A inteligência artificial (IA) e suas aplicações têm oferecido importantes contribuições para os campos científicos desde meados do século XX (Gontijo & Araújo, 2021), mas recentemente tem sido foco de atenção da mídia e dos meios acadêmicos devido a sua popularização por aplicativos como o ChatGPT. Esse crescente espaço alcançado nos campos das pesquisas e no auxílio à escrita de artigos tem provocado reflexões entre os pesquisadores, professores e editores sobre a autoria dos artigos. Ou seja, esse impacto na forma como se produz pesquisas, como se escreve os artigos, e consequentemente suas publicações tem nos inquietado. Os avanços científicos na área das IA são notórios e rapidamente se popularizam entre os pesquisadores e estudantes, pois, entre suas aplicações: produz textos, sistematiza informações, traduz e escreve com diferentes estilos. E por isso, nos faz indagar sobre qual seria a autoria dos artigos. Quem é o autor, quando utilizamos uma IA para compor um texto?
O conceito de autoria tem sido palco de uma intensa discussão pela sua complexidade. No âmbito da escrita, a relação entre escritor e leitor toma a cena, na qual emergem os aspectos econômico e moral relativos ao direito de propriedade, o conceito autor-proprietário passa a ser reclamado, o que hoje conhecemos como direito do autor com o direito de posse. O argumento predominante em defesa desse direito consiste na obra ser fruto da imaginação, criação, ideação e da individualidade do autor e, portanto, um bem do qual ele não poderia ser destituído (Menezes, 2018). As revistas científicas cada vez mais utilizam o processo de certificação do artigo via DOI para garantir inclusive essa autoria. As rápidas mudanças que o mundo das tecnologias da informação produz ressignificam o contexto cultural, político e social, e, portanto, os modos como pensamos a autoria.
No contexto atual, nos deparamos com essas profundas mutações alavancadas pelas tecnologias de informação – tanto no âmbito informal, na nossa vida cotidiana, como no meio científico. Como exemplo disso, temos o hipertexto que institui a possibilidade de narrativa não-linear que conecta trechos de um documento a outros documentos de forma infinita. Desse modo revoluciona a propriedade das palavras escritas e impressas em papel que até então era denominada pelo conceito de autor-propriedade que se dilui frente às potencialidades da conexão, da instantaneidade, transitoriedade, interoperabilidade e interatividade que borram ainda mais as distinções entre propriedade patrimonial e moral conotando novas possibilidades autorais (Passarelli, 2008).
Ao passo que a comunicação científica se inova, tomamos como legítima a ideia de autor apresentada por Foucault (2009) de que somos todos, em relação a produção escrita, fiadores e não proprietários. Portanto, essa premissa, nos conduz a pensar na recuperação da finalidade da citação autoral em um texto científico, por mais que esse ato de criação esteja disperso nas redes. Segundo o teórico, o autor não é uma fonte infinita de significações que viriam preencher a obra, o autor não precede as obras, pois ele é um certo princípio funcional pelo qual, em nossa cultura, representa e agrupa diferentes discursos, dando unidade a suas significações, como foco de coerência. O autor é então a figura ideológica pela qual se afasta a proliferação do sentido, pelo menos por um instante para uma nova leitura ou um novo escrito. É por sermos plurais e fiadores do conhecimento que marcamos no texto essa alteridade.
Portanto, a autoria é caracterizada por um ato de criação e estilo, marcado pela pessoalidade com que cada sujeito percorre a rede de saberes, os caminhos metodológicos, fazendo associações e estabelecendo implicações em novos escritos. A IA não substitui o ato criativo, mas pode impulsionálo. Embora concordamos com a assertiva de que o conhecimento científico não deveria ter proprietário, temos que respeitar o percurso feito pelos autores que deixam suas marcas, suas cartografias, seus caminhos percorridos na busca do saber. Então ao validar, considerar, referendar esse percurso que desvia do plágio, de apenas copiar na tentativa de apagar essas marcas transgride nossa humanidade. As IA têm humanidade? Sim, são nossas criações e se alimentam delas.
Desse modo, quem as utiliza deve seguir nossos consensos, acordos, mesmo que ainda em construção. Ou seja, as concepções de plágio e autoria científica na atualidade não podem desconsiderar a revolução digital que transforma processos de produção textual e científica, devemos, portanto, aprofundar as reflexões e o debate sobre estes aspectos essenciais na produção. Pois a constituição de um texto sempre deixa marcas autorais e as formas subjetivas que cada sujeito percorre ao ingressar na rede, por isso, nos caminhos de acesso ao que foi escrito antes, ao fazer associações, estabelecer conexões e chegar a conclusões, mesmo que de forma mais rápida e fluída, possibilitadas pelas IA, as informações que circulam pela internet devem ser recompostas para permitir que se possam construir novos rumos e criar novas possibilidades.
Diante de tais reflexões, este número da PSI UNISC busca apresentar análises ampliadas sobre diversificadas temáticas, as quais nos possibilitam pensar a atualidade do tempo presente, a saber: os impactos da Covid-19, a promoção de qualidade de vida da pessoa idosa, as práticas integrativas e complementares em saúde no âmbito da graduação em Medicina, os processos autolesivos na adolescência, a terapia da aceitação e do compromisso no contexto de cuidados paliativos, empoderamento negro, experiências “trans” em contextos da educação, suporte social de clientes em uma Clínica-Escola de Psicologia, assim como, a presença da Psicologia na escola a partir de experiência moçambicana. Tendo em vista a diversidade de temas, convidamos os/as leitores/leitoras a percorrerem esta edição!














