Introdução
É grande o número de pessoas que, seja por iniciativa própria ou por meio do encaminhamento de terceiros, busca intervenções psicológicas em serviços-escola de Psicologia, especialmente em decorrência do baixo custo ou gratuidade das atividades. Nota-se que tais indivíduos, ao solicitarem o atendimento, além das queixas relativas a seus problemas e sofrimentos, trazem consigo também a expectativa acerca de quando se dará o início do atendimento demandado. Tendo em vista a necessária espera pelo início do atendimento psicológico, dado o número limitado de vagas para intervenções como a psicoterapia individual faca à quantidade de pessoas que procuram pelo atendimento, entende-se ser pertinente a proposição de diferentes estratégias de atendimento, elencando-se, dentre elas, o psicodiagnóstico interventivo. Essa modalidade de intervenção mostra-se interessante por ser considerada como prática inovadora e um campo de conhecimento e aplicação clínica com características próprias (Scaduto, Cardoso, & Heck, 2019), cuja principal delas é a realização de intervenções durante o próprio processo diagnóstico (Barbieri, 2010). Pode-se conceituar, assim, o psicodiagnóstico interventivo como uma prática da psicologia clínica, na qual se integram, simultaneamente, os processos avaliativos e interventivos (Barbieri, Jacquemin, & Alves, 2004). De acordo com a literatura, o psicodiagnóstico interventivo pode ser utilizado junto a variados públicos, tais como adolescentes (Chaves, Tardivo, Rosa, Ferreira, & Pinto Júnior, 2022), pacientes idosos deprimidos (Salles, 2014), pacientes adultos com depressão (Paulo, 2006), saúde feminina (Mishima & Barbieri, 2009), casos de tendência anti-social (Barbieri et al., 2004; Barbieri, Jacquemin, & Alves, 2007), famílias e crianças em serviços-escola de Psicologia (Scaglia, Mishima, & Barbieri, 2011), além de sua aplicação em grupos (Fantini, Antúnez, & Castanho, 2022). Há trabalhos que discutem seu valor como meio de produção de conhecimento científico (Barbieri, 2008, 2010), visto que proporciona aos pacientes uma compreensão de si mesmos e faz uso dos encontros clínicos para intervenções na dinâmica apresentada. Dentre os públicos junto aos quais o psicodiagnóstico interventivo pode ser desenvolvido, destaca-se o psicodiagnóstico infantil. Segundo Yehia (2014), as instituições que oferecem atendimento psicológico gratuito à comunidade são procuradas por pais de crianças que apresentam algum problema de comportamento, dificuldades escolares, dentre outras adversidades. O psicodiagnóstico se mostra como uma das práticas usuais de tais serviços, uma vez que as dificuldades apresentadas por esse público podem ter diversas causas, sendo importante fazer um processo de investigação. A busca pelo atendimento infantil e o lugar e importância que os pais ocupam no tratamento dos filhos vêm sendo discutidos há tempos na literatura, já que frequentemente são os próprios pais que demandam atendimento (Ferrari, 2012). Pensa-se que quando a criança apresenta um comportamento que incomoda os genitores, fazendo com que eles procurem ajuda psicológica, a família já está, de alguma forma, implicada no problema. Por isso, espera-se a implicação do grupo familiar no problema atribuído à criança (Donatelli, 2014). Tal envolvimento permite refletir o quão importante é a compreensão da família sobre a queixa atribuída à criança diante da busca pela psicoterapia em um serviço-escola.
Soifer (1982) expõe que, para acontecer um desenvolvimento emocional saudável do indivíduo, a criança, desde o nascimento e durante seu crescimento, dependerá da família para que o processo de maturação seja constituído. Entretanto, é possível que o infante manifeste enfermidades que apontem para o envolvimento da família na questão vivenciada pela criança. Portanto, um atendimento que inclui a família possibilita maior entendimento do conflito, uma vez que se pode esclarecer o estilo de interação que reflete no modo como a família apresenta os ensinamentos para os filhos (Scaglia et al., 2011). Para Winnicott (1966/2005), a família se configura como um grupo, constituindo-se como o primeiro agrupamento em que cada indivíduo se insere ao longo da vida. Nesse sentido, pode-se considerar fundamental o comprometimento da família no psicodiagnóstico interventivo infantil, visto que a compreensão do contexto familiar, tanto para o terapeuta quanto para os envolvidos no processo é importante para que haja o entendimento do cenário em que se encontram e a realização das intervenções necessárias. Além disso, a compreensão da dinâmica familiar fornece subsídios para o entendimento dos vínculos estabelecidos entre seus membros (Okamoto, 2016). Desse modo, no psicodiagnóstico interventivo com crianças, demanda-se o trabalho em conjunto com os pais (Donatelli, 2014). No psicodiagnóstico infantil, a intervenção com os responsáveis objetiva explorar o significado da queixa trazida, dos sintomas apresentados pela criança e a compreensão que os pais têm de sua própria situação e das suas relações com o filho (Yehia, 2014). Sob essa perspectiva, o psicólogo assume uma postura acolhedora e de incentivo, que visa levar os pais a refletirem sobre os motivos da procura pelo atendimento e não apenas fornecerem informações acerca da criança (Scaduto et al., 2019). Durante o psicodiagnóstico, a escolha dos procedimentos a serem utilizados nos atendimentos pode ser feita caso a caso. Consideram-se as peculiaridades de cada criança e o que é trabalhado em cada atendimento, não existindo um padrão de procedimentos definidos previamente (Donatelli, 2014). Ao final dos encontros, percebe-se que alguns pacientes não necessitam de outros encaminhamentos, pois a ajuda psicológica oferecida durante o processo avaliativo e interventivo pode ter sido suficiente frente à queixa inicial. Por outro lado, há situações em que a criança, seus genitores, a família, tanto individualmente quanto em grupo, precisam ser encaminhados para a psicoterapia, bem como para intervenções de profissionais de outras áreas, demandando uma ajuda especializada para superação de sofrimentos e dificuldades (Guimarães & Fantini, 2014). De forma geral, entende-se que o psicodiagnóstico interventivo se mostra como um procedimento útil e relevante para a melhora das pessoas que buscam auxílio psicológico. É de grande valor para a criação de um espaço diferenciado, que reconheça aqueles que estão envolvidos no processo de compreender e compartilhar seu sofrimento, encontrando, assim, um novo modo de lidar com sua realidade (Moura & Ancona-Lopes, 2014). Nesse sentido, objetiva-se discorrer sobre psicodiagnóstico interventivo realizado com uma criança e sua família, inscritos em um serviço-escola de Psicologia de uma universidade pública no norte do Paraná.
Método
Trata-se de uma pesquisa qualitativa (Turato, 2005) em psicologia clínica, empreendida por meio de um estudo de caso, estratégia que pode ser considerada essencial a várias modalidades de intervenções clínicas (Serralta, Nunes, & Eizirik, 2011), partindo-se do referencial psicanalítico winnicottiano. Safra (1993) assinala que temos, na origem e na história do desenvolvimento psicanalítico, o modelo de pesquisa em psicanálise, havendo uma comunicação permanente entre a teoria e a clínica. Enfatiza-se que na psicologia clínica, a finalidade da pesquisa é, por um lado, proporcionar um aprimoramento das práticas clínicas e, por outro, aprofundar os conhecimentos acerca dos fenômenos e descobertas que só são encontrados no âmbito dessa prática (Borsa & Nunes, 2008).
Participantes
Participaram os integrantes de uma família cuja criança aguardava na lista de espera da psicoterapia individual de um serviço-escola de Psicologia. O filho, aqui nomeado como Pablo (nomes fictícios), contava com aproximadamente quatro anos de idade. Havia sido encaminhado para a psicoterapia pela creche que frequentava, em decorrência de um quadro de irritabilidade e birras, segundo relato de Márcia, sua mãe.
Aspectos Éticos
A presente pesquisa insere-se em uma investigação mais ampla, que almejou investigar as intervenções clínicas psicanalíticas desenvolvidas no contexto institucional e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da universidade junto à qual o serviço encontra-se localizado. O termo de consentimento livre e esclarecido foi assinado pela responsável pela criança inscrita na lista de espera no primeiro contato, quando também foram apresentados os objetivos do estudo e a garantia do uso restrito à pesquisa, atentando-se às normativas sobre o direito dos indivíduos de participarem ou não da proposta, ao sigilo da identidade dos participantes e ao respeito a suas escolhas.
Instrumentos
Para a realização do psicodiagnóstico interventivo infantil, foram utilizados os seguintes instrumentos:
Entrevistas com os pais, quando foram abordados os seguintes temas: motivo da consulta, história e cotidiano da criança, bem como relacionamento dos pais e relação entre pais e filhos (Aberastury, 1982).
Genograma, que propõe uma representação gráfica dos vínculos estabelecidos na família ao longo das gerações. Permite a coleta de dados em pesquisas qualitativas, principalmente com famílias em vários contextos e a compreensão acerca da estrutura familiar no decorrer das gerações, explicitando “as etapas do ciclo de vida familiar” e as questões emocionais a ele associadas (Wendt & Crepaldi, 2008, p. 303).
Observação lúdica, entendendo-se que, por meio dela, a criança apresenta sua fantasia inconsciente de enfermidade e de cura, além de manifestar se aceita ou rejeita o terapeuta (Aberastury, 1982).
Colagem, por favorecer a representação dos sentimentos, pensamentos e mundo interno da criança (Lopes, Ferreira, & Santiago, 2014).
Espaçograma, que se apresenta como uma representação do espaço habitado pela família, que pode ser confeccionado por meio de desenhos, figuras e esculturas. Ainda, possibilita não só relembrar fatos na família, mas também é considerado um mediador para associações (Benghozi, 2010). Além disso, retrata como o espaço familiar está organizado, por meio da representação da planta baixa da moradia da família e dos móveis que ocupam os cômodos da casa (Sanches & Sei, 2020). Sei (2021), ao compreender que “o adoecimento, a despeito de estar centralizado em um dos familiares, não necessariamente corresponde a questões pessoais dele, a aspectos intrapsíquicos e sim como algo advindo da família” (p. 12), defende o uso de recursos expressivos neste contexto, tais como desenho da família, genograma, linha da vida. De forma próxima, Fantini et al. (2022), argumentam que mediadores clínicos como desenhos e colagens podem facilitar a comunicação e o propósito interventivo da avaliação psicológica, aspectos que apontam para a pertinência dos instrumentos escolhidos para o psicodiagnóstico interventivo aqui retratado.
Procedimentos ao longo do psicodiagnóstico interventivo
O psicodiagnóstico interventivo contou com oito atendimentos realizados semanalmente. Iniciou-se com Márcia, com quem foram realizadas duas entrevistas. Pablo participou dos três atendimentos seguintes (terceira, quarta e quinta sessões do psicodiagnóstico interventivo), sendo que na primeira sessão com a criança, fez-se uma observação lúdica, com disponibilização de uma caixa de brinquedos, que poderiam ser acessados e escolhidos pelo infante a qualquer momento da sessão. Na segunda sessão com o menino, foi solicitado que Pablo fizesse sua representação pessoal, a partir de material para desenho, pintura, recorte e modelagem. Na terceira sessão com a criança, solicitou-se a Pablo que escolhesse figuras para representar sua família a partir de uma colagem. A sexta sessão do psicodiagnóstico ocorreu com a presença de Márcia e Pablo, tendo sido proposta a confecção do espaçograma. Depois da realização da atividade, ficaram à vontade para interagirem livremente, sendo disponibilizados materiais lúdicos e gráficos. A sétima sessão se constituiu com a presença de Márcia, expondo-se percepções e compreensões alcançadas a partir dos encontros e considerações sobre os possíveis encaminhamentos. Além disso, ouviu-se as colocações de Márcia e suas percepções acerca dos atendimentos. A oitava e última sessão foi realizada com a presença de Pablo. Foram retomadas as vivências das sessões, desde o início até a última, perfazendo os motivos pelos quais a mãe de Pablo havia buscado o atendimento psicológico para ele. A contação de história foi o recurso estabelecido como mediador (Zanetti, 2013) para a exposição das impressões obtidas acerca de Pablo, organizando-se uma história a partir dos personagens dos desenhos feitos ao longo dos encontros com a criança.
Caso Clínico
Márcia e Daniel (pai de Pablo) contavam, na época das sessões, com aproximadamente dez anos de casados. Os pais de Márcia se separaram quando ela era adolescente. Era filha mais nova e tinha mais dois irmãos. Ressaltou que, durante sua criação, presenciava muitas brigas e discussões entre seus pais. Após a separação dos pais, que não mantiveram mais contato, Márcia esteve mais próxima de sua mãe do que de seu pai. Em referência ao histórico familiar de Daniel, Márcia informou que existia união e parceria entre os familiares, embora o pai de Daniel já houvesse falecido há alguns anos. Daniel era o filho caçula e possuía um irmão e uma irmã. Nas ocasiões em que Márcia e Daniel precisavam de alguém que os auxiliasse com os filhos, a avó paterna era quem desempenhava a função de cuidadora. Após o casamento, Márcia, em razão de uma doença, teve que passar por tratamento médico para poder engravidar, sendo que após um ano do nascimento do primeiro filho do casal, Márcia descobriu que estava grávida de Pablo. Márcia descreveu o menino como sendo uma criança precoce, que começou a andar e a falar por volta de um ano de idade. Desde os seis meses de idade, Pablo frequentou a escola em tempo integral, visto que os pais trabalhavam o dia inteiro. Em relação às queixas que a fizeram procurar por atendimento psicológico, Márcia entendia que a escola talvez estivesse exagerando em relação aos comportamentos do filho, mas para não ficar se sentindo mal, acabou levando à frente o encaminhamento da escola.
Resultados e Discussão
O psicodiagnóstico interventivo permitiu delinear um olhar para a dinâmica familiar, questionar a solicitação inicial pela psicoterapia individual da criança e repensar os encaminhamentos pertinentes para o caso em questão. Neste sentido, observou-se que Márcia, ao refazer sua história familiar durante a realização do genograma, percebeu que algumas de suas questões pessoais precisariam ser trabalhadas em uma psicoterapia. Tal fato foi identificado por ela, ante à passividade em se impor em várias situações no contexto familiar, como nos momentos de expor suas opiniões e vontades para o marido e filhos, considerando-se uma pessoa mais contida. Márcia notou, ademais, que Pablo era uma criança com personalidade forte e muito ativa, comparando-o a seu avô materno. Entendeu que sua passividade poderia estar dificultando a forma de lidar com as exigências de Pablo, especialmente por não conseguir impor limites a ele dizendo não, principalmente quando Pablo reivindicava algo que, para Márcia, não era aceitável. O uso do genograma como um recurso mediador nas entrevistas forneceu parâmetros do entorno familiar da criança em questão. Compreende-se que ele, além de possibilitar o mapeamento dos vínculos estabelecidos entre os membros de uma família e demonstrar ser adequado na utilização de estudos que envolvem a dinâmica e a estrutura familiar (Wendt & Crepaldi, 2008), também oportuniza uma “mobilização ocasionada nos informantes durante a confecção do Genograma” (Wendt & Crepaldi, 2008, p. 307). Dessa maneira, pensa-se que o genograma despertou em Márcia o interesse de saber como se encontrava a dinâmica familiar, os papéis desempenhados por cada membro da família e como Márcia e Daniel estavam lidando com a fase de desenvolvimento em que Pablo se situava, o que, até então não havia sido intensamente percebido por ela. O genograma favorece a compreensão da trama familiar, partindo de uma observação direta no momento de sua confecção (Franco & Sei, 2015), sendo indicada sua utilização para exploração de questões concernentes ao contexto familiar da criança que está sendo submetida ao psicodiagnóstico interventivo. Acerca da sessão vincular com mãe e filho, solicitou-se a elaboração do espaçograma, quando Márcia pôde perceber que Pablo estava dormindo mais no quarto do casal do que no próprio quarto que dividia com o irmão, apontando que o garoto solicitava aos pais, quase todas as noites, para dormir no quarto do casal. Diante desse fato, Márcia notou sua dificuldade em dizer-lhe não e, ainda, a irritabilidade de Pablo, seguida de birras, quando o menino era contrariado pelos pais na referida situação. Márcia identificou, ademais, que a dinâmica familiar precisaria ser revista, uma vez que algumas atitudes desencontradas entre ela e Daniel poderiam estar refletindo sobre os filhos, principalmente em relação ao Pablo. Entende-se, assim, que o espaçograma, utilizado na sessão vincular, propiciou a emergência de questões do cotidiano familiar que sem o referido recurso possivelmente não apareceriam nas entrevistas. Acredita-se que a sessão vincular e o uso do espaçograma podem ser pensados como um diferencial comparado a triagens realizadas a partir de apenas um encontro ou ao psicodiagnóstico realizado por meio de sessões individuais com os pais e com os filhos. A utilização desta atividade permitiu que mãe e filho falassem deles próprios e identificassem situações referentes ao ambiente familiar. A representação do espaço-casa vivido permite aos envolvidos projeções inconscientes do espaço psíquico, tanto individual quanto familiar (Benghozi, 2010). Dessa maneira, pondera-se que tanto o genograma quanto o espaçograma puderam promover “um encontro verdadeiro e inédito entre um sujeito e um objeto. Este encontro é, portanto, em potencial, mágico, singular e organizador para o psiquismo” (Zanetti, 2013, p. 49). Aponta-se que as percepções alcançadas por Márcia nos atendimentos foram possíveis por meio dos referidos recursos, que podem ser considerados como objetos mediadores e como tais facilitam o acesso não apenas aos conteúdos inconscientes, mas também favorecem os processos elaborativos (Zanetti, 2013). Observou-se nas sessões com Pablo que ele se interessava pelos brinquedos, criando histórias e interagindo com a terapeuta. Por meio das histórias, tem-se a chance de colocar para a criança algumas ideias a respeito de seus conflitos, respeitando o tempo dela e seu período de oscilação (Safra, 2011). A partir das atividades propostas, Pablo escolheu as figuras de um celular e de um carro para representar sua família. Fez desenhos que continham algumas letras de seu nome, um coração e tesouros de piratas. Dizia que gostava de jogar futebol e de brincar com as crianças no prédio em que morava, que gostava de ficar jogando no celular e, também, que o pai, quando estava em casa, ficava bastante tempo no celular. As brincadeiras dele apresentaram, de forma simbólica, aspectos do seu cotidiano e suas fantasias e desejos (Aberastury, 1982). Tal compreensão vai ao encontro daquilo que Schmidt e Nunes (2014) apontam ao sinalizarem que o brinquedo é um recurso para a criança expressar o que ela está vivenciando e que este brinquedo serve como um mediador entre a realidade e a imaginação. Observou-se que as questões aparentemente emergentes, surgidas nos atendimentos, não foram problemáticas propriamente concernentes somente à criança, mas a conteúdos relativos à própria mãe e aspectos advindos da dinâmica familiar. Diante desse contexto, entendeu-se que Pablo estava passando pelo processo de desenvolvimento infantil considerado aceitável para sua idade, o que se confirma quando Winnicott (1964/1982, p. 143) argumenta que “uma criança normal pode empregar qualquer dos recursos (ou todos) que a natureza forneceu para defesa contra a angústia e o conflito intolerável”. Dessa maneira, pode-se pensar que a irritabilidade e as birras apresentadas por Pablo quando era contrariado se mostravam como algo dentro da normalidade. Winnicott (1964/1982) também aponta que esses comportamentos, muitas vezes utilizados pelas crianças, podem ser chamados de sintomas e que “uma criança normal é capaz de ter qualquer espécie de sintomas, em circunstância apropriadas” (Winnicott, 1964/1982, p. 144). Nesse sentido, pode-se ponderar que as birras de Pablo eram uma das vias por ele utilizadas para demandar da família uma atenção. À medida que solicitava dormir no quarto do casal e era contrariado, Pablo realizava suas birras, que visavam fazer com que os pais cedessem a suas vontades, principalmente a mãe, que não conseguia se impor diante da criança. Daniel demonstrava pouco envolvimento quando era requisitado para impor limites à criança e desautorizava Marcia em várias situações que diziam respeito ao filho. Cabe destacar os diversos papéis do pai no contexto familiar e no desenvolvimento da criança. Para Winnicott (1964/1982), o pai é de grande valor e desempenha várias funções, tais como, oferecer suporte para a mãe no que ela precisar, desempenhar o papel de lei em seu lar, estar presente na vida da criança para que ela sinta que ele é real e verdadeiro, transpor a sua maneira de ser para a criança, fazer parte do mundo do filho enriquecendo as experiências dele, conviver com o filho permitindo-lhe que o descubra como pai. Essa relação depende do pai e da criança, porém depende também da mãe em facilitar as relações entre eles, como também as impedir ou desvirtuá-las. A função de desempenhar a lei no lar pode ser pensada em relação a Daniel, pai de Pablo, uma vez que ele não sustentava sua palavra ao falar não para o filho. Implantar regras e limites aparentemente também eram dificuldades de Daniel. Além disso, Márcia percebeu que, para ela e Daniel, tais situações tinham significados diferentes. Márcia, durante os atendimentos, apreendeu detalhes da dinâmica familiar, diferentemente de Daniel que não quis participar dos atendimentos, considerandoos desnecessários, por acreditar que Pablo não necessitava de um acompanhamento psicológico. Nos encontros finais, que aconteceram primeiramente com Márcia e depois com Pablo, foram assinalados para a mãe a importância dos limites dentro contexto familiar, as dificuldades percebidas por ela, bem como os papéis de cada um no ambiente familiar e a importância do brincar com a criança (visto que Pablo ficava muito tempo no celular, fato colocado por Márcia). Além disso, apontou-se a importância da psicoterapia para que ela pudesse trabalhar as questões identificadas por si própria, bem como se ponderou a pertinência de uma psicoterapia familiar com intuito de reorganizar a dinâmica da família. Inferiu-se que, naquele momento, não havia a necessidade de psicoterapia individual para Pablo, sendo que Márcia concordou com as impressões transmitidas, tendo sido realizados tais encaminhamentos. Na última sessão com a criança, relembrou-se junto com Pablo todas as sessões realizadas, recordando os motivos pelos quais a mãe o havia levado para atendimento psicológico. Dessa forma, foi exposto ao menino as percepções alcançadas sobre ele. Tais percepções foram colocadas por meio de uma história contada a criança, embasada nas vivências entre ele e a psicóloga responsável pelo psicodiagnóstico. No decorrer da história, brincadeiras e atividades expressivas foram acontecendo com uso, por exemplo, das massinhas de modelar, ressaltando-se que o brincar por si só é considerado uma terapia (Winnicott, 1975). Pablo, ao final da sessão, disse à psicóloga que havia gostado dos dias em que havia brincado com ela.
Considerações finais
Considera-se que o modelo de psicodiagnóstico interventivo realizado com a criança, com foco em aspectos da dinâmica familiar e o uso de recursos que buscam acessar tais conteúdos, foi entendido como um diferencial, sendo que os atendimentos incluíram não apenas a presença da mãe e da criança em sessões individuais, mas também o uso de uma sessão vincular, com a presença da mãe e da criança juntos. A partir de uma intervenção como essa, pode-se repensar o encaminhamento da criança para a psicoterapia individual, indicando intervenções mais pertinentes a cada situação, algo interessante especialmente ao se pensar no contexto institucional, como os serviços-escola de Psicologia. Defende-se, assim, que essa modalidade interventiva ofertou um espaço para que os participantes do processo avaliativo pudessem refletir, identificar ou rever o ambiente familiar como um todo e não apenas a queixa da criança a partir da qual foi solicitado o atendimento psicológico individual da criança. Favoreceu-se, com isso, uma reorganização familiar, sem, necessariamente, realizar a psicoterapia individual da criança, solicitação inicial da família. Acredita-se que intervenções breves como a aqui descrita, ao otimizarem os recursos humanos disponíveis em clínicas psicológicas institucionais, que apresentam grande procura pela população, ampliam o papel social desempenhado por tais serviços. Por fim, nota-se que a utilização dos recursos como genograma, espaçograma, colagem e a organização temática das sessões foram primordiais para o entendimento do caso e elaboração de determinados conteúdos por parte da mãe e da criança. Favorece-se a verbalização de vivências, o desenvolvimento de uma cadeia associativa e modificações na dinâmica familiar, beneficiando o público atendido por meio de tal modalidade interventiva. Com isso, entende-se que o psicodiagnóstico interventivo infantil se mostra como uma estratégia interventiva pertinente para o contexto dos serviços-escola de Psicologia, considerando a grande demanda pelos atendimentos individuais, cabendo a continuidade das investigações e, quiçá, a ampliação de sua aplicação especialmente neste contexto.