Introdução
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, em 30 de janeiro de 2020, que o surto da doença causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2 – Severe Acute Respiratory Syndrome, CoronaVirus – COVID-19) constitui uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional – o mais alto nível de alerta da Organização, conforme previsto no Regulamento Sanitário Internacional. Em 11 de março de 2020, a COVID-19 foi caracterizada pela OMS como uma pandemia. Até o dia de 26 de maio de 2021, o mundo já havia atingido a marca de mais de três milhões de mortos. Somente no Brasil, este número supera os 450 mil mortos, de acordo com o CoronaVirus Research Center da Johns Hopkins Universite of Medicine1 .
Dada a sua amplitude e velocidade de propagação esta pandemia modificou substancialmente, em nível global, as relações sociais, especialmente às vivências cotidianas dos trabalhadores. Entendemos o trabalho e o trabalhar como fonte de subsistência e satisfação de necessidades identitárias e sociais e constituinte de nossa subjetividade e fundamental para o equilíbrio psíquico dos indivíduos. Assim, no contexto atravessado, tem-se diferentes e específicas situações: muitos passaram a realizar as suas atividades laborais em seus lares, afastados do ambiente organizacional cotidiano (home office); milhões ficaram desempregados, dado fechamento de empresas e impossibilidade de prestação de serviços; outros ainda, dada a natureza “essencial” de suas atividades, continuaram trabalhando e convivem com o medo do contágio, do adoecimento e da morte (para si ou seus familiares) (Witczak & Kipper, 2020). Dentre estes últimos, destacamos os profissionais de saúde em ambiente hospitalar. E, de forma específica, os desafios enfrentados nos Programas de Residência Multiprofissional em Saúde (RMS).
A RMS caracteriza-se pelo ensino e formação em serviço e objetiva promover a especialização de graduados em diferentes áreas da saúde, capacitando o residente ao exercício profissional com excelência nas áreas de cuidado integral à saúde, da gestão e organização do trabalho e da educação em saúde (Silva, Contim, Ohl, Chavaglia, & Amaral, 2015). Por essas características, há que se pensar a RMS como um espaço propício para a construção da identidade profissional. As trajetórias de formação possibilitam o alicerce para a construção de um contínuo aprendizado, e é nesse movimento de buscas, descobertas e transformações que vai se definindo tal identidade, à medida que vai percorrendo caminhos e construindo sua carreira ao longo da vida (Mazer & Melo-Silva, 2010).
Este artigo apresenta o cotidiano de trabalho de Residentes Multiprofissionais em Saúde, de um hospital de ensino do interior de Rio Grande do Sul, durante a pandemia do novo coronavírus no ano de 2020. Os autores atuam e contribuem neste Programa de Residência, encontrando-se aí a motivação para tal escrito e dos objetivos deste estudo, que visam identificar os impactos da pandemia do novo coronavírus na saúde mental dos Residentes Multiprofissionais.
Método
Optou-se por uma metodologia exploratória, visto que esta oportuniza uma familiaridade com o problema, permitindo aprimorar ideias e intuições e considerando a relatividade de um caso em estudo (Gil, 2002). O campo de pesquisa trata-se um hospital de ensino do interior do Rio Grande do Sul, instituição que oferece atendimento a pacientes particulares, de convênios médicos e do Sistema Único de Saúde e neste momento conta com uma unidade estruturada para tratamento de pacientes com COVID-19. Os atores principais deste estudo são Residentes do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde – com ênfase em Intensivismo, Urgência e Emergência. A RMS possui dois anos de formação – identificados como Residentes do 1º ano (R1) e Residentes do 2º ano (R2) – e compõem o Programa as seguintes áreas: Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Nutrição, Odontologia, Psicologia e Serviço Social. Para o seu desenvolvimento, utilizou-se um questionário semiestruturado com respostas em escala Likert e questões abertas disponibilizados na plataforma digital Googleforms nos meses de maio e junho de 2020. Este contou com 7 questões em escala Likert que buscavam identificar os impactos da pandemia na saúde mental, social e rotinas de autocuidado.
Para a participação, contatou-se todos os 40 Residentes multiprofissionais do Hospital de ensino, através do e-mail institucional, convidando-os para participar voluntariamente da pesquisa. Destes, 20 Residentes Multiprofissionais aceitaram o convite e responderam o questionário semiestruturado de forma voluntária e anônima. Os participantes são identificados pela letra R seguida de um número atribuído à ordem de acesso à plataforma descrita, por exemplo: R1 será a sigla usada para designar o primeiro residente a responder ao questionário e assim por diante, até o vigésimo respondente (R20). O perfil dos respondentes é demonstrado nas Figuras 1 e 2.

Fonte: dos autores.
Figura 1 Perfil dos Residentes Multiprofissionais em Saúde: gênero e faixa etária

Fonte: dos autores.
Figura 2 Perfil dos Residentes Multiprofissionais em Saúde por área do conhecimento e ano de formação
Para a análise das questões abertas, utilizou-se a técnica de Análise de Conteúdo (Bardin, 1977), que propõe que o material, após transcrito, seja submetido à uma primeira leitura exploratória, seguido das fases de organização, sistematização e categorização. Produziram-se duas categorias temáticas, vivências de confrontamento e estratégias de enfrentamento. Estas serão apresentadas a seguir no item resultados e discussão.
Ressalta-se que o processo de pesquisa foi submetido e aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa respectivo (nº CAAE 7481019.8.0000.5343 nº do parecer do CEP 3.894.949.) e que todos os respondentes concordaram com a utilização das informações prestadas através de assinatura digital do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Resultados e discussão
Para a apresentação dos resultados encontrados e com o intuito de fundamentar esta discussão, consideramos dois conceitos centrais como condutores desta discussão: trabalho e saúde (especialmente, saúde mental). E, de forma transversal, todas as implicações que o momento pandêmico trouxe. Isto pois, segundo Witczak e Kipper (2021), em um mundo globalizado, com novas dimensões de tempo e espaço produzidas, o vírus SARSCoV chega até nós brasileiros muito antes do primeiro caso de doença ser oficialmente registrado. Isto porque já convivíamos “com ele nos noticiários, nas redes sociais, na desinformação das fake news. Produzia-se, no senso comum, um imaginário que remetia a situações apocalípticas, como o das produções cinematográficas” (p. 19).
Se a globalização e a evolução de novas tecnologias já vinham impondo adaptações a outros modos de trabalhar, em novos formatos de relações profissionais e em velocidade vertiginosa, a pandemia COVID-19 parece ter acelerado este processo ainda mais. Para Kipper et al. (2021, p. 61), este momento histórico “nos fez ressignificar grandes certezas e o lockdown das portas nos fez abrir para os outros através da necessidade da empatia e cooperação”. Faz-se necessário então repensar-se como o binômio conceitual trabalho/saúde, e os processos subjetivos e organizacionais daí subjacentes, estão sendo compostos.
O trabalho é uma prática humanizadora – ordenando atividades e ações e criando diferentes e novas formas de agir (Spink, 1996) e transformadora – pois garante ao mesmo tempo, a sobrevivência e a realização humana (Zanelli, 2014). Tal ideia é corroborada por Codo, Soratto e Vasques-Menezes (2014) ao afirmarem que esta é a “capacidade de construir-se a si próprio e a espécie, produzindo e reproduzindo a si próprio e a espécie’ (p. 279), e o fazer do trabalho é fundamental neste processo.
Adotamos aqui o conceito ampliado de saúde, “apreendido enquanto um fenômeno integral, integrador e potencializador de um viver com mais saúde” (Dalmolin et al, 2011, p. 390). Ou seja, a saúde decorre de um processo dinâmico, dialético e multifacetado que se denominou biopsicossocial. Pois, é no entrelaçamento das dimensões biológicas, psicológicas e sociais que se constituem os processos de manter-se saudável ou de se adoecer. Ignorar tais implicações é desvincular os sujeitos de seus processos sociais de vida, é um olhar para a doença, para o patológico e para o individual (Puttini, Pereira Junior, & Oliveira, 2010; Limongi-França, 2012) e das implicações éticas e relacionais próprias da condição humana (Limongi-França, 2008). Já, a saúde mental, em definição da OMS (2008), produz-se na sensação de bem-estar, no desenvolvimento de habilidades, no enfrentamento de estressores e em uma vida produtiva e comunitária.
Paparelli, Sato e Oliveira (2011) ao discutirem sobre as inúmeras produções científicas no Brasil e no mundo que correlacionam os conceitos de saúde mental e trabalho, se indagam: “porque ainda precisamos falar sobre o tema?” (p. 119). E respondem, porque normalmente se remete aos indivíduos a responsabilização pelo seu próprio adoecer, culpabilizando-o. E, porque ainda há uma crença generalizada na “adoção da naturalização da ideia de que o trabalho produz sofrimento e não pode ser mudado, como se isso fosse um destino, uma determinação inquestionável e intransponível, cujo curso seria impossível de ser modificado” (p. 119). Os autores remetem ao desgaste mental (conceito de Edith Seligmann-Silva, 1994; 2011) como figura daquilo que atrita é atritado, daquilo que se desgasta ao mesmo tempo que é desgastado.
Diferentes autores (Burhamah et al., 2020; Cherepanov et al., 2020; Ivbijaro, Brooks, Kolkiewicz, Sunkel, & Long, 2020; Gnanavel et al., 2020; Kishor et al., 2020; Mohindra, R., Suri, Bhalla, & Singh, 2020; Moorthy & Sankar, 2020) têm apontado para os fatores que atribuem as relações entre prazer e sofrimento e que podem gerar o adoecimento dos trabalhadores em saúde durante esta pandemia do COVID-19. A partir dos dados coletados e sistematizados dos depoimentos dos Residentes Multiprofissionais em Saúde, construíram-se duas categorias temáticas, vivências de confrontamento e estratégias de enfrentamento. Sua apresentação e discussão serão apresentadas a seguir.
Vivências de confrontamento
Esta categoria apresenta e discute aspectos relacionados ao impacto psíquico resultante do confrontamento dos Residentes Multiprofissionais em Saúde com os processos de trabalho no período da pandemia COVID-19. Ressalta-se que a maioria dos participantes (16) afirmaram manterem-se nas atividades rotineiras à sua formação, ou seja, àquelas prescritas pelo Programa de Residência Multiprofissional. No entanto, quatro deles tiveram suas rotinas modificadas por estarem atuando diretamente no contexto da pandemia, em um local nomeado como “Unidade COVID-19”. A Figura 3 permite a visualização desta correlação:

Fonte: dos autores.
Figura 3 Mudança de rotinas dos Residentes Multiprofissionais em Saúde entrevistados
Segundo Cruz et al. (2020) internacionalmente, os estudos recentes acerca dos impactos na saúde mental dos profissionais de saúde, que lidam diretamente com populações infectadas pelo COVID-19, discutem a relação entre o temor pela exposição ao contágio, a situação de isolamento e confinamento e as medidas de quarentena implementadas. Entre os profissionais expostos diretamente aos riscos de contaminação, especialmente aqueles que atuam em hospitais e postos de saúde, há registros de exaustão, redução da empatia, ansiedade, irritabilidade, insônia e decaimento de funções cognitivas e do desempenho. A Figura 4 demonstra as principais percepções apontadas pelos RMS nas mudanças do seu cotidiano de trabalho:

Fonte: dos autores.
Figura 4 Sintomas associados às mudanças de rotinas dos Residentes Multiprofissionais em Saúde
Os depoimentos a seguir corroboram as informações da Figura 4:
Como estou muito ansiosa, estou tendo dor no peito, labirintite e bruxismo. Isso está atrapalhando meu desempenho profissional. (R5)
Logo no início da pandemia, eu estava mais ansiosa, com medo, angustiada e insegura, mas atualmente, tenho conseguido me adaptar e lidar melhor com esse momento. Com a pandemia, em alguns momentos, estou muito ansiosa, apresentando sintomas como dor de cabeça e no estômago e taquicardia. (R12)
Os dados coletados demonstram que a atividade assistencial expõe os Residentes Multiprofissionais ao temor do contágio, gerando reações emocionais diversas diante de tal preocupação. Em análise às respostas ao questionário semiestruturado, identifica-se que, apesar da maior parte dos profissionais não terem atuado diretamente com risco de contaminação, evidenciam manifestações em níveis elevados de estresse e do autocuidado. Veja-se:
Muito ansiosa, tensa, preocupada, muita incerteza, sensação de eu ser um "meio de transmissibilidade" do coronavírus devido trabalhar no Hospital. (R14)
Exausta mentalmente, sem vontade de mudar o cenário por falta de interesse. (R4);
Vasconcellos-Silva e Castiel (2020, p. 2) apontam que há, em nível de informações uma “vacuidade de certezas, proliferam versões distorcidas de conceitos e fatos científicos” e apontam o papel da mídia, das redes sociais e das fake news na disseminação massiva disto, e consequentemente, da produção de um imaginário social. Reações semelhantes são apontadas por Residentes Multiprofissionais que não se encontram na unidade de risco (setor COVID):
Tenho sentido cansaço e desgaste físico e emocional bem grande, inclusive, porque apesar de não atuarmos diretamente no setor COVID não estamos livres de contrair o vírus e transmitir aos outros. Como tenho filhos pequenos me preocupo muito com esta questão e do risco que posso estar colocando eles. (R16)
Para Lancman e Ghirardi (2002) o ato de trabalhar permite o confronto entre o mundo externo e mundo interno do trabalhador. A externalidade, ou o mundo pandêmico, confronta-se com tudo aquilo que o constitui (lógicas e ditames sociais). Tal confrontamento, entre os novos procedimentos de segurança epidemiológica (condições) e as “novas” relações de trabalho (organização), podem gerar às equipes e aos Residentes Multiprofissionais, mais especificamente, sofrimento psíquico:
Apesar de alguns plantões não serem tão cansativos, eu saio sempre cansada da mesma forma. O uso de máscara em um plantão de 12h também incomoda bastante. (R15)
Em minha área as atividades foram bastante afetadas, tendo que acontecer readequações que acredito que comprometam em parte a qualidade do aprendizado da residência. (R3)
Por outro lado, o bem-estar e o prazer correspondem a uma diminuição da carga psíquica do trabalho, questão que se torna um instrumento de equilíbrio para o trabalhador (Flores & Moura, 2018). Contudo, observa-se instabilidade emocional nos Residentes Multiprofissionais, tornando o trabalho ameaçador à saúde mental, por se opor a liberdade e a criatividade (Silva, Santos, & Oliveira, 2020). Vejamos a fala:
[...] com a passagem do tempo e me informando sobre os devidos cuidados, sinto que consigo realizar meu trabalho sem ter a preocupação específica com o COVID-19. (R8)
Apreensiva, ao mesmo tempo estou feliz e realizada de me desenvolver profissionalmente sinto medo em ser fonte de transmissão do vírus para as pessoas que amo. (R18)
Ampliando-se este quadro, Merhy e Franco (2008, p. 430) ressaltam que “todo trabalho é mediado por tecnologias e depende da forma como elas se comportam no processo de trabalho; pode-se ter processos mais criativos, centrados nas relações, ou processos mais presos à lógica dos instrumentos”. E, para Amazarray, Câmara e Carlotto (2014) tal complexidade não envolve apenas a execução técnica (regras e procedimentos), mas também uma diversidade de habilidades e competências demandadas das situações vividas. Possibilitando o reconhecer-se a si mesmo perante as escolhas profissionais, potencializando-se no reconhecimento social do seu fazer e gratificando-o com um sentimento de pertencimento. Ainda que o momento seja como de temor frente a possibilidade de contágio e transmissão do vírus SARS-COV-2, estes afirmam que são reconhecidos e valorizados:
A Fisioterapia tem sido peça chave no tratamento dos pacientes com COVID-19, o que nos gera o sentimento de extrema gratidão e também valorização profissional. (R7)
Em complementaridade, o ato de trabalhar envolve uma discrepância entre o que foi prescrito e a situação real/concreta de atuação, de tal modo que os trabalhadores se mobilizam física, cognitiva e emocionalmente para preencher essa lacuna. Em um estudo com enfermeiros de um hospital geral, Falavigna e Carlotto (2013) apontam correlações diretas entre as demandas (ou cargas) do trabalho, o sofrimento e o adoecimento mentais e o absenteísmo. Associando-se a sobrecarga “a necessidade constante de estudo para aperfeiçoamento, treinamento de equipe e reuniões administrativas que excedem à carga horária” (p. 368), situação muito semelhante a vivida pelos Residentes Multiprofissionais.
Acredito que o residente em si poderia ter mais voz, visto que nossas ideias e sugestões na maioria das vezes não são aceitas (...) acredito que todo preceptor e tutor deveria um dia ter a experiência de ter sido residente. (R19)
Na perspectiva do trabalho vivo em ato (Merhy, 2008) tem-se o alerta de que o caminho a ser percorrido entre o trabalho prescrito e o real, deve ser a cada momento, inventado e reinventado pelo sujeito. Assim, os profissionais de saúde precisam compreender seu desempenho profissional como resultantes das suas atividades desempenhadas.
Estou atuando na Unidade COVID que está muito bem estruturada e organizada, o que tem facilitado bastante o meu trabalho. (R6)
Diante do exposto, evidencia-se que o trabalho é tudo aquilo que implica o ato de trabalhar: gestos, saber-fazer, engajamento do corpo, mobilização da inteligência e da criatividade, capacidade de refletir, de interpretar, de sentir e de reagir às situações. É necessário compreendê-lo como dimensão de constituição da identidade e meio de inserção social, o que significa considerar a atividade ocupacional para além da questão de sobrevivência econômica (Amazarray, Câmara, & Carlotto, 2014). Para Coutinho, Krawulski e Soares (2007, p. 37) a identidade na contemporaneidade, requer “dos sujeitos que se identifiquem, a cada momento, com algo novo, e reconheçam em suas trajetórias uma dimensão temporal, integrando passado, presente e futuro, no mundo laboral. [...] as mudanças [...] trazem exigências de novas competências, habilidades e talentos [...] levam o sujeito a ter que enfrentar cotidianamente o novo e reescrever sua trajetória de vida”. Assim:
Acredito que se trata de um momento diferente e inesperado por todos. Isso inevitavelmente acaba causando alterações importantes nas expectativas geradas acerca da residência. [...]. (R17)
Os sentimentos muitas vezes adversos e os processos de trabalho novos e desgastantes trouxeram aos Residentes Multiprofissionais vivências de confrontamento como as demonstradas, dado o ambiente pandêmico. Porém, há nuances diferentes para os R1 e os R2: enquanto os primeiros ainda se aclimatavam ao ambiente hospitalar e a própria estrutura da RMS, os segundos tiveram rotinas e processos de ensino e trabalho radicalmente modificados. Na seção seguinte apresentaremos e discutiremos as estratégias de enfrentamento.
Estratégias de enfrentamento
Esta categoria discute e apresenta as correlações entre a transformação do sofrimento patogênico em sofrimento criativo na concepção dejouriana e as estratégias de enfrentamento dos Residentes da Residência Multiprofissional em Saúde como suportes emocionais diante deste contexto. Oliveira e Mendes (2014, p. 392), ao realizarem uma síntese do pensamento de Dejours, Abdoucheli e Jayet (1994), ressaltam que não se pode negar o sofrimento do sujeito nas organizações de trabalho, mas que a sua elaboração a partir de “estratégias criativas que, em geral, favorecem à saúde do sujeito e à produção”. Enquanto àquele sofrimento designado como patogênico “ocorre quando o trabalhador esgota seus recursos defensivos, levando-o à descompensação e à doença”.
Para Dejours (1996, p. 170), estas possibilidades criativas decorrem da “construção de um espaço de palavra, de inteligibilidade, transparência, visibilidade, exteriorização, confiança, solidariedade, reconhecimento, o que faz aparecer nas relações de trabalho uma dimensão diversa da técnica”. Estes elementos positivos de enfrentamento puderam ser vistos:[...]
Procuro manter boas relações e quando estou me sentindo triste ou preocupada tenho colegas com as quais consigo desabafar, ser ouvida. (R16).
Muitos destes problemas estão associados ao sentimento de medo em relação ao momento pandêmico, que Silva et al. (2020, p. 5) compreendem como “uma reação natural e sadia diante de uma ameaça real e eminente, que demanda muitas vezes um agir racional para seu enfrentamento, pautado em informações realistas e concretas, com a finalidade de subsidiar, nesse caso, as medidas de proteção disponíveis”.
Logo no início da pandemia, eu estava mais ansiosa, com medo, angustiada e insegura, mas atualmente, tenho conseguido me adaptar e lidar melhor com esse momento. (R12).
Cruz et al. (2020, p. 10), em manifesto publicado na Revista de Psicologia Organizacional e do Trabalho, literalmente afirmam que “vivemos uma situação de crise e emergência, com reflexos sociais, econômicos e na saúde física e mental das populações. [...]. Entretanto, constata-se neste momento de enfrentamento à contaminação, a proliferação de problemas na saúde mental das pessoas”. A pandemia além de proporcionar instabilidade emocional vem sendo marcada por mudanças significativas na rotina e organização de trabalho dos Residentes Multiprofissionais, logo, observa-se esse impacto como ameaça à saúde mental dos profissionais. O aumento de responsabilidade, controle do trabalho e do tempo, jornada de trabalho alterada, incertezas do momento, medo da contaminação, são fatores desencadeantes de cansaço e insatisfação (Silva et al., 2020; Cruz et al., 2020).
Ao mesmo tempo, as práticas e medidas de segurança no ambiente hospitalar destacam novos comportamentos e necessidades ao trabalhador em saúde, tais como: sentir dificuldades que não existiam antes, como realizar sozinho tarefas que antes eram compartilhadas; o uso de equipamentos (EPIs) e recursos novos e ou diferentes dos habituais; prolongamento da jornada ou aceleramento dos ritmos e outras formas de execução do trabalho antes não usuais; e, finalmente, novos procedimentos em atendimento direto aos pacientes, às famílias destes e a comunidade em geral (Almeida, 2020).
Realmente criar um fluxo de atendimentos e respeitá-lo. Não alterar este de um dia para a noite sem notificação ou informação aos demais profissionais. (R4)
Entender a influência da organização do trabalho na qualidade de vida, na saúde mental, no desgaste e no adoecimento dos trabalhadores é fundamental para a compreensão e para a intervenção em situações que podem levar a diversas formas de sofrimento. A exposição constante ao agente infeccioso cria apreensão de ser contaminado e espalhar o vírus para os entes queridos. Ansiedade crônica, culpa, desamparo, isolamento e insônia podem prejudicar o funcionamento. Ter refeições regulares, sono e intervalos adequados interjornadas, são vitais. Apoio construtivo de pares, terapia de apoio e intervenções precoces de saúde mental contribuem bastante para reduzir o absenteísmo e melhorar sua qualidade de atendimento, tanto para si quanto para os pacientes (Lancman & Ghirardi, 2002; Banerjee, 2020). Em complementaridade, Cherepanov (2020) ao analisarem condições de trabalho e saúde mental de trabalhadores em saúde no Reino Unido enfatizam que os serviços precisam ser revistos nos seguintes itens: fomentar o apoio entre pares, ajustar padrões de cultura organizacional, melhorar processos de capacitação e supervisão e fortalecer lideranças para o enfrentamento das situações de crise.
Considero que seria importante momentos de pausa ao longo do dia de trabalho em que fosse possível realizar ginástica laboral, práticas de relaxamento, respiração ou quaisquer outras atividades com foco no cuidado da saúde mental. (R12)
O trabalhador da saúde é sempre coletivo. O “trabalho em saúde” é sempre realizado por um trabalhador coletivo. Não há trabalhador da saúde que dê conta sozinho do mundo das necessidades de saúde (Merhy & Franco, 2009). É nas relações que ocorrem a partir do trabalho que se permite o desenvolvimento da identidade e a transformação do sofrimento em prazer, a partir do olhar do outro e da valorização decorrente desse olhar (Lancman & Ghirardi, 2002). Os entrevistados ressaltam esta necessidade:
Sinto, de modo geral, falta de apoio. Pouco acesso a diálogo, o que nos deixa inseguros. Buscamos apoio uns nos outros e em nossas preceptorias/tutorias [...]. (R8)
Reunião de feedback entre residentes, COREMU e preceptores, para cada um falar como está sendo a experiência, o que está agradando, o que poderia melhorar, uma maneira de desabafarmos e ao mesmo tempo, de deixarmos a coordenação ciente de tudo que está acontecendo e possibilitar a melhora do programa de residência. (R10)
Em atenção à saúde mental, Silva, Santos e Oliveira (2020) enfatizam que é preciso uma atenção especial às demandas psicológicas emergentes no cenário atual. Tal necessidade também é sinalizada pelos Residentes Multiprofissionais como alternativa de enfrentamento. Nas falas, salientam que os espaços de escuta e acolhimento, deveriam ser conduzidos por psicólogos:
Conversas em grupos/acompanhamento da equipe/acompanhamento psicológico. (R7)
Grupos de psicoterapia para os profissionais atuantes na linha de frente. (R9)
O Ministério de Saúde (Brasil, 2020) sugere em uma cartilha produzida durante a pandemia, que a saúde mental dos profissionais de saúde seja assistida de forma continuada e entendida como um dos pilares prioritários, uma vez que pode fortalecer a rede de resiliência no enfrentamento dessa pandemia. Especialmente, por entender que gerenciar a saúde mental dos profissionais e o bem-estar psicossocial destes durante esse período, é tão importante quanto gerenciar sua saúde física, principalmente para que eles possam ter melhor capacidade de cumprir seus papéis e desenvolver suas atividades. Em concordância com os autores e acolhendo as necessidades dos Residentes, após a pesquisa, inicia-se o projeto (Re)construindo: escuta de práticas. Trata-se de um projeto institucional, que tem como objetivo, realizar encontros mensais com os Residentes, com a proposta de ofertar suporte organizacional através de escuta, acolhimento e problematização das demandas psíquicas relacionadas à organização do trabalho.
Considerações finais
Diante desta pandemia, alerta-se para a saúde mental dos profissionais de saúde, que passam a correr risco aumentado para desenvolvimento de doenças ocupacionais, já que possuem medo, insegurança e apreensão com o avanço da doença. Estes, ao se conectarem as práticas de trabalho, não temem apenas o próprio contágio, mas também a transmissão para suas famílias.
Assim, diante do que se discute mundialmente, bem como evidenciado pelos Residentes Multiprofissionais nesta pesquisa, o acompanhamento psicológico torna-se essencial para que esses profissionais possam continuar investindo no seu trabalho enfrentando os desafios postos por este novo contexto da jornada de trabalho. Portanto, recomenda-se que as instituições ofertem suporte psicossocial aos trabalhadores para que, numa situação de sobrecarga, sofrimento e estresse, como a vivenciada na experiência da pandemia, eles possam além de relatar seus medos, inseguranças e emoções, contar com apoio no âmbito da saúde mental no ambiente de trabalho.














