Evidencia Científica y Autismo: Una Burbuja de Certidumbre (em tradução livre: Evidência Científica e Autismo: Uma Bolha de Certeza) é um livro publicado em 2020, pela editora Gredos, organizado pelo psicanalista espanhol Iván Ruiz e conta com textos de Agnès Aflalo, Mariano Almudévar, François Ansermet, Ariane Giacobino, Michel Grollier, Jean Claude Maleval e Arseni Maximov.
Esta resenha se baseia em uma edição estrangeira do livro, o que enriquece a discussão com perspectivas internacionais. A escolha do título em português corresponde à tradução do título original em espanhol, com o objetivo de refletir fielmente o tema central da obra e oferecer uma introdução adequada à análise crítica aqui apresentada.
O livro examina o impacto da busca por evidências científicas para sustentar a compreensão do autismo. Além disso, os autores exploram as implicações dessa busca no que é denominado de “mercado do autismo”. A obra oferece um panorama abrangente das diferentes análises sobre o discurso científico, questiona a noção de certeza na pesquisa do autismo e desafia as suposições predominantes no campo.
Nesse contexto, as reflexões do livro sobre o estado atual das pesquisas sobre o autismo, com ênfase em fatores genéticos, confrontam-se com a dificuldade de estabelecer uma relação causal simples entre as bases genéticas e as manifestações clínicas. Os resultados obtidos até o momento conduzem a conclusões fragmentadas sobre fenômenos dispersos. Dessa forma, os autores questionam a validade dos tratamentos baseados nessas supostas correlações. As promessas de tratamentos únicos, explicações causais definitivas ou novos medicamentos, no entanto, não se concretizam e acabam por frustrar as expectativas de famílias, escolas e centros de acolhimento.
Nesse sentido, os psicanalistas criticam a forma como o critério de eficácia, preconizado pela medicina baseada em evidências, ignorando a dimensão da narrativa e, consequentemente, da subjetividade. A ideia de que os tratamentos devem se basear unicamente em evidências científicas é questionada como um produto da aplicação tendenciosa, bem como economicamente orientada através do discurso científico e tecnológico.
Essa visão tem contribuído para a exclusão da psicanálise dos programas e serviços públicos de saúde mental, minando também o status cultural da psicanálise junto ao público geral, em diversos países, há algum tempo. Contudo, o livro traz à tona o debate sobre a relevância das evidências nas práticas clínicas, demonstrando que essa questão está longe de ser meramente acadêmica. Há diversos e importantes interesses em jogo: a alocação de recursos públicos é direcionada para formas de tratamento guiadas por princípios científicos e avaliadas de acordo com modelos baseados em evidências.
Em consonância com a crítica à hegemonia do discurso científico na busca por “evidências” do autismo, os autores Ruiz (2020a) e Miller (2002) alertam para a velocidade desenfreada com que esse discurso se propaga, ultrapassando a própria capacidade da ciência de acompanhá-lo. Segundo Ruiz (2020a, p. 6), essa aceleração cria uma “corrida” em busca de certezas, gerando uma “bolha de certeza” (Miller, 2002 1), operada por especialistas que, em sua ânsia por resultados, podem manipular a verdade.
A evidência científica é um equívoco, ao basear-se somente em dados estatísticos que correspondem modelos convergentes a um ponto de encontro com o capital. A esse respeito, Ruiz (2020a, p. 5, tradução nossa2) afirma haver uma grande quantidade de dinheiro movimentada pelo mercado do autismo, que segue uma lógica própria de que “consome-se e deixa de fora os sujeitos que nela se encontram presos sem interesse financeiro, única e exclusivamente pelo seu sofrimento – referimo-nos aos afetados”.
É importante salientar que a crítica à “evidência científica” não implica na negação da importância de métodos rigorosos de pesquisa e análise de dados. Pelo contrário, os autores reconhecem e defendem a necessidade de pesquisas científicas sólidas e confiáveis. No entanto, alertam para os perigos de se tomar como “evidência científica” apenas aquilo que se encaixa em modelos predeterminados e serve a interesses específicos, muitas vezes relacionados ao capital.
O mercado do autismo conta com aliança atual entre burocracias da saúde e lobbies farmacêuticos, que mobilizam grandes somas de dinheiro em grande escala. Para além disso, apresentam também múltiplos interesses corporativos, com alta incidência em políticas regionais, compartilhamento de poder e promoção de produtos de diagnóstico e tratamento que, às vezes, valem-se do ativismo de parentes das pessoas afetadas (Ruiz, 2020a). Ademais, esse mercado do autismo associou-se às Terapias Cognitivo-Comportamentais (TCCs).
Os psicanalistas Aflalo (2020) e Maleval (2020) mostram como o método Applied Behavior Analysis (ABA) – conhecido no Brasil como Análise do Comportamento Aplicada -e o Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com Déficit Relacionados à Comunicação (TEACCH, na sigla em inglês) são ofertados com a marca de evidência científica.
Nesse sentido, há muitas promessas de tratamentos eficazes, de explicações causais ou de novos fármacos que, na verdade, pouco têm contribuído para as famílias, escolas e ou centros de atenção à criança autista. Ainda, apesar das pesquisas e, a cada nova descoberta, as conclusões não chegam. Para Ruiz (2020a), a interpretação dos números pode estar forçada, pois estudos mostram sérias contradições e tornam a etiologia do autismo uma questão cada vez mais complexa.
Ansermet e Giacobino (2020) demonstraram o quanto o autismo ainda é um enigma para a modernidade. O estudo desses autores está publicado também em outro livro, com o título de Autismo: A Cada um seu Genoma (Ansermet & Giacobino, 2013). Segundo eles, a atual pesquisa genética coloca em evidência que o código genético, em todas as suas vertentes, não libera uma causalidade única. Pode-se, portanto, extrair outra contradição dos críticos que dizem que a psicanálise não trata o autismo. Nas palavras desses autores: “Pensa-se em esmagar a psicanálise com a genética, e eis que os impasses da genética provocam o redescobrimento das questões da psicanálise e sua necessidade” (Ansermet & Giacobino, 2013, p. 89).
Ruiz lembra a seus leitores que a psicanálise opera no espaço de constituição do sujeito que é, essencialmente, aquele espaço de resposta à sua somática ou à sua história; o sujeito como efeito sem causa. A psicanálise “não depende de hipóteses etiológicas em seu fundamento orgânico” (Ruiz, 2020a, p. 9 3). No entanto, à vista disso, Ruiz defende que a psicanálise não está impedida de entrar nos debates etiológicos que a ciência, baseada em evidências, vem sustentando há algumas décadas. Para ele, a psicanálise deve se posicionar na sociedade frente às questões que o autismo apresenta, haja vista os estudos que atacam a psicanálise e que contam com forte financiamento da indústria farmacêutica.
Para Agnès Aflalo (2020), psicanalista em Paris e membro da Escola da Causa Freudiana, a psicanálise vem sofrendo ataques desde 1980, com a publicação do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders III (DSM-III4). A partir dessa versão, eliminaram-se as concepções freudianas de sintoma que vigoraram no DSM-I e DSM-II. Constata-se também uma ampliação da categoria do autismo, que passou a absorver, progressivamente, outros diagnósticos. Dessa forma, a autora diz: “(...) o império do autismo se expande dentro e fora da categoria (...)” (Aflalo, 2020, p. 60, tradução nossa5), ou seja, o autismo ramifica-se para além do DSM, ganhando outros terrenos em toda a sociedade. A autora observa ainda que, diante desse contexto, os novos critérios diagnósticos são reinventados, incluindo um novo nome para o autismo, o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).
A proposição do espectro (TEA), de acordo com Aflalo (2020), é fruto de negociações frenéticas que geram um mercado de bilhões de dólares para a indústria farmacêutica, a Big Pharma. O TEA tornou-se uma mistura tão heterogênea que o próprio autismo, classificado por Kanner, em 1943 (Aflalo, 2020), corresponde a apenas um terço do total do transtorno autista, equivalendo a 35%. Os demais não são autistas: 55% para transtorno invasivo do desenvolvimento não especificado (TID), 8% para a síndrome de Asperger e 2% para o resto (1% para a síndrome de Rett e 1% para o transtorno desintegrativo infantil).
Há conflitos de interesses dentro mesmo da própria indústria farmacêutica. A inclusão da síndrome de Asperger no TEA foi motivo de muitos protestos contrários, por colocá-la na mesma linha de continuidade do autismo de sintomatologia kanneriana. Aflalo (2020) diz que a síndrome de Asperger é usada pela Big Pharma como um argumento de marketing para gerar aumento de vendas. Para ela, a síndrome cobre o que a psiquiatria clássica chamou de psicose sem déficit intelectual. Isso, por sua vez, está ligado também à rejeição do nome psicose, por ser considerado estigmatizante, enfatizando a banalização do autismo.
De todo modo, entende-se que a indústria farmacêutica vem inventando doenças para promover o uso de psicotrópicos e incitar as seguradoras. Por exemplo, o que antes se considerava vergonha tornou-se inibição patológica e o que já foi timidez é agora um transtorno de ansiedade social. Mais ainda, com a invenção do primeiro neuroléptico prescrito para pacientes psicóticos, viu-se que o efeito impede que os neurônios produzam dopamina. Frente a essa constatação, espalhou-se, então, a ideia de que as psicoses eram causadas pelo efeito oposto, ou seja, por excesso de dopamina. A mesma lógica se aplica aos antidepressivos (Aflalo, 2020). A depressão é outro tema, outro campo de interesse do mercado, mas, como se pode perceber, faz parte dos novos diagnósticos promovidos, que resultam na propalada epidemia do século, reforçada por grandes campanhas publicitárias.
O lobby farmacêutico busca penetrar as políticas públicas, visando as desregulamentações do que, até então, protege os cidadãos do abuso e uso generalizado de medicamentos. Inclusive, segundo Aflalo (2020), tem acontecido nos Estados Unidos diversos escândalos que atormentaram os Key Opinion Leaders (KOLs) envolvidos com a Big Pharma, lançando dúvidas sobre a credibilidade do DSM em virtude da influência prejudicial da propaganda voltada à saúde mental.
Os KOLs, líderes de opinião, nada mais são que médicos, professores e/ou pesquisadores que, por meio de seus ensinamentos nas universidades, e mediante a publicação de artigos científicos em revistas especializadas, vão opinar sobre métodos de tratamento, medicamentos, sendo os responsáveis pela maior parte do conteúdo do DSM.
Utilizando-se da mesma estratégia da indústria farmacêutica, os métodos de tratamento do autismo, tal como o programa ABA, buscam a exclusividade no tratamento do autismo, a fim de reservar para si o valioso fisco do Estado e tratar pacientes desde a mais tenra infância. Para Maleval (2020), o ABA não apenas confronta permanentemente o sujeito autista com suas demandas, mas também com a sua ignorância deliberada do funcionamento cognitivo. Tudo indica que há uma ignorância voluntária do funcionamento cognitivo dos autistas, visando, justamente, uma proposição sobre o recurso de forma indiscriminada.
Mariano Almudévar (2020), psiquiatra infantojuvenil da União Europeia, por sua vez, sustenta que não há evidências científicas de que o ABA seja superior a qualquer outro método não comportamental voltado para problemas de comunicação. Isso quer dizer que, com conhecimento da clínica do autismo e com experiência e/ou adequada supervisão, outros métodos reúnem condições necessárias para atuar com rigor e habilidade.
Percebe-se com esse método uma tentativa de imparcialidade, responsabilizando, desse modo, os pais, caso não haja o resultado esperado. Ele é aplicado em casa, consistindo em 40 horas semanais de condicionamento intensivo, por um período de dois a três anos. Uma vez não havendo êxito, afirma-se que o problema foi devido a uma má aplicação do método. Maleval (2020, p. 154, tradução nossa6) é taxativo em relação aos resultados desse método: “Os resultados produzidos com o apoio da ABA são como o método: desumanizados e puramente estatísticos”.
O DSM posiciona-se como ateórico e imparcial em suas decisões, no entanto, defende as teorias da TCC por serem compatíveis com o interesse econômico em jogo. A aliança entre o DSM e as TCCs é vista por Aflalo (2020) como um ato totalitário, que utiliza a democracia para suas façanhas. Nesse contexto, a psicanálise é preterida na Europa, Brasil e, fatalmente, nos Estados Unidos. Diz a pesquisadora: “Pela segunda vez em menos de dez anos, um projeto de lei buscaria proibir a prática da psicanálise. Desta vez com autistas, porque seria provado ‘cientificamente’ que a psicanálise é ineficaz, até mesmo prejudicial para eles” (Aflalo, 2020, p. 90, tradução nossa7). Por esses motivos, a psicanálise não pode se furtar desse debate, pois o que está em jogo são vidas humanas que sofrem, sobretudo, da palavra, da voz.
Os psicanalistas de orientação lacaniana vão de encontro às TCCs, no que toca à manutenção do enigma do autismo. Conforme Ruiz (2020b) enfatiza, e já mencionado, o conhecimento sobre o autismo continua incompleto para os psicanalistas por estar situado no mesmo lugar onde se encontra a subjetividade em cada ser de linguagem. Além disso, não há uma definição comum de autismo, nem mesmo para as diferentes orientações psicanalíticas atuais. Isso não significa, porém, a impossibilidade de a psicanálise oferecer os seus conhecimentos para o tratamento desses casos.
Arseni Maximov (2020), psicanalista em Barcelona, reforça o ponto de vista trabalhado pelos autores anteriores, ao argumentar que a psicanálise é frequentemente tratada como um método ultrapassado e sem fundamentação científica, reafirmando que, por não fazer estatísticas conforme o método científico, não significa a inexistência de evidências da força de seu método. Atualmente é comum que os detratores da psicanálise culpem os pais pelo autismo dos filhos, uma perspectiva oriunda há mais de meio século, quando alguns autores chegaram, de fato, a pensar que a causa do autismo estava na relação entre mãe e filho. A psicanálise contemporânea, entretanto, tem ideias muito diferentes a respeito.
Em conclusão, o livro Evidencia CientíficayAutismo: Una Burbuja de Certidumbre destaca a complexidade do campo da pesquisa do autismo, evidenciando as questões críticas que cercam a busca por evidências científicas. O livro oferece uma perspectiva valiosa sobre o impacto dessa busca no que é conhecido como o “mercado do autismo”, ressaltando a influência da indústria farmacêutica e a ampliação dos diagnósticos.
O debate sobre a psicanálise como uma abordagem válida para o autismo também é explorado no livro. O texto sublinha a necessidade de manter o enigma em torno do autismo, incentivando a continuidade das discussões e a abertura para diferentes perspectivas. Na contramão do discurso da ciência e sem excluir, a priori, a eventualidade de causas múltiplas, verifica-se que a psicanálise foi capaz, nesse campo, de explicar a dimensão psíquica do autismo e, acima de tudo, romper com as práticas do organicismo. Ainda, compreende-se que os autores do livro são bastante críticos ao modelo enfático e fechado do diagnóstico que condiciona o sujeito a um rótulo. Em última análise, o livro destaca a importância de uma abordagem crítica e equilibrada no campo da pesquisa e tratamento do autismo, reconhecendo a influência de interesses econômicos e a complexidade inerente a esse tópico.













