Introdução
Questões como sexualidade e gênero sempre despertaram dúvidas e curiosidades. A forma como os indivíduos se relacionam, com quem, o que os atrai e qual seu objeto de desejo ainda são considerados tabus em diversos contextos (Melo & Sobreira, 2018). Assim, para que se possa compreender a questão da identificação de gênero na atualidade, Jesus (2013) assinala que as identidades de gênero são manifestadas como algo que vai além do gênero de nascimento e que podem ser traduzidas através das mais diversas formas de autopercepção, na forma como a pessoa se expressa ou se identifica.
Por isso, entende-se por identidade de gênero a forma de se identificar e ser identificado como homem ou mulher. Já a orientação sexual alude à atração afetivo-sexual por alguém de algum gênero. Ambas as dimensões são independentes, não havendo uma norma de orientação sexual de acordo com gênero e vice-versa. Considerando a identidade de gênero, considera-se pessoa cisgênero (ou “cis”), aquela que se identifica com o gênero atribuído ao nascimento. E, por sua vez, uma pessoa transgênero (ou “trans”) é aquela que não se identifica com o gênero designado ao nascer (Butler, 2004; Jesus, 2012 /2013).
Ainda, com relação à identidade de gênero, podemos distinguir gêneros binários de não-binários. De acordo com Ruiz (2021), o binarismo refere-se a uma classificação do gênero e sexo em duas formas distintas e opostas, tal como masculino ou feminino, enquanto o gênero não-binário é um conceito “guarda-chuva”, que alude às pessoas que não se percebem como pertencentes a um gênero exclusivo, ou seja, que sua identidade de gênero e expressão do mesmo não são limitadas ao masculino e /ou feminino.
A transgeneridade é uma experiência identitária (Bomtempo & Mendes, 2020), geralmente marcada por sofrimento e lutas internas. Essa contradição entre o corpo físico e o gênero com o qual o indivíduo se identifica costuma gerar um quadro de desconforto, impulsionando o indivíduo, muitas vezes, a buscar um processo de transição física e social (Sá, 2017). Nesse sentido, o indivíduo busca autoaceitação e a aceitação do outro para sua forma de se perceber, bem como a aceitação e respeito de familiares e amigos e o fortalecimento de si mesmo para se colocar dessa forma perante a sociedade, sabendo de todos os preconceitos e violências sofridos na comunidade LGBTQ.
Além disso, há um viés de caráter biomédico que patologiza a condição das pessoas transgênero, através de diagnósticos para aquelas que não se identificam com seu gênero atribuído ao nascimento. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), a disforia de gênero seria um diagnóstico relacionado ao "problema clínico" relacionado à transgeneridade. Percebe-se uma mudança de percepção em relação à transgeneridade, desde o DSM-IV, que caracterizava o Transtorno de Identidade de Gênero como psicopatologia em todos os indivíduos transsexuais. Já na Classificação Internacional de Doenças (CID), que entrará em vigor em 2022, na sua 11ª edição, há alteração na classificação de "Transtornos de Identidade Sexual", que se encontrava dentro do capítulo de Transtornos Mentais, e utilizava o termo "transexualismo" – patologizando essa condição -, para "Incongruência de gênero", dentro do capítulo de "Condições Relacionadas à Saúde Sexual".
Estudos indicam a ocorrência de depressão, ansiedade, suicídio, abuso de substâncias psicoativas e comportamentos auto lesivos (Barrientos et al., 2019; Guzmán-González et al., 2020, Newcomb et al., 2020). Tais dados apontam para sofrimento e desconforto, evidenciados pelas condições de saúde e inclusão nos manuais e classificações de doenças e transtornos. Nesse sentido, a literatura aponta que tais agravos à saúde mental em pessoas trans estão relacionados com a conflitiva interna e os fatores identificados como de risco psicossocial a essa população (Barrientos et al., 2019; Carvalho et al., 2019; Corrêa, Rodrigues, Mendonça, & Cruz, 2020; Guzmán-González et al., 2020; Lobato et al., 2019; Newcomb et al., 2020), sendo importante que esses fatores sejam mapeados para que se possa considerar no planejamento de intervenções psicológicas com essa população.
Informações estatísticas de diversos âmbitos, nacionais e internacionais, mostram um cenário alarmante. Atualmente, o Brasil é o país com mais homicídios de transgêneros no mundo, em números totais (ANTRA, 2020; TGEU, 2021), liderando o ranking pelo décimo terceiro ano consecutivo. A estimativa mostra que, a cada 48 horas, uma pessoa trans é assassinada, sendo que a expectativa de vida é de 35 anos, ou seja, menos da metade de uma pessoa cisgênero heterossexual (GGB, 2017). Dados mais atuais da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e da ONG Transgender Europe (TGEU) mostram que entre outubro de 2020 a setembro de 2021, 125 pessoas transgênero brasileiras foram assassinadas, sendo que essa taxa é 33% maior do que nos anos anteriores (ANTRA, 2020; TGEU, 2021).
A violência também apresenta-se de forma intensa no cotidiano das pessoas trans. Em um estudo dos Estados Unidos com 402 participantes, sendo deles 269 transgêneros, Lombardi et al. (2002) relataram que 56% sofreram assédio verbal, 37% foram vítimas de discriminação no trabalho e 27% sofreram ataques ou tentativa de ataque físico.
Com isso, entende-se que esse contexto de violência e discriminação pode repercutir na saúde mental das pessoas trans. No Brasil, no primeiro semestre de 2019, houve registro de 12 suicídios de pessoas transgênero, sendo que, em 2020, esse número subiu para 23, reportando um aumento de 34% em relação ao ano anterior (ANTRA, 2021). Além disso, questões relacionadas ao gênero também trazem prejuízos à saúde mental dessa população, sendo que o fenômeno e as experiências da transexualidade podem ocasionar disfunções relacionadas à vida psíquica (ANTRA, 2020, APA, 2015;).
De acordo com estudos (Connolly et al., 2016; Ryan et al., 2010; Veale, Watson, Peter & Saewyc, 2017), jovens transgênero possuem as maiores taxas de depressão, suicídio, autolesão e transtornos alimentares, em comparação com as pessoas da mesma faixa etária cisgênero, e possuem menores índices de suporte social, em comparação à população cisgênero LGBTQ. Uma pesquisa com 180 jovens de 12 a 29 anos relatou que os pacientes transgênero de um centro de saúde comunitário dos Estados Unidos tiveram três vezes mais risco de diagnóstico de transtornos de depressão ou ansiedade, assim como tentativa ou ideação suicida. Além disso, tiveram risco quatro vezes maior de viver experiências auto lesivas em comparação à população cisgênero (Reisner et al., 2015).
Para melhor entender o contexto da população transgênero, pode-se utilizar a "teoria de estresse de minorias" (Meyer, 2003; Trujillo et al., 2017), criada por Meyer no início dos anos 2000 nos Estados Unidos, objetivando compilar as condições específicas que são experienciadas por pessoas LGB, e compreender como essas condições impactam em desfechos positivos e negativos na saúde mental nesse grupo (Meyer, 2003). Essa teoria entende que o estresse experienciado é único, crônico e baseado na relação com a sociedade, pois deriva de construções sociais relativamente estáveis e engessadas que resultam em estigma, preconceito e discriminação, aumentando o estresse psicológico (Paveltchuk & Borsa, 2020). Como forma de lidar com esses agravos à saúde mental, o suporte social e estratégias de enfrentamento podem ser ferramentas importantes para minimizar impactos.
Além disso, um importante recurso para o processo de identidade de gênero seria a afirmação de gênero, que pode ser realizada socialmente – com a mudança de nome, pronomes, mudanças de expressão de gênero e formas de se mostrar para a sociedade, como roupas, acessórios e cosméticos -, e/ou de forma médica, através de terapias hormonais, intervenções estéticas ou cirúrgicas, como redução de mamas ou cirurgia de redesignação sexual (Hughto, Gunn, Rood & Pantalone, 2020). Dessa forma, o sujeito inicia um processo de afirmação de identidade, que pode atuar como um mecanismo "catártico", mostrando-se como uma pessoa autêntica, em que a visibilidade pode possibilitar apoio, aceitação e validação por si mesmo e pelos outros (Levitt & Ippolito, 2014; White Hughto et al., 2015).
Com isso, a Psicologia pode exercer um papel importante na vida de indivíduos transgêneros, proporcionando conforto através da escuta psicológica. Gaspodini e Rissi (2016) salientam que a Psicologia estrutura-se em fundamentos éticos de respeito à diversidade humana, por se tratar de uma ciência que fortalece a autonomia das subjetividades. Porém, no âmbito científico, nota-se ainda uma carência de estudos da Psicologia em relação à saúde mental de pessoas transgênero, sendo que esses podem ser considerados fundamentais para a compreensão dos impactos dos fenômenos gerados por sua identificação (Silva, Bezerra & Queiroz, 2015).
Tendo em vista tais apontamentos, este artigo objetivou mapear os estudos nacionais e internacionais sobre a saúde mental de pessoas transgênero nos últimos cinco anos. Entende-se que tal temática é de extrema relevância para dar visibilidade social a esse grave problema de saúde pública, que é a patologização das identidades trans, possibilitando que sejam planejadas ações para a minimização do sofrimento psíquico dessa população e, assim, possibilitando que a Psicologia seja uma das áreas protagonistas na escuta e acolhimento desses indivíduos.
Método
Este artigo foi desenvolvido a partir de uma revisão integrativa da literatura, seguindo o protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta Analyses). Essa metodologia desenvolve-se através da definição de critérios que possibilitem a rastreabilidade e fidedignidade dos dados obtidos, permitindo que ocorra uma apresentação criteriosa dos estudos sobre um determinado problema de pesquisa, possibilitando avaliá-los de forma reflexiva (Galvão, Pansini & Harrad, 2015).
Dessa forma, foram selecionadas quatro bases de dados para busca dos materiais, sendo elas Lilacs, Scielo, APA Psycinfo e Web of Science. Os descritores utilizados nas pesquisas foram “transexual OR transgender” AND “mental health”, e o período de busca dos materiais deu-se nos últimos cinco anos, ou seja, do ano de 2016 a 2020. Durante a seleção dos artigos, nos critérios de inclusão, foram utilizados filtros para seleção dos artigos específicos da área da Psicologia, além de estarem disponibilizados na íntegra e tratarem da temática sobre saúde mental nessa população. Os critérios de exclusão foram os adotados nos materiais que não se configuraram como artigos científicos e estudos realizados somente com crianças e adolescentes como população de investigação. Considerando esses critérios, a revisão foi realizada com base em 16 artigos, conforme pode ser observado no fluxograma de trabalho abaixo.
Inicialmente, foi realizada uma análise descritiva dos materiais encontrados, destacando data, local de realização do estudo e objetivos do mesmo. Posteriormente, foi utilizada a análise temática para compreensão dos resultados.
Resultados
A tabela abaixo apresenta a caracterização dos artigos localizados nas buscas. Destaca-se a predominância dos estudos realizados nos Estados Unidos (n = 7) e publicados no ano de 2019. Os resultados dos artigos localizados foram compilados e divididos em três categorias de análise ligadas à saúde mental da população transgênero: 1) agravos à saúde mental, 2) fatores de risco à saúde mental e 3) fatores de proteção à saúde mental.
Por agravos à saúde mental entendemos todo o caso de sofrimento emocional que se manifesta através de sintomas e de diversas formas nos indivíduos, podendo indicar o desenvolvimento de aspectos mais graves, como o aparecimento de transtornos mentais. Já os fatores de proteção são características individuais (recursos pessoais) e/ou contextuais (recursos ambientais) que consolidam e oferecem suporte ao indivíduo ao enfrentar ou resolver diversos eventos da vida cotidiana (Cardoso, Borsa & Segabinazi, 2018). Exemplos de fatores de proteção são autonomia, autoestima, bem-estar subjetivo, competência emocional, afetos positivos, o apoio social, coesão familiar, entre outros (Poletto & Koller, 2008). Ainda de acordo com Cardoso et al. (2018), fatores de risco são constituídos por eventos e características negativas que atuam como preditores de problemas emocionais, físicos e sociais. Os fatores de risco podem ser: a falta de apoio familiar, baixo nível socioeconômico, experiências de estigma e vitimização, etc. (Pesce et al., 2004; Poletto & Koller, 2008).
| Autores | País | Ano | Objetivo | |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Barrientos et al. | Chile | 2019a | Buscou investigar os efeitos do preconceito sexual na saúde mental de pessoas trans no Chile a partir de uma abordagem qualitativa. |
| 2 | Barrientos et al. | Chile | 2019b | Esclarecer algumas definições conceituais utilizadas na pesquisa psicossocial, sintetizar as evidências obtidas no Chile e observar como ele dialoga com a literatura internacional. |
| 3 | Guzmán-González et al. | Chile | 2020 | Descrever indicadores positivos e negativos de saúde mental em uma amostra de pessoas trans que vivem no Chile. |
| 4 | Thornea et al. | Reino Unido | 2019 | Comparar níveis de sintomatologias de saúde mental (ansiedade, depressão e comportamento de autoflagelação não suicida) e suporte social de tratamento em busca de jovens transgênero não binários com jovens transgênero binários. |
| 5 | Gamarel et al. | Estados Unidos | 2019 | Examinar associações entre estigma interpessoal e sofrimento psicológico em mulheres transgênero e seus parceiros masculinos cisgênero e identificar se o compromisso modera essa associação. |
| 6 | McConnell, Birkett &, Mustanski | Estados Unidos | 2016 | Identificar as formas de apoio social entre os adolescentes e jovens adultos da população LGBT e como pode afetar no risco de ter problemas de saúde mental em relação a seus pares heterossexuais. |
| 7 | Newcomb et al. | Estados Unidos | 2020 | Descrever a saúde de uma amostra diversa entre identidades de gênero e a população de diversidade de gênero. |
| 8 | Lee et al. | Coreia do Sul | 2020 | Examinar as associações entre transfobia internalizada (ITP) e sintomas depressivos, ideações suicidas e tentativas suicidas entre adultos transgênero na Coreia. |
| 9 | Jones, Bouman, Haycraf &, Arcelus | Reino Unido | 2019 | Comparar a saúde mental e a qualidade de vida de uma comunidade de adultos transgênero não binários em relação a grupos controle (transgêneros binários e pessoas cisgêneros) correspondidos no sexo atribuído no nascimento. |
| 10 | Puckett, Matsuno, Dyar Mustanski &, Newcomb | Estados Unidos | 2019 | Examinar o apoio da família, de amigos e a conexão com a comunidade transexual e como essas formas de apoio influenciam na saúde mental e na resiliência. |
| 11 | Rimes, GoodShip, Ussher, Baker &, West | Reino Unido | 2019 | Comparar a saúde mental, comportamentos de automutilação e suicídio, uso de substância e experiências de vitimização entre jovens adultos não binários e transgêneros, ambos homens no nascimento e mulheres no nascimento. |
| 12 | Katz-Wise, Reisner, Hughto &, Budge | Estados Unidos | 2017 | Associar as mudanças na atração sexual dos indivíduos da população transgênero com índices de saúde mental, antes e depois da transição social. |
| 13 | Hughto, Gunn, Rood &, Pantalone | Estados Unidos | 2020 | Analisar as mudanças de índices para ideação suicida, tentativa de suicídio, automutilação, depressão, ansiedade e estresse, antes e depois dos processos de afirmação de gênero da população transgênero. |
| 14 | Trujillo, Perrin, Sutter, Tabaac &, Benotsch | Canadá | 2017 | Explorar os padrões de conexões entre discriminação, saúde mental e ideação suicida nos indivíduos e verificar se o suporte social modera esses resultados. |
| 15 | Veale, Watson, Peter &, Saewyc | Nova Zelândia e Canadá | 2017 | O estudo documenta preocupações em saúde mental da população transgênero canadense jovem e realiza comparações entre a população transgênero e a população cisgênero. O estudo também compara a população entre transgêneros homens, mulheres e não-binários, assim como por faixas etárias, em subgrupos de 14 a 18 anos e 19 a 25 anos. |
| 16 | Price-Feeney, Green &, Dorrison | Estados Unidos | 2019 | Entender melhor como funciona a saúde mental do grupo de jovens transgênero e não binários, assim como comparar com a população LGBTQ no geral. |
a. Agravos à saúde mental:
Todos os artigos localizados apontam agravos à saúde mental da população transgênero. Os principais resultados centram-se em aspectos relacionados aos altos índices de sintomatologia deprimida (Barrientos et al., 2019a; Gamarel et al., 2019; Guzmán-González et al., 2020; Katz-Wise, Reisner, Hughto & Budge, 2017; McConnell, Birkett & Mustanski, 2016; Newcomb et al., 2020; Price-Feeney, Green & Dorrison, 2019; Thornea et al., 2019), de ansiedade (Barrientos et al., 2019a; Gamarel et al., 2019; Guzmán-González et al., 2020; McConnell et al., 2016; Thornea et al., 2019), de estresse (Gamarel et al., 2019; Guzmán-González et al., 2020; Katz-Wise et al., 2017;), de ideação e tentativa suicida (Barrientos et al., 2019a; Guzmán-González et al., 2020; Katz-Wise et al., 2017; Lee et al., 2020; McConnell et al., 2016; Newcomb,et al., 2020; Price-Feeney et al., 2019; Rimes, GoodShip, Ussher, Baker & West, 2019; Veale et al., 2017;), de comportamentos autolesivos (Barrientos et al., 2019a; Katz-Wise et al., 2017; McConnell et al., 2016; Rimes et al., 2019; Veale et al., 2017;), de abuso de substâncias psicoativas (como álcool, drogas e cigarros – Barrientos et al., 2019a; Guzmán-González et al., 2020; McConnell et al., 2016; Newcomb, et al., 2020) e de redução significativa na autoestima (Thornea et al., 2019).
Um dos estudos que sintetiza os achados dessa categoria foi desenvolvido no Chile com 377 transgêneros com mais de 18 anos, por Guzmán-González et al. (2020), e examinou os indicadores positivos e negativos da saúde mental desses sujeitos, constando mais aspectos negativos do que positivos, concluindo que as pessoas trans constituem-se como uma população vulnerável e com uma saúde mental precária. Os resultados desse estudo demonstram que os indicadores de saúde mental podem variar de acordo com a diferença entre gênero atribuído ao nascimento e autoidentificação de gênero, onde a pessoa que se identifica com o sexo oposto apresenta-se com uma maior prevalência de sintomatologia e sofrimento psicológico (Guzmán-Gonzáles et al., 2020).
b. Fatores de risco à saúde mental:
Ao pensarmos nos agravos à saúde mental da população LGBTQ, há identificação de fatores de risco que podem afetar esse desfecho, sendo o principal deles a discriminação social. Em um estudo (Barrientos et al, 2019a) realizado no Chile, com 14 pessoas transgênero, foi identificada a presença de fatores distais e proximais, sendo entendidos como causas para violência, discriminação e estigma direcionados à população transgênero. Os distais são aqueles que antecedem e influenciam no processo desenvolvimental da população LGBTQ, estando associados diretamente à discriminação sexual. E os fatores proximais são aqueles que agem diretamente no desfecho das variáveis, associados à vivência de estigma social e a sua relação com o autoconceito.
Em diversos países, a discriminação sexual é mais frequente para os transgêneros entre a população LGBTQ (Barrientos et al., 2019b), atingindo altos índices entre os homens (92%) e mulheres (79%) transgêneros (Price-Feeney et al., 2019). Segundo Barrientos et al. (2019a), Barrientos et al. (2019b), Lee et al. (2020) e Veale et al. (2017), o estigma social é apresentado como um fator de risco, gerando sintomas depressivos, pensamentos suicidas e tentativas de suicídio. A população transgênero não binária relata sofrer ainda mais com esse problema, por não se encaixar nas expectativas sociais.
Outro fator de risco identificado nos estudos analisados é a falta de apoio social de familiares, amigos ou comunidade (Barrientos et al., 2019b). A rejeição familiar e social constitui-se em risco para a população LGBTQ, que pode acarretar comportamentos autodestrutivos (McConnel et al., 2016) e fazer com que muitas pessoas vivam em situação de rua (Lee et al., 2020). Em um estudo que pesquisou 191 casais de mulheres transgênero e os parceiros cisgêneros, observou-se elevados índices de sintomas de ansiedade e depressão, após associar experiências sofridas de estigma interpessoal para ambos os parceiros (Gamarel et al., 2019). Também se destacam as condições patologizantes dessa população, já que por muitos anos as pessoas trans eram taxadas como possuintes de transtorno mental (Barrientos et al., 2019b), ainda que somente um dos estudos encontrados tenha destacado essa questão.
c. Fatores de proteção à saúde mental:
O processo de afirmação de gênero, seja de forma social ou de forma médica, atua como um fator de proteção para a saúde mental. Estudos (Katz-Wise et al., 2017; Hughto et al., 2020) indicam que os indivíduos que passaram pelo processo de transição social relataram menores índices de automutilação, depressão e estresse. Na mesma direção, Hughto et al. (2020) evidenciam que indivíduos, os quais passaram pelo tratamento hormonal, demonstraram melhores índices de saúde mental entre 6 a 12 meses após o início.
De acordo com Katz-Wise, Reisner, Hughto &, Budge (2017), indivíduos que perceberam sua identidade de gênero como trans em uma idade mais avançada tiveram menor probabilidade de relatarem automutilação, tentativas de suicídio ao longo da vida, estresse e sintomas depressivos. Esse achado é visto como em contraste com a literatura, que diz que aqueles que percebem sua identidade em uma idade mais inicial e recebem tratamentos médicos possuem resultados em saúde mental melhores na adultez jovem. A hipótese dos autores é de que os indivíduos que percebem a identidade transgênero em uma idade mais jovem estão menos aptos a regular suas emoções, o que pode afetar negativamente sua saúde mental.
Ao identificar aspectos que atuam como fatores protetivos, Gamarel et al. (2019) indicam a importância do compromisso e comprometimento na relação conjugal, em que se entende que essa relação fortificada poderia atuar como um "tampão" para situações estressoras. Quando há percepção de apoio, as relações sociais e familiares se comportam como uma importante ferramenta de suporte, atuando como proteção em relação a sintomas de depressão, ansiedade e comportamentos autolesivos (Katz-Wise, Reisner, Hughto, & Budge, 2017; McConnell et al., 2016; Puckett, Matsuno, Dyar Mustanski, & Newcomb, 2019; Trujillo et al., 2017;). De acordo com Trujillo et al., (2017), o suporte social mais evidenciado foi a partir das relações de fora da família, como amigos e a própria comunidade LGBTQ, o que os autores indicam como um indício da dificuldade do suporte familiar. Além disso, Puckett, Matsuno, Dyar Mustanski e Newcomb (2019) indicam a importância das relações de amizade também como uma forma de inserção na comunidade LGBTQ, que também pode atuar como uma ampliação da rede de apoio dos indivíduos e compartilhamento de experiências semelhantes. Katz-Wise, Reisner, Hughto &, Budge (2017) indicam que participar de grupos da comunidade LGBTQ auxilia no senso de participação e pode também incentivar o ativismo coletivo, que propicia a luta para combater os efeitos do estresse e estigmatização sofridos.
Katz-Wise, Reisner, Hughto &, Budge (2017) relataram maior status socioeconômico como associado com menores riscos de sintomas de saúde mental. Os autores hipotetizaram que essa camada social teria maior acesso a recursos de saúde e possibilidades de busca de tratamentos para amenizar possíveis conflitos e angústias.
Discussão
Na presente revisão integrativa, e no momento em que fora realizada, nenhum estudo nacional foi encontrado, o que destaca a importância do questionamento sobre a temática da saúde mental dos transgêneros dentro do contexto brasileiro, ainda mais quando se consideram os índices alarmantes de violência contra essa população em território nacional (ANTRA, 2020; GGB, 2017). Além disso, ao aprofundarmos o conhecimento e compreensão dessa população, cria-se fundamentação e aporte para a criação de novas possibilidades de assistência em saúde, como políticas públicas e cuidados específicos para a população trans no Sistema Único de Saúde (SUS). Evidenciou-se que os estudos encontrados foram majoritariamente dos Estados Unidos, seguidos pelo Reino Unido, Canadá e Chile – que foram encontrados nas bases de dados da América Latina -, o que pode indicar uma maior preocupação com a assistência e os agravos à saúde mental da população transgênero nos países que mais estudam a população, seja por uma demanda do governo, dos próprios pesquisadores ou dos próprios sistemas de saúde.
Além disso, também foi possível identificar uma maior atenção com a saúde mental dos transgêneros nos últimos anos, em que quatro estudos foram do ano de 2020, 8 de 2019, 3 de 2017 e 1 de 2016. Entende-se que essa temática está recebendo maior destaque e preocupação a partir da percepção da importância de estudar e compreender as populações LGBTQ e suas demandas específicas, para que sejam melhor assistidos nos sistemas de saúde e incluídos na sociedade, contrapondo o movimento instituído de normatização dos corpos, em que se buscaria um padrão, indo de encontro com as diversas formas de ser e estar em sociedade e suas diferentes identidades sexuais e de gênero.
No que se refere aos agravos à saúde mental da população transgênero na literatura internacional dos últimos cinco anos (2016-2020) foram identificados nos estudos índices elevados de sintomatologia. Os dados da revisão integrativa vão na direção de outros estudos os quais indicam que a saúde mental da população transgênero é mais deficitária quando comparada às demais categorias LGBTQ, enfrentando mais situações estressoras e hostis que acabam prejudicando o dinamismo da saúde emocional dessas pessoas (Barrientos, 2016; Guzmán-González et al., 2020; Lee et al., 2020; Newcomb et al., 2020; Thornea et al, 2019;). Depressão, ansiedade, comportamento autolesivo, abuso de substâncias psicoativas e baixa significativa de autoestima estão entre os mais frequentes agravantes à saúde mental, sendo o extremo encontrado, a grande prevalência de casos com ideação e tentativas de suicídio. Esses dados indicam a gravidade da situação e servem de alerta para que os profissionais da saúde, incluindo as/os psicólogas/os, estejam atentos à criação de diferentes espaços de acolhimento à população trans.
Os dados encontrados nessa revisão corroboram com a atual literatura, como em uma pesquisa realizada por Fontanari (2019) sobre fatores associados à saúde mental de jovens entre 16 e 25 anos de idade e que se identificam como não-binários, que verificou fatores sociais (como discriminação) como fortemente associados a uso de cigarros e drogas, como maconha e cocaína, onde os participantes relataram sentirem-se desconectados e inseguros na escola, aumentando taxas de evasão e faltas. Além disso, os índices de sintomas de depressão e ansiedade foram mais prevalentes em transgêneros não-binários, quando comparados aos binários. Em uma outra pesquisa, de 2016, com caráter transversal, 73 jovens transgênero exibiram taxas semelhantes de depressão e taxas apenas ligeiramente elevadas de sintomas de ansiedade, quando comparadas com seus pares cisgêneros (Olson, Durwood, DeMeules, & McLaughlin, 2016).
Diversas pesquisas internacionais chamam a atenção aos altos índices de sintomatologia e agravos à saúde mental de pessoas transgênero. Uma delas evidencia que jovens transgênero apresentam maior prevalência de depressão do que a população geral (Connolly et al., 2016). Outra realizada com 479 trans, que se identificavam como não-binários, apresentou que 15,85% apresentaram diagnóstico de transtornos alimentares comparando com 1,85% dos estudantes cisgênero (Diemer, Grant, Munn-Chernoff, Patterson, & Duncan, 2016). Estudos longitudinais também indicam que pessoas transgênero apresentam mais ideações e morrem mais por suicídio que seus pares cisgêneros (Asscheman et al., 2011; Dhejne et al., 2011).
Com isso, ressalta-se que os estudos que investigam os preditores da sintomatologia em saúde mental oferecem importantes insights sobre os fatores que estão subjacentes ao sofrimento e às dificuldades da população transgênero e, por isso, são fatores relevantes de serem almejados em futuras pesquisas e intervenções com tal população (Thornea et. al, 2019). Todas as informações são essenciais para orientar profissionais que atuam nos diferentes níveis de atenção à saúde da população.
Dados encontrados na presente revisão de literatura sobre os fatores de risco (Barrientos et al., 2019a; Barrientos et al., 2019b; Lee et al., 2020; Veale et al., 2017) apontam que o estigma social é apresentado como um dos principais, gerando sintomas depressivos, pensamentos suicidas e tentativas de suicídio. A falta de apoio social, sendo de familiares, amigos ou comunidade, e a rejeição da sociedade também são fatores de risco para a população trans, que pode acarretar comportamentos hetero e autodestrutivos (McConnel et al., 2016) e fazer com que muitas pessoas vivam em situação de rua após a rejeição familiar, conforme aponta Lee et al. (2020).
Outro fator de risco encontrado em um dos estudos, que demonstra ter grande importância para a discussão de saúde mental, especialmente na área da Psicologia, são os aspectos patologizantes dessa população. Por muitos anos as pessoas trans eram taxadas como possuidoras de transtorno de identidade sexual, segundo as classificações do DSM-IV e CID-10 (Barrientos et al., 2019b). Apesar das alterações de nomenclatura relacionadas à transexualidade no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) e na Classificação Internacional de Doenças (CID) em suas novas edições, de 2013 e 2022, respectivamente, percebe-se como a condição da transexualidade ainda é vista como um fenômeno desviante e "fora do normal", a partir de uma perspectiva heteronormativa, em que a cisgeneridade e a heterossexualidade são percebidas como padrão de referência.
Questiona-se a necessidade de criar um nome ou expressão para denominar um sofrimento específico causado pela transexualidade, ao invés de apenas falar sobre ansiedade, depressão, entre outras emoções e condições de saúde, relacionadas ao próprio sujeito e suas vivências, o que ainda segue um caráter de patologização da condição transsexual, ao pensar que grande parte – se não todos os casos – vivem experiências de sofrimento em relação a sua identidade de gênero e a própria aceitação ou respeito da sociedade. Dessa forma, mesmo que o DSM-5 e o CID-11 se refiram ao próprio sofrimento – ou "problema clínico" (DSM, 2013) – como consequência da transexualidade, acaba-se incluindo uma parcela muito grande dos sujeitos nessa situação, que geralmente é relacionada à angústia e ao próprio estigma e preconceito da sociedade. Em contraponto, enfatiza-se a importância de despatologizar a condição de transexualidade, em que se percebe já um movimento pela sociedade, como a retirada do termo "transexualismo" (Fleury & Abdo, 2018) – sendo "ismo" um sufixo utilizado na medicina para doenças e condições intoxicantes, como tabagismo, alcoolismo, de acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa Houaiss. Destaca-se que as pessoas transgêneros precisam ser entendidas como integrantes da sociedade, compondo suas infinitas formas de ser e estar no espectro da sexualidade para que, em um futuro próximo, não existam nomes diagnósticos ou classificatórios que busquem definir a condição ou sofrimento da transexualidade, apenas entenda-se essa condição como igualitária a qualquer outra forma de manifestação da sexualidade ou identidade de gênero.
Além da necessária despatologização, foi possível também identificar, como fatores de proteção na revisão da literatura, a importância de relacionamentos afetivos seguros para as vivências da população trans, indicando os relacionamentos amorosos ou conjugais como um importante suporte para lidar com as vivências de discriminação e assédio. Nesse contexto, de acordo com Gamarel et al. (2019), pode-se identificar o suporte social como um importante fator de proteção à saúde mental, em que a literatura aponta a importância da família e o suporte social de amigos e da própria comunidade LGBTQIAP+, que podem atuar como um empoderamento do sujeito em relação a sua identificação de gênero, fortalecendo-se ao compartilharem experiências e informações (Trujillo et al., 2017).
Em relação ao suporte social familiar, destaca-se a dificuldade em construir essa relação com a própria família de aceitação e respeito, o que pode sugerir possíveis dificuldades a partir de diferenças culturais e de gerações, assim como expectativas e idealizações que os próprios familiares colocam para o sujeito, em que dificilmente a identificação de gênero como transgênero se encaixa. Entende-se que o suporte social familiar pode ser construído a partir das relações afetivas, o fortalecimento do sujeito para se colocar em uma posição de identificação com sua identidade de gênero e a possibilidade de flexibilizar e empatizar dos próprios familiares (Barrientos et al., 2019b; McConnell et al., 2016; Puckett et al., 2019; Thornea et al., 2019).
Além disso, o processo de afirmação de gênero mostrou-se como um importante fator de proteção para a população transgênero na presente revisão de estudos. Entende-se que esse processo acontece como uma etapa secundária, após momentos de aceitação e reconhecimento de sua identidade de gênero, e reflete processos internos e fortalecimento de uma posição, para que se possa realizar movimentos indo ao encontro da identificação com a identidade?? de gênero de forma externa. Hipotetiza-se que os melhores resultados em saúde mental daqueles que passaram pelo processo também se relacionam com uma melhor aceitação de sua identidade de gênero e relação com possibilidades de adaptação e mudanças.
Segundo Puckett et al. (2019), a resiliência é tida como um fator importante para essa melhor aceitação de identidade de gênero e saúde mental da população LGBTQ. Os autores conceitualizam a resiliência como uma diferença em como as pessoas respondem e se adaptam aos fatores estressantes. Nos achados do estudo, demonstra-se a importância de estar conectado com outros indivíduos transgêneros e o quanto as relações interpessoais os ajudam na afirmação e reafirmação do seu gênero numa sociedade opressora.
No tocante à contribuição da psicologia enquanto área do conhecimento humano e de políticas públicas que centralizam ações interventivas importantes no atendimento de pessoas transgênero, o Conselho Federal de Psicologia – CFP-compreende que, orientada pelos princípios éticos da profissão, a Psicologia objetiva a promoção de saúde e qualidade de vida dos indivíduos, fortalecendo e ampliando o debate social, com a acolhida psicológica, conhecendo a história de vida das pessoas, na manutenção dos seus direitos, relação de respeito e desenvolvimento de autonomia para tomada de decisões. Entende-se que tais ações propiciam autoconhecimento e o desenvolvimento da identidade, ajudando, em especial, os indivíduos transgênero a superar crenças e enfrentar os desafios quanto ao preconceito e à discriminação (CFP, 2005 / 2018), visando a uma saúde mental mais integrada.
Considerações finais
Conforme exposto neste artigo, evidencia-se alta prevalência de agravos à saúde mental de pessoas transgênero e importantes fatores de risco associados, especialmente, à vivência de estigma social e preconceito, além da falta de apoio social (familiares, amigos e comunidade). Porém, percebe-se também a presença de fatores de proteção à saúde mental como é o caso de suporte social, relacionamento conjugal funcional e possibilidade de afirmação de gênero.
Salienta-se, ainda, que a população transgênero até pouco tempo era vista pela comunidade médica como portadora de doença mental e, com a flexibilização da nomenclatura e as próprias classificações diagnósticas, caminha-se para um cenário de despatologização. Mesmo diante de maior debate e reflexão sobre a temática imposta ao social, ainda se observa forte estigma e discriminação, indicados pelas altas taxas de morte e violência a essa população, em que esses aspectos demarcam maior prejuízo e impactos à saúde mental.
Diante das pesquisas realizadas, evidencia-se ainda um número maior de estudos internacionais, sendo de suma relevância que o cenário científico brasileiro possa contribuir para o aprofundamento da compreensão de questões de saúde mental no contexto nacional e para se pensar melhores estratégias interventivas de inclusão na sociedade e combate ao preconceito à identidade de gênero. Como limitações para a construção deste artigo, caracteriza-se a dificuldade e a falta de estudos ligados à temática e ao papel da Psicologia enquanto ciência promotora de saúde mental aos indivíduos.











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