A violência como forma de cuidar e educar os filhos vem sendo utilizada ao longo da história e é considerada como um problema mundial de saúde pública (Krug et al., 2002). A partir disso, os estudos científicos vêm cada vez mais contribuindo para que essa prática seja deixada para trás, evidenciando suas consequências negativas para o desenvolvimento das crianças (Krug, et al., 2002; Reis & Prata, 2018). Mais do que mostrar os efeitos da violência, seja física, verbal, psicológica, sexual ou mesmo a negligência, é necessário avançar na direção da prevenção da violência contra crianças e adolescentes (Krug et al., 2002).
Os programas de aperfeiçoamento das habilidades parentais vêm sendo utilizados como estratégia para prevenção da violência, auxiliando pais a adquirir conhecimento sobre desenvolvimento infantil e estratégias de educação de uma forma amorosa, para que possam desenvolver um papel positivo para as crianças e garantir um desenvolvimento saudável (Altafim & Linhares, 2022). A promoção de um ambiente seguro e saudável para a criança, que contempla o diálogo adequado, a expressão das emoções e o afeto, permite uma melhor interação entre os membros da família, possibilitando que a criança aplique nas demais relações, diminuindo os problemas de comportamento (Kusiak et al., 2019).
No período em que ocorreu a pandemia de Covid-19, as escolas foram fechadas, as atividades culturais presenciais proibidas e o distanciamento social preconizado, modificando, assim, o modo de vida das famílias e reduzindo a rede de apoio dos pais. O estudo de Parente et al. (2020), realizado com 45 crianças e familiares, averiguou mudanças significativas na rotina. Os autores identificaram que os pais e cuidadores apresentaram algumas dificuldades, entre elas: oferta de estímulos adequados às crianças, mediação dos comportamentos das crianças e conciliação do cuidado das crianças com as outras atividades (doméstica, home office). A pesquisa exploratória de Salvador et al. (2020), realizada com cinco famílias, identificou como fatores estressores relevantes no período da pandemia: dificuldades dos pais no auxílio à realização de atividades escolares on-line, sobrecarga de atividades (tanto dos filhos como dos pais) e problemas financeiros. Os dados do estudo também apontaram aumento no tempo do uso dos meios eletrônicos nas crianças.
Para Heilborn et al. (2020), em tempos de isolamento social e na ausência de auxiliares domésticos, as tarefas e cuidados cotidianos foram intensificados, acarretando um montante maior de atividades para as cuidadoras familiares, o que também se estende aos suportes moral e afetivo. Importante considerar que o apoio social, ou seja, a disponibilidade de pessoas e ou instituições significativas (Samuelsson et al., 1996), desempenha uma função de mediar o impacto do risco (Griep, 2003), reduzindo as necessidades diante de situações adversas, potencializando o desenvolvimento dos membros da família (Azevedo et al., 2019). Dessa forma, acredita-se que os programas parentais podem ser uma alternativa para participação dos pais e cuidadores no desenvolvimento e na promoção da saúde mental, tanto da criança quanto da própria família, em especial em um período adverso como o da pandemia.
De acordo com Mikton e Butchhart (2009), programas parentais promovem o conhecimento dos pais sobre desenvolvimento infantil, melhorando suas habilidades parentais de educação e encorajando estratégias positivas de manejo do comportamento infantil, possibilitando prevenção eficaz de maus tratos, abusos e negligência infantil. Uma intervenção parental adequada constrói excelentes oportunidades para melhorar os níveis de informação e capacidades educativas parentais, contribuindo para a promoção de um desenvolvimento seguro e saudável da criança (Porta et al., 2021). Segundo Abreu-Lima et al. (2010, p. 9), “centradas na promoção e no fortalecimento das famílias, tais intervenções procuram disponibilizar mais informação e visam promover mais competências, mais responsabilidades e mais poder de decisão junto de pais de crianças com problemáticas diversas ou em risco de desenvolvimento”.
Uma das propostas de programa parental universal é o Programa ACT (Adults and Children Together) para educar crianças em ambientes seguros. A intervenção foi elaborada pela Associação Americana de Psicologia, no ano de 2001, e é destinada aos pais e cuidadores de crianças de zero a oito anos. O Programa ACT tem como objetivo a prevenção precoce de práticas parentais violentas, fortalecendo famílias a melhorarem suas habilidades parentais (Silva, 2011).
O Programa conta com oito sessões que contemplam diferentes temáticas: desenvolvimento infantil, disciplina positiva, manejo da raiva, resolução de conflitos e efeitos da mídia e dos eletrônicos na infância. A partir do conteúdo – que tem como base a psicologia do desenvolvimento, teoria cognitivo-comportamental, direitos fundamentais das crianças e estudos atuais sobre impacto da violência à criança, bem como a troca de ideias e experiências entre os participantes –, a intervenção busca que os pais e cuidadores aperfeiçoem habilidades parentais positivas, a fim de possibilitar o desenvolvimento saudável e promover a saúde das crianças (Pontes et al., 2019).
O Programa ACT vem sendo desenvolvido em diferentes países, aplicado e avaliado em vários contextos, como serviços de saúde, educação, sistema da justiça, entre outros (Silva & Williams, 2016). Os estudos de Portwood et al. (2011) e Knox et al. (2013) investigaram os efeitos do Programa ACT por meio de ensaios clínicos randomizados com pais/cuidadores participantes da intervenção. Os autores evidenciaram que o Programa ACT apresentou resultados positivos em diferentes fatores relatados pelos pais/cuidadores de crianças, entre eles: ampliação de práticas positivas e diminuição no uso de violência (física e verbal). Os autores consideraram que a intervenção é uma estratégia de prevenção primária de violência contra a criança que pode ser implementada em diferentes contextos.
Muitos estudos têm sido realizados no Brasil, tendo como objeto de interesse o Programa ACT (Altafim & Linhares, 2019; Oliveira et al., 2021; Pedro et al., 2017; Pontes & Brino, 2022; Ramos et al., 2019). O estudo realizado por Pedro et al. (2017), por exemplo, a partir de uma amostra com 64 mães brasileira de crianças de três a oito anos de idade e de diferentes níveis socioeconómicos, constatou que o Programa ACT apresentou efeitos positivos nos seguintes aspectos relatados pelas mães/cuidadoras: monitoramento de meios eletrônicos pelas cuidadoras; melhora das práticas educativas maternas; redução de problemas de conduta das crianças; e, aumento do comportamento pró-social nas crianças. A pesquisa evidenciou que o ACT é uma ferramenta importante para proteger as crianças em contextos adversos. Nessa mesma perspectiva, Altafim e Linhares (2019) avaliaram os efeitos do Programa ACT, a partir de um grupo de intervenção com 40 mães e um grupo-controle de lista de espera com 41 mães; e, 67 informantes sobre o comportamento das crianças. Os dados apontaram no grupo de intervenção: melhora na percepção de mães/cuidadoras em relação as suas práticas parentais e a redução de problemas de comportamentos das crianças. Os resultados foram mantidos após três-quatro meses do término da intervenção.
Pontes e Brino (2022), a partir de um estudo-piloto randomizado, avaliaram a efetividade do Programa ACT. O estudo contemplou 10 pais, divididos em grupos experimental (GE) e controle (GC) de espera e teve como instrumentos medidas observacionais da interação pais-filhos e de autorrelato dos pais. Os participantes foram submetidos às medidas de pré-teste, pós-teste e follow-up. Os dados evidenciaram o aumento da habilidade de resolução de problemas autorrelatadas pelos pais do grupo experimental, comparados aos participantes do grupo controle. Também foi identificado aumento significativo de conhecimento sobre o conteúdo do Programa ACT (estilos parentais, desenvolvimento infantil e comportamento dos pais), no grupo experimental após a intervenção.
Ramos et al. (2019), por meio de uma pesquisa qualitativa, que visou identificar a perspectiva de pais portugueses sobre a experiência e participação no Programa ACT, constatou que houve expectativas mais adequadas a fase do desenvolvimento das crianças, aumento da consciência dos comportamentos parentais, aumento na autorregulação emocional dos pais, ampliação das práticas parentais positivas, entre outros. Oliveira et al. (2021), também a partir de um estudo de abordagem qualitativa, visaram identificar as aprendizagens de pais que participaram do Programa ACT. Entre os achados pelos autores, destacaram-se: aprendizado dos pais a respeito das práticas educativas parentais positivas e estratégias de disciplina positiva; aumento do conhecimento a respeito do desenvolvimento infantil e ampliação na compreensão em relação aos danos causados pela exposição da criança às situações de violência.
A partir de uma aplicação do Programa ACT para Educar Crianças em Ambientes Seguros no ano de 2019, e diante do incremento nos desafios da parentalidade apresentados em meio a uma pandemia, pesquisar a percepção dos pais sobre as estratégias aprendidas em um programa parental mostra-se importante para identificar de que forma a participação no Programa ACT contribuiu para a vivência no período da pandemia. Dessa forma, a presente pesquisa tem como objetivo compreender a percepção dos pais participantes do Programa ACT, realizado em 2019, quanto à utilização das aprendizagens do programa durante a pandemia da Covid-19.
Método
Delineamento e Participantes
Trata-se de um estudo de caráter descritivo e exploratório, a partir de uma abordagem qualitativa de investigação. Participaram do estudo 15 pais/cuidadores de crianças de zero a oito anos (idade das crianças referente ao momento da implementação do Programa) que concluíram a aplicação do Programa ACT em 2019. O grupo era constituído por mães, pais e cuidadores que tinham emprego estável, escolaridade mínima de ensino médio completo e motivação para melhorar a forma de educar os filhos. Esses pais também tinham filhos entre zero a oito anos de idade, sem diagnóstico prévio de transtorno do desenvolvimento ou de comportamento. Os critérios de inclusão da presente pesquisa foram: ter participado de pelo menos 70% dos encontros do Programa ACT no ano de 2019 e ter vivenciado a pandemia da Covid-19 em convívio com os filhos.
Dos 15 participantes que aceitaram participar do estudo, 13 eram do gênero feminino e apenas dois eram do gênero masculino. Todos os participantes eram pais ou mães das crianças e tinham idades entre 35 e 52 anos (M=39,46; DP=4,32). Ainda, 13 participantes eram casados ou em união estável, um era solteiro e um era divorciado. Quanto à renda individual, a variação era entre R$ 1.000,00 até R$ 9.000,00. Já a renda familiar era em torno de R$ 10.000,00. Os participantes possuíam entre um e dois filhos, com idades entre zero e oito anos. Quanto ao nível de escolaridade, dois pais tinham ensino médio completo, um tinha ensino superior completo, e 12 tinham pós-graduação em andamento.
Instrumentos
Neste estudo foi utilizado um roteiro de entrevista semiestruturada, elaborado pelas pesquisadoras (autoras), que contemplou: questões referentes aos desafios da pandemia na vida da família; e, perguntas sobre a utilização/aplicação dos conteúdos aprendidos no Programa ACT durante a pandemia de Covid-19 no contexto familiar. O roteiro da entrevista constituiu-se em um tópico-guia, sendo uma orientação para o entrevistador, e permitindo que se mantivesse o momento livre, agradável e confortável. As entrevistas foram gravadas e transcritas para análise qualitativa dos dados.
Procedimentos e Considerações Éticas
Este estudo faz parte de um projeto guarda-chuva intitulado Educando Sem Violência: Avaliação do Programa ACT para Educar Crianças em Ambientes Seguros, submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos de uma universidade federal, sob o número de CAAE 01903118.0.000.5346. A partir deste projeto, o grupo de pesquisa, do curso de psicologia de uma universidade federal, realizou três aplicações do Programa ACT com pais e cuidadores de crianças de zero a oito anos no ano de 2019. Para este estudo, sendo fruto de um projeto aprovado em 2019, a presente etapa de coleta de dados foi avaliada por meio da submissão de uma ementa, tendo sido aprovada com parecer número 5.219.704.
O contato com os participantes foi realizado via telefone, a partir dos dados de contato coletados por meio de ficha sociodemográfica no período de realização das aplicações do Programa ACT, em 2019. Reforça-se que 29 pais haviam finalizado o Programa ACT com 70% de frequência, tendo sido contatados para o novo convite. Dessa forma, verificou-se a disponibilidade e interesse dos pais e cuidadores em participar do estudo.
Os participantes foram apresentados à pesquisa, informados quanto aos objetivos, métodos e procedimentos, assim como foram orientados quanto a sua participação se dar de forma voluntária, com a possibilidade de desligar-se da pesquisa a qualquer momento. Além disso, foram informados quanto aos possíveis riscos e benefícios de sua participação, bem como a garantia do compromisso com o sigilo dos dados obtidos no estudo, que foram divulgados de forma anônima. Posteriormente, após concordância dos participantes com a realização, participação e gravação da entrevista, foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Essa apresentação sucedeu-se de forma on-line, através de um link digital com a opção de clicar ao final da leitura, em “aceito participar desta pesquisa” e salvar uma cópia deste termo para si.
As entrevistas foram marcadas de acordo com a disponibilidade dos entrevistados, e foram realizadas no mês de novembro de 2021. A entrevista foi realizada por meio do aplicativo Google Meet e gravadas em áudio, com a autorização prévia dos participantes, sendo posteriormente, transcritas para análise dos dados. A duração das entrevistas foi em torno de 50 minutos.
A presente pesquisa atendeu às exigências éticas fundamentais estabelecidas a partir das Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa envolvendo Seres Humanos – Resolução 510/2016 e 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde –, e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos de uma Universidade Federal. O material ficará armazenado por cinco anos na sala da pesquisadora responsável pela pesquisa. Após o período, o material será destruído, garantindo-se o sigilo dos dados e dos participantes. Esse aspecto foi assegurado pelo Termo de Confidencialidade dos Dados.
Análise de Dados
Para a análise dos dados, foi utilizada a Análise de Conteúdo de Bardin (2006), que se refere a um conjunto de instrumentos metodológicos aplicados aos discursos, o qual analisa as comunicações, decompondo-as e elencando categorias. A análise foi realizada de forma independente por duas pesquisadoras (primeira e última autoras), sendo as divergências resolvidas por consenso. Inicialmente, efetuou-se uma análise individual detalhada de cada entrevista, por uma pesquisadora. Em seguida, efetuou-se a exploração do material, tanto a nível individual das falas dos participantes quanto em sua totalidade de conteúdo. A partir disso, foi realizado o recorte de informações comuns encontradas no conteúdo das falas transcritas, o que permitiu a construção das categorias. Ao fim do processo de análise, foram construídas, a posteriori, três categorias que reuniram conteúdo significativos sobre as aprendizagens construídas e aplicadas. As categorias foram (1) Regulação emocional dos pais consigo e dos pais para com os filhos; (2) Desenvolvimento infantil, disciplina positiva e comunicação; (3) Monitoramento dos pais do uso de mídias eletrônicas pelos filhos. A nomenclatura das categorias advém da relação entre as falas dos participantes e as temáticas que constituem o Programa ACT.
Resultados e Discussão
Os resultados são apresentados a seguir, de acordo com as categorias e subcategorias. Os participantes foram identificados com a letra “P” da palavra Participante, e numerados de acordo com a ordem de realização das entrevistas.
1. Regulação emocional dos pais consigo e dos pais para com os filhos
Esta categoria é composta por três subcategorias. Reúne as falas dos pais acerca da aprendizagem de reconhecer e regular suas próprias emoções e comportamentos diante dos desafios enfrentados durante a pandemia; aprendizagem de favorecer o reconhecimento e regulação das emoções nos filhos; como também, a aprendizagem de buscar fortalecer o apoio social para potencializar a autorregulação parental. Quanto à primeira subcategoria, observou-se a importância do reconhecimento, controle e forma de expressão das emoções dos pais/cuidadores no período da pandemia de Covid-19: “Entender quando a gente estava mais estressada, dar uma respirada, esperar um pouco pra falar, e também de entender o que as crianças estavam sentindo, porque também era difícil pra eles” (P3); “Que o nosso humor, o nosso dia, de que maneira a gente estava snaquela situação também influenciava (...) foi muito proveitoso os ensinamentos do curso” (P5); “A gente tentou muito usar disso, sabe? Como eu te falei, que a gente saia para espairecer, para se acalmar, para não descontar neles. A chave dessa construção é a gente, não é a criança. É olhar para a gente” (P6).
A autorregulação representa a capacidade de o sujeito regular seus pensamentos, emoções e comportamentos, de modo a adaptar-se às demandas apresentadas ou atingir um objetivo (Linhares & Martins, 2015). A habilidade de regulação emocional dos pais contribui para que eles busquem novas formas de lidar e conduzir os desafios enfrentados, tanto em suas vidas quanto na orientação para com seus filhos na obtenção de respostas adequadas ao ambiente. Importante considerar que, o aumento da autorregulação emocional dos pais/cuidadores que participaram do Programa ACT também foi constatado em outro estudo (Ramos et al., 2019).
Ainda sobre a autorregulação dos pais, os participantes evidenciaram saber que a compreensão sobre os sentimentos de raiva e a busca por um manejo saudável dessas emoções possibilita aprendizagem acerca dos seus comportamentos, sinalizando um entendimento sobre o incremento dos desafios da parentalidade em meio a pandemia: “E da minha parte foi entender mesmo que uma coisa ia ficar de lado às vezes, outra vez outra, que não tinha como dar conta de tudo nesse período tão desafiador que foi” (P1); “O diferencial do Programa ACT foi a questão da raiva, da raiva da gente, que a gente sente, o autocontrole, o autocuidado (...) é ali que está o pulo do gato. A raiva da gente, não a raiva deles” (P7).
As falas dos participantes demonstram que a percepção dos pais vai ao encontro de um dos objetivos do Programa ACT. Nos encontros sobre o manejo da raiva dos pais e dos filhos, os conteúdos apresentados na intervenção buscam auxiliar os pais na compreensão e controle da raiva, reconhecendo que, por vezes, a criança é alvo de emoções negativas advindas de uma situação anterior à situação do aqui-agora. O Programa ACT também debate que a criança, enquanto ser humano em desenvolvimento, está aprendendo a lidar com as próprias emoções, assim, a intervenção ajuda os pais na identificação dos sentimentos de raiva dos filhos e no manejo dos momentos em que as crianças sentem raiva, ensinando-as sobre esse sentimento e buscando estratégias para enfrentá-lo (Silva, 2011).
A segunda subcategoria foi constituída de falas sobre a postura dos pais em ajudar os filhos a reconhecerem e lidarem com as próprias emoções. Os relatos dos participantes de que buscaram se acalmar, respirar fundo, ajudaram o filho no manejo com emoções negativas. Para além disso, também puderam se afastar da situação-problema vivenciada para encontrar uma melhor forma de lidar, bem como demonstraram a aprendizagem da importância da autorregulação colocada em prática em um momento de estresse decorrente da pandemia de Covid-19. A fala a seguir ilustra essa análise:
Conseguir ajudar ele a nomear um sentimento. Dizer “quem sabe tu não tá triste porque tal coisa e vamos tentar uma outra coisa” ou “o que que tu sugere?” Isso dá autonomia. “(...) como que eu posso te ajudar?”, “que tu acha que vai te fazer se sentir melhor?” (P10).
Os pais precisam entender a forma de expressão das emoções das crianças, auxiliando-as a compreenderem o que sentem, nomeando as emoções, e, ainda, incentivando a criança na avaliação de quais seriam as reações mais adequadas para cada situação enfrentada. Destaca-se que o ambiente com padrão adequado de diálogo, afeto e expressão das emoções propicia uma melhor interação social entre os membros da família, fazendo com que as crianças repliquem isso nas demais relações, diminuindo as chances de problemas de comportamento (Kusiak et al., 2019).
A terceira subcategoria reflete a aprendizagem dos pais sobre contar com outras pessoas no manejo dos desafios da parentalidade. Os pais falaram que revezaram o cuidado com o parceiro ou parceira, o que potencializou a autorregulação. A importância de poder contar com apoio social no cuidado com as crianças, mas, principalmente, com o manejo das próprias emoções, foi um fator notável na fala dos participantes, como mostra as falas a seguir: “Quando um tava mais estressado, daí o outro tomava conta assim com as crianças, lidava com as situações (...) não sobrecarregar quem tá mais estressado, e não descontar nas crianças” (P2); “Quando eu não aguentava mais, quando eu não estava bem ou perdia a paciência, ele assumia, e vice versa (...) e assim que a gente vem fazendo, a pandemia foi bem exemplo disso, porque foram muitas dificuldades ao mesmo tempo” (P3).
O apoio social refere-se à existência ou disponibilidade de pessoas e ou instituições significativas, em que se pode confiar (Samuelsson et al., 1996). Estudos têm indicado que a percepção de apoio social está associada à saúde, indicando que se trata de um mecanismo protetivo para os indivíduos. Em momento de estresse, o apoio social pode ter sua importância aumentada, pois desempenha uma função moderadora ou mediadora para o impacto do risco (Griep, 2003). A rede de apoio, constituída de pessoas significativas, proporciona auxílio aos pais e cuidadores, seja no âmbito da administração das rotinas, seja na dimensão de suporte emocional. Com as medidas de distanciamento impostas pela pandemia, as famílias tiveram suas redes de apoio modificadas (Heilborn et al., 2020; Parente et al., 2020) e precisaram que os pais e as mães de crianças usufruíssem de uma relação de reciprocidade para um auxiliar o outro. O estudo quantitativo de Azevedo et al. (2019), realizado com 120 pais, indicou que se o apoio entre o casal parental for recíproco, a família poderá apresentar uma redução das necessidades diante de situações estressantes, valorizando e potencializando o desenvolvimento e interação entre todos os membros.
Desenvolvimento infantil, disciplina positiva e comunicação
A segunda categoria foi constituída de três subcategorias. Esta categoria reuniu as falas dos participantes que indicavam a presença de conceitos precursores e fundantes da disciplina positiva, como um olhar sensível para a criança e uma concepção de infância peculiar. Também incluiu os exemplos das diferentes ações educativas da disciplina positiva na criação dos filhos e na resolução de conflitos por parte dos participantes. Por fim, constatou-se uma abertura para a comunicação direcionada aos filhos.
As falas dos pais salientaram o empenho na compreensão da infância como uma etapa de desenvolvimento e aprendizagem dos filhos, além de considerarem os aspectos comportamentais e emocionais da criança e o impacto da pandemia:
Lembro daquelas questões do curso, das birras, e aí quando eles estavam mais nervosos, eu sempre tentava ouvir o que eles estavam sentindo sabe, para entender o que eles estavam sentindo, e também ajudar eles (...) aprendi mais como era o funcionamento deles, o organismo deles, como eles entendiam as coisas (P1).
O curso veio me reforçar ainda mais essa necessidade de trazer o amor, a afetividade, o carinho, a compreensão do infantil, que são crianças, seres humanos que estão em formação, e a forma que aquela massinha de modelar for se moldando, ele quando pequeno, vai refletir quando for adulto (P13).
Os dados corroboram os achados de outros estudos a respeito do Programa ACT, que evidenciaram a aquisição/ampliação do conhecimento sobre o desenvolvimento infantil (Oliveira et al., 2021; Pontes & Brino, 2022). Destaca-se que, os encontros do ACT elucidam sobre o desenvolvimento emocional e social das crianças, para que os pais tenham expectativas ajustadas às condições da criança. A concepção de infância como momento de formação é destacada na intervenção, transmitindo aos pais que a criança está em formação, de modo que seu comportamento reflete esse processo e não uma característica fixa (Silva, 2011).
Os participantes também evidenciaram o uso das ações educativas da disciplina positiva, dando origem a segunda subcategoria. As principais estratégias positivas utilizadas pelos participantes no momento da pandemia de Covid-19 e sinalizadas na entrevista foram: a explicação de consequências lógicas e naturais, dar opções e o estabelecimento de limites. As falas a seguir evidenciam essa análise:
“A gente fazia questão, para eles terem um entretenimento, uma distração, de fazer uma atividade, uma rotina, o hábito mesmo, ter atividades pra fazer. Porque não tínhamos ideia de quando as coisas voltariam ao normal” (P1); e Colocar para ele que nem sempre é como ele quer (... ) ele gosta muito de jogar aqueles joguinhos, meu marido explica para ele que tem hora para as atividades, que tem hora para jogar... que ele tem que brincar, fazer as atividades, aí depois ele acaba entendendo (P9).
A forma de comportamento dos participantes com seus filhos era não-violenta, respeitosa, firme, consistente e amável, fazendo “combinados” com as crianças que deveriam ser cumpridos e incluindo-as nas decisões, demonstrando empatia e tolerância, mesmo com o incremento dos desafios enfrentados. O limite e a consistência na disciplina foram apresentados com respeito, confiança e amorosidade, e acompanhados pelo próprio exemplo:
Lembro muito da parte de não usar violência, principalmente de entender melhor o que é uma criança (...) que precisa de mais e mais paciência, que a interpretação da criança do que que não é para fazer é diferente da nossa (... ) que dizer não para uma criança não é tão simples, que ela não tem discernimento pra entender aquele não. Então ajudou muito a desenvolver paciência, fazendo as coisas de forma cuidadosa e com muito carinho (P2).
As falas dos pais mostraram-se condizentes ao uso de disciplina positiva, para com os filhos, trabalhados no Programa ACT. O objetivo gira em torno de ensinar aos pais e cuidadores a prevenção dos comportamentos difíceis, buscando formas positivas de disciplina para as crianças, visto que os cuidados e educação dos filhos afetam seus comportamentos por toda a vida (Silva, 2011). Estudos sobre o efeito do Programa ACT para pais/cuidadores vêm evidenciando o aumento das práticas parentais positivas, bem como da redução do uso da violência física e verbal na educação de crianças, por pais e cuidadores que participaram da intervenção (Altafim & Linhares, 2019; Knox et al., 2013; Oliveira et al., 2021; Pedro et al., 2017; Portwood et al., 2011; Ramos et al., 2019).
Outro aspecto encontrado na análise foi a abertura para a comunicação com os filhos trazida pelos participantes. Ficou claro que os pais davam importância para o diálogo. Nesse sentido, conversar, explicar, colocar-se à disposição para a criança falar o que sentia e os desafios enfrentados por ela, especialmente com relação às mudanças e perdas das crianças na pandemia, foram alvo de diversos apontamentos durante as entrevistas:
Às vezes eu percebo que ele não está legal, daí eu chamo ele e pergunto “o que que está acontecendo? A mãe percebeu que tu está diferente, agiu de uma forma que não é o teu normal”, daí ele vai falando (P14).
A gente explicava para ele né, que não dava, que no momento tinha que se cuidar, ficar mais por casa (...). Aquela rotina de usar álcool em gel, a máscara, se cuidar. A gente falava para ele que ia voltar, mas que tinha que aguardar (...) até ter a vacina, e aí ele entendeu numa boa (P10).
Além disso, as falas evidenciam que os pais auxiliaram a criança na busca por outras alternativas para resolução dos conflitos:
A gente sempre tem o hábito de tudo eu conversar com ele, até quando eu tenho que chamar ele para dar uma bronca ou algo assim, eu digo assim “filho, vem cá, vamos lá no quarto” daí a gente conversa. “Tu viu o que aconteceu, tu fez assim, tu fez assado (...) Tu poderia ter feito assim, feito assado (P9).
Ao apresentar alternativas concretas de como agir de forma positiva na disciplina dos filhos, o Programa ACT fortalece na criança a construção de um repertório social, cognitivo e emocional competente para manejar os desafios da vida. Essas ações, como o “time out”, explicação das consequências naturais e lógicas, estabelecimento de limites, distração da atenção, eliminação de privilégios, entre outros são reconhecidos como componentes das práticas educativas indutivas, já exaustivamente descritas na literatura como estando relacionadas a resultados positivos do Programa (Oliveira et al., 2021; Porta et al., 2021). Ao utilizarem, de forma consistente com os filhos, as práticas educativas positivas, lançando mão do seu próprio exemplo, os pais estão preparando as crianças para lidarem com os desafios dos diferentes contextos, ensinando-as na resolução de problemas e busca de alternativas competentes para isso. Além disso, espera-se que tal engajamento reflita um alto envolvimento desses pais com o desenvolvimento dos filhos, fazendo inferir que o laço afetivo e de confiança poderá fortalecer e fomentar relações familiares sólidas.
Monitoramento dos pais sobre as mídias eletrônicas
Nesta categoria, composta por três subcategorias, foram reunidas as falas dos pais relacionadas ao uso das mídias eletrônicas, como televisão, celular, e videogames, no que tange o início da exposição dos filhos às diferentes mídias, expansão do tempo de uso de tela pelas crianças, ao monitoramento do conteúdo e tempo. Também incluiu relatos da utilidade dos eletrônicos no auxílio dos pais para o desempenho das atividades profissionais que passaram a acontecer em casa, bem como aos afazeres domésticos. Os participantes relataram diferentes aprendizagens aplicadas nessa seara, considerando a familiaridade e frequência da família e da criança com as diferentes telas, a partir de diferentes finalidades.
A maioria dos participantes do estudo relataram que, até a pandemia, a rotina dos filhos não incluía mídias eletrônicas, especialmente quando a criança era pré-escolar. Foi possível constatar a ampliação na utilização de mídias, ou, ainda, o começo da relação com o uso das telas. Esse dado ficou evidente em falas como:
“Uma parte muito difícil do on-line foi a questão dos eletrônicos, porque os guris não tinham muito acesso a isso, não tinham telefone próprio, essas coisas. E com as aulas on-line, precisaram ter acesso frequente a isso” (P3); e Na pandemia, com certeza, foi algo que aumentou a frequência que eles usavam, não a ponto de ficar o dia inteiro (...) mas a TV, o desenho, aumentou um pouco mais na pandemia. O que antes eles olhavam uma vez ao dia, passaram a ver uma vez de manhã, outra de tarde, outra de noite (P1).
As falas dos participantes vão ao encontro dos achados da literatura científica, que evidenciam o aumento do uso de telas pelas crianças na pandemia (Marin et al., 2020; Nagata et al., 2020). Os dados demonstram, ainda, que a maior flexibilização por parte dos pais, diante desse novo cenário pandémico, pode estar relacionado com a tentativa de dar conta das demandas exigidas pelo trabalho, bem como afazeres domésticos. Além disso, pode ser considerada uma tentativa de normalidade dentro de um contexto pandêmico (Marin et al., 2020).
Foi notório o cuidado dos pais quanto aos limites no uso de telas, supervisão do conteúdo assistido e também à qualidade dos conteúdos oferecidos, aspectos destacados e debatidos em um dos encontros do Programa ACT:
“A gente tem conseguido segurar, cuidar o que tão vendo também (...) que não é qualquer coisa que vão assistir (...), então é estipular o tempo, o que vão assistir, foi por aí” (P2); e
“Tudo que ele for assistir, ver, é passado pelo meu crivo antes, não fica assim livre, leve e solto. Eu tô em casa, então consigo acompanhá-lo. Tudo que ele vê, acompanhar tudo que ele assiste, os canais que ele acessa, tudo eu consigo ter esse acompanhamento” (P11).
Ainda, as falas dos pais demonstram que eles compreendiam os riscos e prejuízos que o uso de telas oferece:
“A gente viu que não dava só para ligar a aula on-line e deixar ligada assim com eles sozinhos (...) tem que ter um acompanhamento (...) porque é novidade para as crianças também, né?” (P3); e
Tem que ter um cuidado com o que a criança está assistindo, e o tempo também, não dá para dar o tempo todo, o curso trouxe muito isso né, dos riscos (...) dos prejuízos. E o curso falava sobre esse uso moderado, sobre o uso com uma certa qualidade, com o controle (...) também não adianta colocar pouco tempo e um conteúdo ruim para criança (P7).
As mídias eletrônicas têm sido utilizadas com frequência por crianças cada vez mais novas, com objetivo de distração e entretenimento, além da possibilidade de poder acalmá-las. As mídias podem ter efeitos positivos, como a possibilidade de ensino, trabalho e comunicação com outros (Nagata et al., 2020; Santos & Barros, 2018). Entretanto, o excesso do uso de tecnologias pode causar diversas dificuldades em relação a comunicação, isolamento social, conexões afetivas, problemas de saúde mental, conforme outros estudos (Ellis et. al., 2020; Lopes, 2020). Além da irritabilidade presente nas crianças, podem ser notórios também, os problemas relacionados ao sono, comportamentos agressivos e até uso de substâncias em crianças com a exposição aumentada às mídias eletrônicas (Marin et al., 2020; Rocha et al., 2021; Sociedade Brasileira de Pediatria [SBP], 2020).
Segundo os participantes, o Programa ACT auxiliou-os a lidar com os efeitos perniciosos do uso aumentado das mídias eletrônicas, sugerindo que os pais pudessem balancear esse tempo de tela com outras atividades feitas na companhia de um ou ambos pais e/ou familiares, com foco na qualidade da experiência. Segundo alguns pais: “As próprias atividades que a gente fez, diminuiu o uso do telefone, a necessidade no caso, de usar” (P2); e
Dependeu muito da criatividade da gente fazer outras atividades, propor outras atividades que não fosse com telas, quando deu pra sair um pouco, a gente saía ao ar livre, com máscara, tudo, tomando todos os cuidados (...) montamos rotina, horários das atividades, das refeições, do banho, hora do celular. Era algo para saúde mental deles, e pra nossa (P3).
Os dados evidenciados no estudo estão relacionados com um dos objetivos do Programa ACT quanto ao uso de telas e mídias eletrônicas na infância, que visa incentivar os pais e cuidadores a tornarem-se mais conscientes dos riscos e impactos das mídias eletrônicas no comportamento dos filhos, além de discutir ferramentas para um uso consciente e responsável. Os pais constataram o aumento da utilização das mídias eletrônicas, mas também foi possível observar que compreendiam os cuidados a serem tomados, como o tempo de tela, classificação indicativa e a qualidade dos conteúdos apresentados às crianças. Esse fator evidencia que os conteúdos do programa são eficazes apesar das adversidades apresentadas na pandemia em relação a essa temática. A intervenção do Programa ACT, segundo a percepção das mães de outro estudo, foi eficaz em auxiliá-las na importante tarefa de monitoramento dos filhos ao acesso de mídia eletrônica (Pedro et al., 2017).
Por fim, a terceira subcategoria incluiu o conteúdo que sinalizava que as mídias foram utilizadas para possibilitar o trabalho domiciliar dos pais e a execução dos afazeres domésticos. Foi possível verificar que os eletrônicos surgiram como uma forma de entretenimento da criança, como um auxílio para os pais realizarem suas próprias tarefas. As falas a seguir ilustram esses aspectos: “Às vezes a gente está cheio de coisa para fazer e deixo, confesso que deixo ele na frente da televisão, no videogame” (P12); “Teve vezes que tivemos que utilizar as telas pra poder dar conta das outras coisas da casa, era muita coisa para dar conta” (P14).
Assim, no período da pandemia, embora tenham sido encontradas dificuldades pelos pais na conciliação das demandas diárias e na utilização das mídias eletrônicas, é imprescindível ressaltar a importância da supervisão na utilização da tecnologia pelas crianças, além do empenho familiar na busca por outras atividades, brincadeiras, escuta e acolhimento das crianças (Marin et al., 2020; SBP, 2020). Nesse sentido, pode-se averiguar que a intervenção possibilitou a ampliação do conhecimento dos pais, promovendo, assim, mais competências diante dos desafios, bem como a ampliação do poder de decisão junto dos pais diante da educação das crianças (Abreu-Lima et al., 2010; Mikton & Butchhart, 2009).
De modo geral, as falas dos pais mostraram-se condizentes com os objetivos do Programa ACT, que busca fortalecer a parentalidade positiva e a prevenção da violência. A intervenção possui um histórico no Brasil com pesquisas, demonstrando eficácia e efetividade para melhorar as práticas parentais, diminuir problemas de comportamento nas crianças em diferentes contextos e prevenir situações de violação de direitos (Altafim & Linhares, 2022; Pontes et al., 2019).
Considerações Finais
O presente estudo teve como objetivo compreender a percepção dos pais participantes do Programa ACT realizado em 2019, quanto à utilização das aprendizagens do programa no período da pandemia da Covid-19. A partir do estudo, pode-se identificar as estratégias utilizadas pelos pais diante dos desafios apresentados em meio a pandemia da Covid-19. Identificou-se o uso da regulação emocional dos pais, como forma de identificação e controle das emoções sentidas por eles nesse momento adverso, possibilitando uma adaptação ao novo contexto e à condução dos desafios enfrentados.
Além disso, foi possível perceber que as estratégias de regulação emocional também foram uma ferramenta auxiliadora no que diz respeito às emoções das crianças, uma vez que os pais estavam abertos a compreender as emoções das crianças, ajudando-as a entender essas emoções e a encontrar qual o manejo mais adequado para as situações. Ainda, a importância de poder contar com o apoio social entre a família apresentou-se como um aspecto evidente. A fala dos participantes evidencia que nos momentos de maior estresse os participantes podiam contar com o apoio do cônjuge para assumir a frente das situações, fazendo uma espécie de revezamento entre eles. Dessa forma, o apoio social pode auxiliar a autorregulação recíproca, além de minimizar os efeitos devastadores das dificuldades enfrentadas em uma pandemia.
Outra ferramenta utilizada pelos pais nesse período foi o uso da disciplina positiva, que tem como objetivo as práticas parentais positivas para educar seus filhos. As falas dos pais, nesse âmbito, demonstraram empenho na busca por uma educação sem violência, compreendendo as etapas do desenvolvimento infantil e os sentimentos e emoções das crianças nesse período. Os pais usaram os preceitos de uma comunicação firme e respeitosa, buscando usar o diálogo como principal ferramenta positiva, além de ações que demonstrem afeto e empatia.
Por meio desse estudo, também foi possível compreender que a pandemia da Covid-19 trouxe consigo, além dos desafios de distanciamento social, um aumento no uso das mídias eletrônicas nas famílias. O presente estudo evidenciou que o Programa ACT ajudou os pais a definir parâmetros seguros, confiáveis e realistas para o uso das mídias eletrônicas por parte dos filhos.
A tecnologia se fez ainda mais presente na vida das famílias, pois, com o distanciamento, as aulas das crianças e o trabalho dos pais passaram a ser de forma remota, além de permitir a comunicação com os familiares. Além disso, a flexibilização das mídias pôde permitir aos pais um auxílio na organização das demandas apresentadas na pandemia, principalmente no âmbito do trabalho e atividades domésticas. Compreende-se, então, que apesar dos benefícios da pandemia neste contexto, os pais mostraram reconhecer os riscos que as telas apresentam, buscando formas de cuidado quanto ao limite de tela e a qualidade do conteúdo apresentado às crianças nesse período, além da busca por outras atividades que não envolvessem o uso da tecnologia.
As estratégias e ferramentas utilizadas pelos pais no período da pandemia mostraram-se condizentes com os conteúdos trabalhados no Programa ACT. Dessa forma, pode-se entender que a participação de pais em programas parentais, como o Programa ACT, pode ser uma ferramenta importante de auxílio no enfrentamento dos desafios encontrados durante um período adverso, como o da pandemia. Ainda, é possível reconhecer que, uma vez que o Programa ACT tenha sido ministrado em 2019 e que os participantes do estudo tenham trazido nas entrevistas elementos fundantes do curso utilizados no ambiente natural das famílias, o Programa ACT ganha evidência no que tange sua validade externa. Assim, a contribuição do estudo pode ser confirmada.
Algumas limitações podem ser observadas neste estudo em relação ao recorte da amostra, visto que os participantes pertencem a um perfil específico que possui alta escolaridade e renda familiar. Dessa forma, estudos são necessários para compreender de que forma outros perfis socioeconómicos de pais que participaram do Programa ACT enfrentaram os desafios da pandemia. Outra sugestão para pesquisas posteriores trata-se da investigação sobre quais as estratégias utilizadas na pandemia, por pais, que não participaram de programas parentais.
Por fim, o presente estudo sinaliza que intervenções como o Programa ACT, focadas e baseadas em evidência, possam ser aplicadas por profissionais da área da psicologia, uma vez que elas auxiliam as famílias e protegem as crianças. É importante destacar que, para aplicar o Programa, o profissional precisa realizar uma capacitação ofertada pela APA (geralmente não tem custo). Ainda, o Programa apresenta baixo custo de disseminação, assim como baixo ou nenhum custo para os participantes (na maioria das localidades, é ministrado gratuitamente) (Knox et al., 2010). A partir disso, entende-se a necessidade de implementação dos programas parentais no âmbito nacional, uma vez que os programas de parentalidade podem servir como uma estratégia para fortalecer a parentalidade positiva e a prevenção da violência.














