmo. Fatos e vivências que desencadeiam grandes quantidades de energias psíquicas geram traumas ou geram mudanças. O herói precisa viver esse momento de provação de forma aberta, o que não aconteceu com Fabiano naquele momento, quando criou uma fantasia de que tinha sido perdoado pela cachorra antes de seu último suspiro. Sentiu pena de si mesmo. Diante da morte de um “membro” da família, Fabiano começa a pensar sobre a vida que tem, como expresso nos outros capítulos do livro. Essa foi uma das recompensas que teve quando sua consciência oscilou. Percebeu algo sobre si mesmo que não via antes.

Recompensa

Na prestação de contas com o patrão, mais uma vez Fabiano se sente enganado e roubado. Aqui ele acredita que todos o enganam de propósito e consegue entender que isso acontece devido a sua falta de estudo. Chega, inclusive, a colocar isso como sina, como destino compartilhado pelo avô, pelo pai e agora por ele mesmo.

Sua forma de reação continua sendo a raiva e a vontade de beber, porém, evita tanto a expressão de raiva aberta quanto a bebida. Mais uma vez ele se lembra de tudo que sua família já escapara e de outras situações em que se sentiu enganado, como, quando, por um fiscal da prefeitura, foi pego vendendo carne de porco.

Sentiu que as pessoas gostavam de mostrar os conhecimentos que tinham para humilhá-lo. Essa situação, que para Fabiano era uma repetição, ficou mais evidente pelo incômodo e pela lembrança da morte da cachorra Baleia. A sina que compartilha com todo o povo sertanejo de repente ficou visível para Fabiano: em um sistema de exclusão onde não lhe foi dada nenhuma opção, restava-lhe a repetição.

O arquétipo do excluído é vivenciado pelo sertanejo na cultura nordestina: o trabalho que não traz uma vida melhor; uma educação que lhe é negada desde sempre e a saúde precária, que, invariavelmente, diminui a perspectiva de anos de vida – simbolizada aqui pela cachorra Baleia.

A recompensa trouxe mais consciência para Fabiano, que sentiu vontade de dormir profundamente. Ele não queria pensar naquilo, pois trazia dor – sentimento que já tinha sentido muito com a morte da Baleia.

Mais uma vez Fabiano tenta fugir da jornada do herói.

Caminho de volta

Tentando encontrar o caminho de casa, Fabiano encontra, também perdido, o Soldado Amarelo. Desta vez sozinho, quase o acertou com o facão. No primeiro momento não acredita no que vê. “Desejava ficar cego outra vez. Impossível readquirir aquele instante de inconsciência” (Ramos, 2018, p. 203). Foi invadido pela raiva: “alguma coisa o empurrava para a direita ou para a esquerda. Era essa coisa que ia partindo a cabeça do amarelo. Se ela tivesse demorado um minuto, Fabiano seria um cabra valente” (Ramos, 2018, p. 201).

No primeiro momento Fabiano se percebeu melhor do que o Soldado Amarelo, mais justo, mais compreensivo. Sua percepção de si mesmo estava mais nítida. Percebeu sua sombra raivosa. Teve controle sobre ela e questionou o Governo por se deixar representar por pessoas como o Soldado Amarelo: “por que motivo o governo aproveitava gente assim?” (Ramos, 2018, p. 205-206).

Mesmo magoado e vendo que o Soldado Amarelo, o temia tanto quanto Fabiano a este, tirou o chapéu, curvou-se e ensinou o caminho certo. Afinal, “Governo é governo”.

O caminho de volta na jornada do herói tem essa consciência que não se pode mais fazer-se inconsciência. Percepção que não mais é possível ignorar. Fazer o que é certo pode exigir mais do ser humano do que realizar seus impulsos. Se no início da jornada Fabiano se dizia bicho e não se pensava homem, aqui ele agiu com civilidade, como homem.

Ressurreição

Fabiano se espanta consigo ao entender um raciocínio da esposa sobre o aparecimento de aves de arribação e a morte do gado pela sede. Ainda com remorsos e dúvidas sobre a decisão de matar a cachorra Baleia, Fabiano faz uma revisão de sua vida desde que resolveu parar na “Fazenda Morta”. Enquanto atirava nas aves de arribação para espantá-las da pouca água que ainda existia para o gado, torturava-se com a ideia de a seca ter voltado, e de ele ter que ir embora com a família novamente.

Ressurge o retirante na vida de Fabiano. A etapa da ressurreição na jornada do herói é sempre cercada de angústias e dúvidas. Parece que voltamos à estaca zero, ao começo de tudo. Mas é apenas uma ilusão, pois toda a vivência (com predomínio das emoções) e toda a experiência (com o predomínio do pensamento), vividas no ciclo da jornada, provocaram uma mudança que não é percebida. A maturidade, vinda com o tempo, se molda à personalidade de forma tão sutil, que não percebemos imediatamente seus efeitos e mudanças. Fabiano estava com medo de uma repetição, do eterno retorno. Mas não percebia que ele não era mais o mesmo que chegou à Fazenda Morta. A ressurreição sempre acontece de forma dinâmica. A morte desencadeia o renascimento.

Fabiano sente que novamente voltará a ser um retirante. Novamente pensa na família e em como isso irá afetá-la, mas sente que deve conversar com a esposa sobre a possibilidade de fuga.

Fabiano iria voltar ao “mundo dos retirantes” acreditando ser o mesmo de quando chegou.

Retorno com o elixir

No último capítulo do livro, Fabiano reúne a família para, a contragosto, fugir da seca. Uma fuga sem rumo, sem planos. No meio do caminho é convencido pela esposa a seguir para uma cidade maior, abandonando de vez o mundo a que estavam habituados. Embora convencido, Fabiano tem dificuldades de entender a esposa e seus desejos por viver a vida numa cidade.

Sabendo que o que viria lhe tiraria a única coisa que aprendeu a fazer na vida, ser vaqueiro, a esposa lhe explica que o tempo estava passando e eles não tinham mais idade para aquele tipo de vida. A esposa tinha uma visão otimista sobre ir viver numa cidade, Fabiano mantinha sua visão pessimista.

A esposa o convence. Ele espera encontrar um bebedouro no meio do caminho. Assim, a estória termina com Fabiano perguntando-se quantos já foram expulsos pela seca, levando-os para a cidade com os mesmos sonhos e projetos de vida.

Na última etapa do herói, ele retorna ao mundo com um elixir: sua vivência e sua experiência. O patrão, o Soldado Amarelo e a cachorra Baleia não paravam de rodear o pensamento e o sentimento de Fabiano. Eram esses momentos que faziam parte do elixir, os momentos que produziram um pouco de individuação, momentos que produziam maior consciência de si mesmo.

Ajornada do herói se iniciaria quando a família chegasse à cidade grande. Mas naquela etapa, a luta pela sobrevivência parece ser o início de uma longa jornada para o sertanejo, para o pobre nordestino. Uma jornada que passa de pai para filho.

O final do livro é quase idêntico ao seu começo: eles chegaram à Fazenda Morta com a cachorra Baleia, e agora estavam indo embora sem a cachorra, mostrando assim uma repetição no ciclo de sobrevivência.

A sina de Fabiano seria passada para os filhos – de uma forma ou de outra.

Discussão

O mito do herói é um mapa que possibilita perceber os estágios de um processo de individuação, eventos que constelam o arquétipo do herói e que podem ter um impacto de transformação no indivíduo.

Estamos analisando uma obra literária para fazer uma associação com a jornada do herói e a vida do sertanejo nordestino, representada em Vidas Secas. Nesse processo, notamos que a jornada de Fabiano tem muitos pontos em comum com a do herói, mostrando o crescimento emocional e psíquico do personagem, seus medos, limitações, em meio à representação do drama das pessoas que são vítimas da seca, no limiar da extrema pobreza, da exclusão social, da doença e da morte.

A exclusão social vivida por Fabiano e sua família também acabam fazendo parte das experiências e vivências que promovem a individuação. Fica claro que, independentemente do acesso à educação formal, o processo de individuação acontece. No caso de Fabiano, parte do processo de individuação se dá quando ele percebe que essa falta de uma educação formal nunca foi uma escolha sua, porque a possibilidade da escolha de estudar nunca existiu para si.

Vidas Secas retrata vidas que foram deixadas à margem de uma sociedade onde esses sujeitos nunca foram vistos como pessoas iguais e com os mesmos direitos, além de ter a lógica da exclusão também representada pelo arquétipo cultural que chamamos aqui de Hefestos (Jung, 2014).

Dentro desse panorama cultural, social e ético, o processo de individuação do sertanejo nordestino enfrenta dificuldades únicas. As oportunidades nunca serão semelhantes às de pessoas que têm uma educação garantida e estabilidade econômica.

O sentimento que mais perseguia o personagem Fabiano era a rejeição e a sensação de estar sendo enganado por todos. Isso sempre o levou a viver no isolamento com sua família, desenvolvendo laços de dependência mútua: tanto Fabiano achava que sua família precisava dele, quanto este daquela.

Sobre o complexo paterno que sempre aparecia para inibir o arquétipo do herói, isso acontecia como uma forma de compensação das expressões agressivas do arquétipo de herói. Seja o que for, a família, para o personagem de Fabiano, não era apenas seus “cambões”, mas também uma forma para encontrar um equilíbrio entre o complexo paterno e o arquétipo de herói.

A doença e a morte de um dos membros da família, a cachorra Baleia, transtorna Fabiano de forma profunda e influencia suas atitudes no resto da estória. Fabiano foi-se confrontando com sua agressividade, seu lado bicho, e conseguiu ser civilizado com o Soldado Amarelo. Por outro lado, a perda da cachorra Baleia o coloca em contato com seu envelhecimento e com o envelhecimento da esposa.

O Sertanejo tem uma relação de luta com a morte. A sobrevivência está enraizada nos costumes, na cultura e na psique e a morte sempre vence essas lutas, trazendo transformações para quem continua na vida. A falta de acesso à saúde e à educação torna essa luta contra a morte um jogo em que o sertanejo está sempre em desvantagem. A exemplo, temos Fabiano sempre se questionando se fez a escolha certa matando a cachorra Baleia. A culpa o persegue até o último capítulo do livro.

A cachorra tinha um nome de um mamífero marinho, um dos símbolos ocultos da água que tanto faltava nas terras por onde Fabiano andava. Sua morte trouxe umidade ao coração de Fabiano; fazendo-o perceber que sua individuação passava pelo crescimento não apenas de si, mas de toda a família. Caminhando para uma cidade mais ao Sul de onde estavam, sonhavam com uma vida melhor, uma vida em meio aos homens, num lugar com outros costumes e dificuldades, fazendo Fabiano enfrentar um de seus medos – a convivência com pessoas em quem tinha dificuldade de confiar e um lugar onde não seria mais vaqueiro.

O processo de individuação não vem para destruir aquilo que já foi construído; mas para nos dar a possibilidade de descobrir que podemos ser mais do que já somos, desde que sigamos nossos caminhos, em que nos permitamos ser o que nunca-sempre fomos, somos e haveremos de ser, aquilo a que racionalmente não se explica – parafraseando o poema de Barbosa (2016). Caminho de ser que ocorre em contato com a vida, com o mundo, com o sempre-novo (Barbosa, 2019).

Fabiano sempre será um sertanejo, um vaqueiro. Mas precisa perceber que pode aprender com as pessoas, que pode descobrir outras formas de estar no mundo. Como expresso ao final do livro, ele ainda estava inseguro e com medo do que estava por vir. No entanto, foi justamente a presença da família que lhe deu força para dar esse passo decisivo.

“Governo é Governo”, frase que se repete no livro de Graciliano Ramos, representa não apenas a incompreensão de Fabiano sobre para que serve um “Governo”, mas também para representar sua constatação de que o Governo para nada serve e ainda atrapalha sua sobrevivência. Afinal, o Governo, tanto se sabe: é um sistema que ignora a existência dos “Fabianos” que existem no Sertão, e Fabiano não sabe por que isso acontece, assim como muitos destes “Fabianos” que vivem pelo mundo.

No entanto, apesar dessas e outras incertezas que envolvem a vida de Fabiano e sua família, eles continuam sobrevivendo, como todos os sertanejos.

Conclusão

Este trabalho apresentou como objetivo identificar a jornada do herói a partir da interpretação de uma obra clássica da literatura brasileira: Vidas Secas, de Graciliano Ramos, fazendo correspondências com os conceitos da psicologia analítica. Para falar sobre o sertanejo nordestino como sujeito aos complexos culturais da exclusão social e, dentro desse contexto social e econômico, passamos a acompanhar o processo de individuação do personagem Fabiano, ao longo dos capítulos da obra literária.

Sabemos que o modelo da jornada do herói pode ser colocado para uma etapa da vida ou para toda uma estória de vida. Serve como uma forma de reconhecimento de etapas que estamos vivendo durante esse percurso. Assim sendo, e conforme podemos apreender a partir de Fabiano, todos somos heróis em nossas próprias vidas, estamos lutando contra nós mesmos na maioria das vezes. Porém, projetamos isso no mundo, a nossa volta de modo inconsciente: em forma de ansiedade, depressão, fobias. Nossos monstros nos empurram para nossos atos heroicos, que trazem maturidade e crescimento pessoal com integração e consciência.

Também é importante observar que o arquétipo de Ares, o impulso original da raiva, aparece em vários momentos da saga do herói em Fabiano, mostrando a força desse complexo que se manifesta como revolta e autocobrança em vários momentos da saga. À medida que essa energia foi equilibrada pela mulher de Fabiano, esse arquétipo teve uma função de mudança. A raiva cega de Ares foi conduzida para o processo de individuação (Barcellos, 2019; Knox, 2019; Stein, 2020). Essa mudança de direção do complexo do herói foi importante para a mudança do sertão para a cidade. A polis se tornaria o próximo campo de batalha da família, lutando sempre pela sobrevivência. A cidade será o próximo cenário de individuação de Fabiano, assim como os monstros urbanos e desafios que a sua família enfrentará dentro de uma polis (Valente, 2021).

“A hermenêutica desenvolvida por Jung em toda a sua obra se apoia basicamente na definição de uma atitude simbólica diante da realidade, ou seja, de uma acepção da realidade como símbolo” (Vechi, 2018, p. 24). Assim é possível entender que a realidade do homem sertanejo, representado como símbolo por Fabiano na obra de Graciliano Ramos. Símbolo do homem em uma jornada em busca de si mesmo. Um símbolo atemporal do desenvolvimento humano diante das dificuldades do mundo.

Tal como Fabiano, não temos como chegar à autorrealização sem enfrentar nossos medos e limitações. Isso é o que nos torna heróis. Nós, Fabianos das cidades, dos sertões, da vida, de nós mesmos.

Referências

Barbosa, Jr. F. W. S. (2016). Impermanências. Premius. [ Links ]

Barbosa, Jr. F. W. S. (2018). Expressões de desterritorialização a partir do personagem Fabiano, da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos. [Dissertação de mestrado, Universidade de Évora]. Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal. http://hdl.handle.net/10174/23115Links ]

Barbosa, Jr. F. W. S. (2019). Da coragem de ser. In SESC/DF (Org.), Prêmio Sesc de Poesias Carlos Drummond de Andrade - Edição 2018 (pp. 102-103). SESC/DF [ Links ]

Barcellos, G. (2019). Mitologias arquetípicas: Figurações divinas e configurações humanas. Editora Vozes. [ Links ]

Bosi, A. (2015). História concisa da literatura brasileira. Cultrix. [ Links ]

Campbell, J. (2015). El heroes de las mil caras. Fondo de Cultura Económica de Espana. [ Links ]

Campbell, J. (2017). El poder del mito. Editorial Capitán Swing. [ Links ]

Carneiro, H. F., Martins, J. C. O., & Rocha, H. P. (2011). Percepções do sofrimento psíquico na obra de Patativa do Assaré. Psicologia & Sociedade, 23(3), 592-597. https://doi.org/10.1590/S0102-71822011000300017Links ]

Dell, C. (2014). Mitologia: Um guia dos mundos imaginários. Edições Sesc. [ Links ]

Didi-Huberman, G. (2010). O que vemos, o que nos olha. Editora 34. [ Links ]

Freud, S. (2021) Obras completas, volume 5: Psicopatologia da vida cotidiana e sobre os sonhos. Companhia das Letras. [ Links ]

Gennep, A. V (2013). Os ritos de passagem. Editora Vozes. [ Links ]

Grinberg, P. (2017). Jung, o homem criativo. Editora Blucher. [ Links ]

Hillman, J. (2010). Re-vendo a psicologia. Editora Vozes. [ Links ]

Homero. (2022). Odisseia. Editora 34. [ Links ]

Jung, C. G. (2013a). A natureza da psique. Editora Vozes. [ Links ]

Jung, C. G. (2013b). Tipos psicológicos. Editora Vozes. [ Links ]

Jung, C. G. (2014). A vida simbólica. Editora Vozes. [ Links ]

Jung, C. G. (2015). O eu e o inconsciente. Editora Vozes. [ Links ]

Jung, C. G. (2017a). Fundamentos da psicologia analítica. Editora Vozes. [ Links ]

Jung, C. G. (2017b). Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Editora Vozes. [ Links ]

Jung, C. G. (2021). Os livros negros. Obras completas. Editora Vozes. [ Links ]

Knox, J. (2019). O relacionamento analítico: Integrando perspectivas junguianas do apego e desenvolvimentais. In M. Stein (Org.), Psicanálise junguiana: Trabalhando no espírito de C. G. Jung (Cap. 18, pp. 288-305). Editora Vozes. [ Links ]

Moraes, D. (2015). O velho Graça: Uma biografia de Graciliano Ramos. Editora Boitempo. [ Links ]

Valente, V L. C. (2021). Polis, psique e política: Caminhos de poder e adoecimento da alma. In H. Oliveira, R. T. Gui, & R. Bragarnich (Orgs.), O espírito insaciável da época – Ensaios de psicologia analítica e política (Cap. 9, pp. 223-251). Editora Vozes. [ Links ]

Ramos, G. (2018). Vidas secas. Editora Record. [ Links ]

Vechi, L. G. (2018). A hermenêutica junguiana em estudo: Aplicações possíveis na pesquisa qualitativa em psicologia. Revista de Psicologia, 9(2), 21-30. https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-909344Links ]

Ribeiro, D. (2015). O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. Global Editora. [ Links ]

Rocha, H. P., Buriti, I., & Martins, J. C. O. (2010). “Eu canto o sertão que é meu”: escrituras de sertão na poesia de Patativa do Assaré. Dimensões, 24, 298-319. https://www.academia.edu/27471752/Eu_canto_o_sert%C3%A3o_que_%C3%A9_meu_escrituras_de_sert%C3%A3o_na_poesia_de_Patativa_de_Assar%C3%A9Links ]

Salis, V D. (2003). Mitologia viva: Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar. Nova Alexandria. [ Links ]

Salis, V D. (2017). Paideia nos 12 trabalhos de Hércules: Caminhos para formar um jovem ético e criador. Sattva Editora. [ Links ]

Stein, M. (2020). Jung e o caminho da individuação: Uma introdução concisa. Editora Cultrix. [ Links ]

Recebido: 18 de Setembro de 2021; Revisado: 18 de Setembro de 2021; Aceito: 12 de Fevereiro de 2023; Publicado: 01 de Julho de 2024

*Endereço para correspondência Rita de Cássia Rebouças Rodrigues E-mail: ritareboucas@hotmail.com; Julio Cledson de Oliveira Guedes E-mail: professorjulioguedes@outlook.com; Francisco Welligton de Sousa Barbosa Junior E-mail: franciscowbjr@gmail.com; José Clerton de Oliveira Martins E-mail: clerton@unifor.br

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License, which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.