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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál vol.44 no.4 São Paulo  2010

 

PRÊMIOS FEPAL

 

Produções oníricas e expansões de continência psíquica e do pensar na análise de um adolescente1

 

Producciones oníricas y expansiones de continencia psíquica y del pensamiento en el análisis de un adolescente

 

Dream productions and the expansion of psychic containment and thinking in the analysis of an adolescent

 

 

Teresa Rocha Leite Haudenschild2

Endereço para Correspondência

 

 


RESUMO

A partir da análise de um adolescente com falhas de continência primária a autora mostra como, contando com a capacidade de rêverie e continência da analista, o paciente vai constituindo sua autocontinência psíquica. Por meio da compreensão afetiva das relações pré-genitais e genitais com a mãe, o pai e o casal parental, vão surgindo integrações das imagos "boas" e "más" do casal e de si mesmo, como também expansão de seu continente mental. Durante o processo analítico podem observar-se momentos de "virada" (J.M. Quinodoz, 2001), marcados por imagens, relatos e sonhos que, ainda que pareçam primitivos e regressivos, assinalam uma significativa mudança estrutural na vida psíquica do paciente.
Essa mudança se dá pela integração tanto de aspectos do self cindidos, negados e inibidos, quanto de aspectos que surgem pela primeira vez na análise. A intenção da autora é focar o trabalho do sonho e do pensar do paciente, cujos frutos, amadurecidos no encontro analítico, vão mostrando o paulatino desenvolvimento de sua capacidade de pensar e simbolizar, de conter e expressar sua própria realidade psíquica, como também o desenvolvimento de sua personalidade.

Palavras-chave: psicanálise de adolescentes; trabalho do sonho; pensar; continente, rêverie, fatos selecionados; mudança psíquica.


RESUMEN

A partir del análisis de un adolescente con fallos de continencia primaria, la autora va mostrando cómo, contando con la capacidad de rêverie y continencia de la analista, el paciente va constituyendo su autocontinencia psíquica. A través de la comprensión afectiva de las relaciones pre-genitales y genitales con la madre, el padre y la pareja paterna, van surgiendo integraciones de las imágenes "buenas" y "malas" de la pareja y de sí mismo, así como también la expansión de su continente mental. Durante el proceso analítico pueden observarse momentos de "superación" (J.M. Quinodoz, 2001), marcados por imágenes, relatos y sueños que, aunque aparentemente primitivos y regresivos, marcan un significativo cambio estructural en la vida psíquica del paciente. Este cambio se da a través de la integración de aspectos del self que estaban escindidos, negados, inhibidos y de otros aspectos que fueron surgiendo por primera vez en el análisis. La intención de la autora es enfocar los trabajos del "sueño" y del pensamiento del paciente, cuyos frutos, madurados en el encuentro analítico, van mostrando el paulatino desarrollo de sus capacidades de pensar y simbolizar, de contener y expresar su propia realidad psíquica, así como también el desarrollo de su personalidad.

Palabras clave: psicoanálisis de adolescentes; pensar; trabajo del sueño; continente; rêverie; hechos seleccionados; cambio psíquico.


ABSTRACT

Through the analysis of an adolescent with failures in primary maternal containment, the author demonstrates how, by virtue of the capacity of rêverie and containment of the analyst, the analysand gradually constitutes his psychic self-containment. By means of the affective comprehension of the adolescent's pre-genital and genital relationships with the mother, the father and the parental couple, there are integrations of his own "good" and "bad" imagos, as well as those of the couple, accompanied by the expansion of his mental containment. Over the course of the analytical process, there are moments of "turning a page" (J-M. Quinodoz, 2001), marked by images, narratives and dreams which, however primitive and regressive as they may seem, highlight a significant structural change in the patient's psychic life. This change is achieved by the integration of aspects of the self, whether split, negated, or inhibited, as well as aspects brought to light for the first time in psychoanalysis. The author's intention is to focus on the analysand's dream work and thinking, the fruits of which, ripened in the analytical encounter, show the gradual development of his capacity to think and symbolize, to express and contain his own psychic reality, as well as the development of his personality.

Keywords: adolescent psychoanalysis; dream work; thinking; containment; rêverie; selected facts; psychic change.


 

 

Introdução

Para Bion o desenvolvimento de uma personalidade se dá à medida que o sujeito possa pensar suas experiências emocionais em vez de evadir-se delas. Para isso ele necessita, no início da vida, de uma mãe com capacidade de rêverie (Bion, 1962): capacidade psíquica de acolher, metabolizar e devolver transformadas ao bebê as primitivas experiências afetivas que este projeta nela, agora já com um sentido emocional. É a partir da introjeção desse objeto continente que o sujeito vai constituindo sua autocontinência emocional, seu continente mental. Como fatores constitucionais, Bion aponta o amor à verdade e a tolerância à frustração como predominantes na decisão do sujeito entre evadir ou enfrentar a realidade interna e externa. Se ele tolera a insatisfação inerente à realidade (insatisfação necessária, portanto), pode então mais facilmente abdicar do sensorial pelo mental, do concreto pela representação, pelo pensamento.

Bion postula, ainda, que um dos requisitos para que a rêverie materna seja utilizada com o filho, é o "amor da mãe pelo pai". Se o analista funciona na análise como esse objeto-mãe, que recebe quaisquer conteúdos nele projetados, precisa também ter predominantemente amor pelo "pai": ter um espaço em sua realidade psíquica para o outro, o desconhecido, o novo.

O terror ao novo é colocado por Bion como inerente à mente humana, ainda despreparada para o pensar. Para Ferro (1997), o acolhimento do terror, do medo anterior ao recalcado, seria mais importante até que o da agressividade, constituindo a narração e as "holografias afetivas" (Ferro, 1992-1997) o meio transformador que esses sentimentos (e outras emoções) encontram para se expressar. É a partir da constatação e nomeação destes que o sujeito pode ir-se apropriando de seus próprios recursos e ir ganhando continência psíquica, ganhando repertório onírico e capacidade para pensar suas experiências emocionais.

Na análise de Pedro vamos ver como estas holografias e narrativas vão aparecendo, maturadas no encontro analítico, como metáforas das experiências emocionais vividas naquele momento da análise, como reelaborações de experiências anteriores ou surgindo a primeira vez.

A compreensão afetiva dessas experiências, desde que não saturada, vai abrindo aos poucos caminho para o enfrentamento do desconhecido vir-a-ser do analisando e do analista, no aqui-e-agora de cada sessão.

Muito menos que focalizar a minha maneira de trabalhar clinicamente, quis trazer as produções oníricas de Pedro durante o processo analítico: narrativas e sonhos trazidos no termo de patamares de elaboração, como a última frase de um capítulo, que ao mesmo tempo termina e abre o espaço para novas elaborações: a do capítulo seguinte. (D. Quinodoz, 1994). Aparecidas no aqui-e-agora da situação analítica, essas produções indicam que elaborações importantes chegaram a termo, ao mesmo tempo em que trazem claramente à luz angústias e fantasias inconscientes primitivas, assim como defesas e conflitos, que podem assim ser reelaboradas minuciosamente, em um segundo tempo. O critério foi, portanto, focalizar essas produções de Pedro que, como fatos selecionados (Bion, 1962), foram emergindo durante o processo analítico e permitindo sua evolução.

 

Compreensão afetiva na análise do adolescente

Penso (cf. Rolla, 1974) que o adolescente dispõe de maturidade motora genital e maturidade intelectual e ideativa, mas carece de maturidade afetivo-emocional. A genitalidade e a coordenação motora estriada são postas a serviço do ideativo e não estão ainda em relação com um comando a partir do afetivo. Este só poderia advir com a compreensão afetiva das relações, num campo que possibilite "demorar a ação pelo tempo necessário para a tomada de conhecimento dos fenômenos, o estudo dos mesmos, a configuração de alternativas" convenientes ou não, um tempo de espera... (p. 109).

Que campo seria mais propício que o campo da análise?

A apropriação e compreensão afetiva de sua sexualidade masculina vai aparecer como elaboração recorrente, a partir de construções oníricas de Pedro no campo da relação analítica, de construções minhas e reconstruções partilhadas por nós.

A análise de Pedro

Pedro

Pedro vem para a análise devido à preocupação da mãe por ele estar andando na escola com a "turma da bagunça": ela estava temerosa com a possibilidade do uso de drogas. Ele é um rapaz forte, aloirado, que ao iniciar a análise estava com 15 anos e 10 meses e atualmente está com 18 anos e 6 meses. Ele nasceu de uma relação ocasional, tendo vivido com os pais até os 18 meses. A partir daí viveu com os avós maternos em outro estado, separado da mãe, até os 13 anos quando, por resolução própria, resolveu procurá-la, pois "só a conhecia por fotos" enviadas por ela. O pai procura Pedro por telefone no dia em que este faz 18 anos, convidando-o para passar as férias de verão em sua cidade (onde Pedro nasceu). Ele vive atualmente com a mãe, a qual chama de Beth, o padrasto Francisco e a irmãzinha, que atualmente tem 9 anos. Continua a chamar os avós de pai e mãe.

Desde o primeiro encontro, Pedro parece contente em encontrar um espaço de atenção e escuta psíquicas para ele. Concorda em vir três vezes por semana, passando a vir quatro vezes após um ano e meio de trabalho.

Na apresentação clínica que farei a seguir vamos acompanhar, no curso da análise de Pedro, como ele, por meio da compreensão dos afetos confusos e/ou extremamente ambivalentes em relação à analista, vai expandindo sua continência psíquica, expansão expressa por produções oníricas que vão pontuando o processo analítico. Essas produções seriam como que construções (Greenacre, 1983) suas, abrindo passo para construções minhas e reconstruções nossas, juntando o infantil ao atual e pondo em marcha o processo analítico.

Primeiro período: (dos 16 aos 17 anos)

Primeiro semestre: Resgatando vivências sonoras e silenciosas

Em contraste com as entrevistas, em que se mostra falante, contando sobre sua vida e suas relações com a família e amigos, Pedro passa as primeiras sessões praticamente em silêncio, um silêncio expectante. No meu entender, abre-se aos poucos para um contato íntimo consigo mesmo neste espaço de que dispomos. Acompanho-o.

Pedro chega, deita-se no divã, sempre com a perna esquerda estendida e a direita flexionada, com o pé no chão, em direção à porta: como que se entregando por um lado, e por outro, mantendo-se pronto para sair. Passa a mão direita pelo cabelo, alisando-o com os dedos. Alternadamente, com os dedos da mão esquerda, sente a textura da minha parede. Parece tranquilo, mas um pouco tenso.

Espero sempre que comece a falar. Fala-me do som dos pássaros – distingue-os todos pelos nomes –, do som dos ônibus distantes, do apito do trem. Assusta-se de repente com o som de uma pedreira, cuja explosão regularmente se dá no meio de sua última sessão da semana.

Digo-lhe, então, que ele parece estar assustado de estar ali comigo, para ambos escutarmos o que se passa dentro dele. Que assim como há sentimentos conhecidos, como os sons dos pássaros que ele distingue tão bem, há sentimentos desconhecidos, assustadores, como esse som estranho. Será que eu poderia acolher o seu susto e juntos procurarmos compreender o que estava acontecendo?

O padrão das sessões se repete nas semanas seguintes, onde o silêncio perdura. Ora o sinto como um homem, temeroso do que pode surgir ali na relação comigo, ora como uma criança muito pequena. Em ambos, curiosidade e temor. Há dias em que a atmosfera é tensa, outros triste, mas predominantemente o clima é de confiança e cooperação, em que ele parece estar se abrindo para uma relação mental íntima, intra e interpsíquica.

Contratransferencialmente, ora sinto-me como a mãe de uma criança muito pequena que mal fala, mas que move as mãos, olha e – principalmente – escuta, ora sinto-me como uma mulher perante um homem adolescente, temeroso de sua sexualidade. Comunico- lhe essas impressões à medida em que sinto que ele as pode ouvir, e nosso espaço de comunicação vai se ampliando aos poucos.

Em uma última sessão da semana, às vésperas de suas primeiras férias, após ter respondido com um tremor do corpo todo à explosão da pedreira (a qual sempre o surpreende e assusta, embora se dê regularmente, vinte minutos antes do término da sessão), além de falar-lhe da raiva que ele poderia sentir às vésperas das férias, quando eu poderia estar deixando-o para viajar com meu marido, relaciono seus sentimentos com os que ele poderia ter sentido em criança, ao ser deixado pela mãe, atento então a todos os sons: dos pássaros, dos ônibus distantes. Além da expectativa amorosa pela volta dela, ele também poderia temer explodi-la com sua raiva por tê-lo deixado. E temer explodir a si mesmo também, não restando nada: nem ela, nem ele.

E tudo isso ele estava sentindo agora, às vésperas da minha partida

Após um curto silêncio ele então me traz o seguinte relato:

"O copo quebrável e o copo plástico"

A Beth (mãe) contou que quando me levou para a casa do meu avô em Floresta, eu passei uma sede danada no caminho. Eu tinha medo de tomar água em copo de vidro. Ela diz que é porque uma vez eu quebrei um copo e ela então me apavorou, para eu nunca mais chegar perto de copo de vidro.

Eu tinha um copinho de plástico que eu levava comigo. Na viagem ela me deu água e eu bebi. Pus o copo na janela do ônibus. O vento levou. Daí ela tentava me dar água em copo de vidro e eu não bebia de jeito nenhum. E chorava de sede... Isso muitas vezes. Até que uma mulher, que tinha muitos filhos, me deu um copinho de plástico, e então eu bebi. Acho que tenho esse copinho até hoje, na casa dos meus pais, dos meus avós... Da última vez que fui para Floresta, ele estava lá.

Digo-lhe que ele passou muita sede aqui, até perceber que eu poderia lhe oferecer "um copinho de plástico". E que agora, um pouco antes das férias, ele estava querendo me comunicar o medo que ele sentira em relação à minha pessoa: seria eu uma mulher perigosa, como um copo de vidro quebrável, ou seria uma mulher-mãe a lhe oferecer água em um copo forte e não perigoso, a lhe oferecer compreensão para o que ele sentia?

Agora, na véspera de ir embora para as férias, estava me deixando (como ao copinho de plástico na casa da avó) e então se perguntava se me encontraria quando voltasse... Será que eu sobreviveria à raiva dele, por me ver partindo e não poder fazer nada?

Continência para angústias primitivas de perda do objeto primário e possibilidade de existência deste e do self

Acredito que a lembrança-metáfora da sobrevivência do copinho de plástico, fala da existência já de um objeto continente internalizado, assim como da confiança em que eu tenha, na minha casa mental, um "copo" só dele, maleável e forte, apropriado para compreender a sua parte infantil, que ele espera encontrar na volta das férias.

Penso que até o momento em que Pedro traz as imagens dos copos de vidro e de plástico, ele estava elaborando a tolerância da ausência do objeto: se esta não pode ser tolerada, no lugar dela há uma "não-coisa, um fantasma terrorífico, um seio danificado e desvalorizado" (Symington, 1996, p. 117). Há elaboração quando há a possibilidade da representação tanto deste "mau" seio quanto do "bom".

Bion utiliza o ponto para representar o lugar onde estava a emoção ou o objeto, ou o lugar onde estes teriam a possibilidade de estar, como uma pré-concepção disponível para encontrar uma realização, para formar então uma concepção, promovendo desenvolvimento mental. Bion (1970, p. 10) diz que "se o conceito do geômetra de espaço deriva de uma experiência do 'lugar onde alguma coisa estava', é preciso retornar a ele para iluminar o domínio em que, em minha experiência, é significativo dizer que 'um sentimento de depressão' é o 'lugar onde um seio ou outros objetos perdidos estavam', e que 'espaço' é 'onde a depressão, ou alguma outra emoção costumava estar'".3

No meu entender, através da nossa relação e interpretações, Pedro vai podendo trazer onde "estava" para ele o objeto, assim como as emoções envolvidas, até então não nomeadas, paralisadas. Ele assim vai constituindo um espaço mental aberto para novas possibilidades de significação.

Acredito que neste momento ele pode trazer à luz do campo analítico a vivência subjacente de uma ameaça de fragmentação de sua mente, recíproca à fragmentação (em fantasia) da mãe primária interna. Quando o temor dos sentimentos persecutórios é amenizado, devido à maior confiança na nossa relação e ao fortalecimento de continência psíquica interna, dada pela compreensão das angústias aparecidas nas sessões anteriores, Pedro pode então ter coragem de trazer um relato onde essas angústias podem ser "sonhadas" por ele, organizadas numa narrativa que integra e articula representações e afetos, vivamente.

É como se ele, mais forte agora, pudesse chegar mais perto da realidade e das dores decorrentes desse contato. Então, é preciso valorizar essa aquisição, que mostra evolução do pensar e da simbolização.

Creio ter feito isto em minhas formulações, relacionando primeiramente o "copo plástico" à percepção dele de que eu o podia compreender (e implicitamente a internalização dessa confiança e compreensão, como um objeto compreensivo, Bion, 1962). E só depois falando-lhe das angústias primitivas presentes ali no momento da sessão.

 

Processo adolescente e integrações

Desde Freud (1893-1895/1976b) sabemos que a incorporação de partes psíquicas dissociadas ao ego faz parte do processo normal do desenvolvimento do adolescente, ocasionando perturbações.

Se o conflito básico da crise adolescente é a elaboração do vínculo de dependência simbiótica (Paz, 1971), os processos de separação e diferenciação vão desorganizar a identidade conseguida até então, pois partes do psiquismo do adolescente que estavam projetadas e identificadas em fantasia aos objetos primários (idealizados ou denegridos onipotentemente) vão retornar ao psiquismo do adolescente.

É a análise, como campo terapêutico depositário dessas partes, que vai permitir que o adolescente resgate aspectos de sua personalidade de um modo mais realístico, desidealizando-os.

E, no caso de Pedro, que passava por um período de dessimbiotização ao separar-se abruptamente dos pais aos 18 meses (fase de reaproximação – Mahler, 1975), penso que as angústias de separação e diferenciação próprias da adolescência serão sobrecarregadas por angústias precoces afins. Essas angústias seriam relativas ao terror de não-existência, buscando compreensão e continência. Seriam angústias catastróficas, muito primitivas, e, neste sentido, psicóticas.

O que possibilita que elas venham à luz na análise, no meu entender, é a confiança que Pedro já deposita em mim, por meio de uma relação transferencial básica (Greenacre, 1983), uma confiança originada na relação criança-mãe e que provê a matriz para surgir a transferência.

Segundo semestre: Resgatando a mãe sexual "perdida"

Pedro começa a falar: inicialmente sobre as tias que ajudaram a criá-lo e depois sobre sua habilidade para manter várias mulheres interessadas nele, ao mesmo tempo. Como qualquer rapaz, tem muitas namoradinhas de sua idade, que são "para ficar". Mas o inédito é que Pedro mantém, entre 15 e 17 anos, vários casos com mulheres bem mais velhas (de 22 a 29 anos), o que vai rareando com o prosseguir da análise. O ponto comum nesses casos é que essas mulheres não têm marido, embora a maioria seja mãe, e todas cuidem de Pedro: emprestam-lhe malas para viajar, dão-lhe roupas, discos, e ele só recebe atenção e presentes, "esquecendo-se" delas, até que o chamem. Agora são elas que esperam por ele.

A força do amor e o ódio mortal

Numa última sessão da semana, vou-lhe explicitando como essas relações lhe asseguram atenção cuidadosa e contatos corporais muito próximos com uma mulher adulta, atenção e contatos aos quais pode sempre recorrer, desde que são muitas mulheres e não uma só. Que além disso elas não têm marido... Não são como eu, sua mãe que tem o padrasto...

Ele corrige: "– Não! Minha avó é que é minha mãe! Eu a chamo assim até hoje. A Beth (mãe) é a Beth...", acentuando a predominância da avó como figura materna. Ao falar isso, Pedro acentua com a unha um vinco na minha parede: noto então que nela há quatro vincos, um ao lado do outro, mas que há um mais forte – o primeiro em minha direção – justamente o que ele acabara de acentuar: "o vinco da mãe-avó".

Relaciono essas marcas às que os matadores fazem em suas armas e esta última, mais forte, a mim, na interpretação que lhe dou. Saliento a raiva despertada nele quando pode perceber a mulher que tem função materna como sexualizada: tem então vontade de matála. Ele, continuando a falar da "avó", diz que quer cuidar da mãe e do pai (avós) como eles o cuidaram na infância: Ela tinha tantos filhos e era tão preocupada com a gente... Quando a gente chegava, ela perguntava: está cansado filho? Venha comer. E sentava perto de mim para conversar. A Beth (mãe) só fala comigo para me corrigir...

Pedro começa a abrir espaço em sua mente para a representação da mulher sexualizada: a que ele desejaria matar. O temor de matar e o cuidado aparecem então na transferência, evocando os sentimentos extremamente ambivalentes em suas relações com as figuras primárias internalizadas.

As mulheres, objetos das atuações sexuais de Pedro, seriam como figuras deslocadas onde ele estaria testando o "perigo" de sua sexualidade, nos dois níveis: pré-genital e genital (acting-out como disponibilidade aloplástica – Fenichel, 1945). Segal (1997a, p. 98) diz que "o ódio ao vínculo parental se torna um ódio ao pensar": é este ódio à mãe, que faz um casal sexual com o marido, é que pode ser "nomeado" (Britton, 1998), para ser mais amplamente explorado e ganhar significação e continência.

Após esse passo, Pedro pode focalizar o temor (escondido) do "pênis perigoso" do adulto, de seu próprio pênis: na sessão seguinte, Pedro, após um silêncio inicial onde olha para as marcas feitas por ele na parede, diz: Vou te contar uma coisa que nunca disse para ninguém: meu pênis é muito estranho, muito grande – pensava que podia machucar as mulheres. Se não tivesse vindo aqui para São Paulo acho que nunca ia namorar. Ia ficar me achando estranho, ficar longe das mulheres...

Digo-lhe, então, que talvez ele sentisse que a força da sua sexualidade poderia explodir a mulher, e então ele teria que ficar longe. Mas se ele estava me contando isso agora, é porque já podia se sentir menos estranho e perigoso como imaginava que era como homem e se aproximar mais de mim. [Nesse momento tenho em mente a imagem do copo de vidro e o perigo do encontro deste com seus dentes duros, e perigosos como vidro (Aberastury, 1967). Dentes de menino-homem. Capazes de ferir uma mulher-mãe. Estilhaçá-la até.]

Numa sessão da semana seguinte aparece então a intensa raiva de que eu, como mãe, além de distanciar-me dele, fique com um homem só para mim, impedindo assim Pedro de ter contato com ele. Aparece a dor imensa por desejar ter um casal de pais como a analista e seu marido, e o medo de destruir esse casal, que é ao mesmo tempo invejado, com sua enorme agressividade.

À medida em que o temor de sua agressividade (componente de sua sexualidade) vai diminuindo e esta vai sendo aceita como distinta da destrutividade e vai sendo representada, assim como as emoções correlacionadas à ruptura primitiva da relação com a mãe, o pai e o casal, Pedro vai caminhando para um funcionamento mental predominantemente genital. Ele então pode ter sonhos esperançosos para o futuro...

Segundo período: aparecem os sonhos (dos 17 aos 18 anos)

"Sonhar é como se abrisse uma esperança"

Após eu ter trazido suas atuações com mulheres para nossa relação na situação analítica, trazendo à luz vivências ambivalentes como as que lembra ter experimentado na relação com a avó-mãe, Pedro começa a sonhar com mulheres. Se a lembrança introduz um tempo histórico – o dele, o de nossa análise – o sonho introduz a antecipação, a prospecção.

Pedro sonha constantemente que está voltando para Floresta, onde viveu com os avós que o adotaram. E se espanta de não precisar tanto visitar suas mulheres: nesse período só uma se mantém, a qual também logo é deixada. Suas atuações parecem estar cedendo lugar às simbolizações. Diz:

Estou namorando menos e sonhando mais. ... Tem gente que não acha importante sonhar. Mas para mim, sonhar é como se abrisse uma esperança. Hoje eu sonhei que estava indo para Floresta. Tinha comprado uma moto e ia casar: eu tinha feito uma casa para mim na fazenda do meu avô.

Pedro, apropriando-se de sua força masculina (moto), pode agora se casar (por ter aceitado o casal) e pode ter casa (continência para abrigar conteúdos mentais).

Da ação ao sonhar, rumo ao pensar

Quando Pedro, das atuações com mulheres, passa a sonhar com mulheres, estas aparecem de um modo menos concreto e sensorial: são companheiras, têm mais ou menos a idade dele e nesses sonhos ele "pensa" (Bion, 1962) em suas ambições para a vida adulta, como trabalhar, casar, construir uma casa. Acredito que, após um ano de análise, Pedro foi tornando-se mais continente de seus afetos, muitos deles vindos à luz em nosso diálogo. Afetos aceitos e representados, "compreendidos" (Bion, 1959) por ele, agora com uma capacidade mais estável de "autocontinência" emocional (Meltzer, 1975). A apropriação dessa capacidade de conter emoções vitais pode ser evocada pela metáfora de um "balde", que aparece numa narrativa-sonho, após um ano e meio de análise:

"O balde emborcado" (17 anos e meio)

1. PEstranho, ultimamente não ando pensando em mulher... (Pausa). As meninas não querem namorar, só querem ficar... Aí não dá certo. Eu nunca fico só por ficar.

T – Acho que aqui você gostaria de "ter um namoro firme" com nosso trabalho, mas tem uma parte sua que "só quer ficar": a parte que não o leva muito a sério, que esquece de vir, que falta... (Pausa). Assim, a gente fica na superfície, não vai mais fundo.

P – Buscar o que perdeu...

2. T – Buscar o que perdeu?

P – As lembranças... Lembro uma vez que eu estava com meu tio Nino lá brincando, aí não sei quem foi embora e fiquei chorando para ir junto. Daí ele falou: "Não, não vai não!". (Pausa) Fiquei lá, chorando, e ele não quis deixar eu ir... (Pausa) Tem muita coisa para tirar lá do fundo. É que nem o fundo de um poço... (Pausa) A Beth (mãe) diz que sonhou que eu caí no poço lá de Floresta e morri. O pior é que eu sonhei também, antes de ela me contar. Sonhei que caía dentro do poço e lá dentro eu ficava. No sonho, eu me afogava, não sabia nadar. (Pausa).

3. PUma vez, entrei dentro desse poço, com uma corda amarrada em um pau que tem uma manivela: os meus tios rodavam ela. Desci sentado em outro balde para tirar um balde que tinha afundado porque a corda quebrou. Acho que eu tinha de uns 13 para 14 anos. Meus tios não conseguiram tirar o balde: eles tiram quando o sol do meio-dia bate bem no meio da água, com um gancho. Mas desta vez não conseguiram: o balde tinha virado e emborcou. Ele estava bem emborcado. Aí eu falei: "vou descer".

T – Às vezes a gente precisa mergulhar lá no fundo, e é por isso que tem este nosso trabalho aqui, para ajudar você a recuperar coisas lá no fundo de você, para não se perderem. Para descer no fundo do poço, é preciso ter um companheiro confiável que desenrole a corda. Se não tiver um companheiro para ajudar você a voltar, você pode ficar perdido.

4. PAí tenho que subir pelos buracos da parede. Se não conseguir, posso até morrer.

T – Então, mesmo que você possa sair sozinho, é sempre uma garantia ter um companheiro. No caso de nosso trabalho, em que você vai para dentro de sua vida mental para "desemborcar" coisas, este companheiro também pode ajudar a pensar sobre o que elas significam para você...

5. PEstava pensando numa vez em que vi perfurarem um poço. Tinha aquelas pedras grandes, tinha que furar e depois colocar banana de dinamite para explodir. Tinha que deslocar a pedra para chegar na água.

T – Só você pode deslocar a pedra. Eu não vou forçar você a me dizer coisas que você não quer dizer, como quem coloca banana de dinamite na pedra. Por outro lado, tem coisas que estão escondidas até de você, como água que está embaixo de uma pedra.

6. P – Até a pedra sair dali. ... (Pausa) Estava pensando quando era pequeno: estava acostumado a ver uma pessoa todo dia, depois não vi mais. Como é isso de sumir assim de repente? (Pausa) Agora eu penso nos meus pais: meus avós João e Maria. Eu sumi de lá. Tenho que arrumar a minha vida e tentar ajudar eles. (Silêncio).

T – Você tem de estar preparado, daí você pode ajudar.

PIsso é. (Pausa) Feito um cara lá que tinha uma oficina, tinha dinheiro, mas não tinha cabeça: é daqueles caras desandados da vida.

T – O que quer dizer "desandado da vida"?

PUsuário. De craque. Do pior que tem. Deixa a cabeça feito uma geleia. Ele foi internado para ver se conseguia largar, mas brigou lá dentro e saiu: no mesmo dia que saiu, já fumou. (Pausa) E ele não é velho, não. Um coitado desses só mesmo Deus para ajudar, porque outra coisa acho que não ajuda não.

A sessão termina, com associações dele sobre o perigo de "desandar": de cair num vício, como a bebida, e não se recuperar...

Relaciono esse perigo com o medo dele de querer ficar grudado à mim, como uma criancinha dentro da mãe, sem nascer: ele morreria. Mas que há nele uma força para sair – que é algo que ele percebe que tem que partir dele, que ninguém pode fazer por ele – como o bebê tem que fazer força e encontrar caminho para sair para fora da mãe e nascer. Assim como a mãe precisa ajudar. Senão, ele morreria e a mãe também.

Comentários:

Estes comentários, que seguem passo a passo o transcorrer da sessão, sintetizam muito do trabalho analítico que se seguiu à emergência deste sonho-relato produzido por Pedro.

1. Ele começa a sessão dizendo precisar de uma relação firme, uma relação "bem amarrada" comigo (para descer até o fundo de si mesmo: o poço).

2. Nessa "busca de si mesmo" o que primeiro emerge é a lembrança da separação de alguém muito importante, e a dor sentida, ainda muito criança. Uma dor dura, perdida, como o balde que desamarrou e caiu duro, no fundo do poço... O balde é a mãe perdida. O balde é ele, desamarrado da mãe, vivendo como uma morte psíquica, morte de self, abandonado no escuro: ele sonha ter morrido no fundo do poço, o mesmo sonho da mãe que o acreditou perdido para sempre para ela... Ele não pode, como a criança de Freud (1920/1976), representar a ida e a vinda da mãe ao jogar o carretel e o puxar: rompeu-se a ligação entre ele e o objeto, e rompeu-se abruptamente.

3. E é ele quem tem a iniciativa: tanto de recuperar o balde, como de vir para São Paulo encontrar a mãe. Vem ajudado pelos tios, como estes o ajudam a "descer o poço" através do "balde amarrado à corda", sustentado pelo pau da manivela articulada por eles. Penso que esta metáfora representa, neste momento, a firmeza de nossa relação, assim como a confiança depositada em mim. Ele sabe que tem recursos escondidos, sabe que pode desenterrar o "balde", mas não sabe o que vai acontecer. Será que poderá contar comigo para sair do poço? Ou será que ficará colado a mim, como o balde no fundo do poço?...

4. Para se defender de ficar grudado a mim (o que também deseja), ele, quase maniacamente, fala da possibilidade de "sair sozinho" do poço, sem minha cooperação.

5. Após se defender do medo do engolfamento desejado por ele (ou por mim na sua fantasia) Pedro traz o medo da minha intrusividade.

6. Quando lhe digo que não vou atender ao seu pedido para ser intrusiva, que vamos caminhar a partir da compreensão tolerável para ele, no ritmo dele, ele põe em palavras a indagação crucial, até então não formulada: "Como pode uma pessoa sumir de repente?", colocando-se agora não só passivamente, como o menino que é deixado, mas também ativamente: como a pessoa que deixa os avós que cuidaram dele e se sente responsável por eles. Quem sabe a mãe também não o teria deixado para conseguir melhores condições para voltar e cuidar dele? Pedro formula a intenção de se cuidar, para um dia poder retribuir os cuidados que lhe deram. Pedro não quer ser alguém que "se perde": que "cai no fundo do poço e não tem mais volta". E traz sua ansiedade profunda, de "desandar": cair num vício e não prestar nem para si nem para os pais-avós, como um balde perdido para sempre no fundo de um poço, referindo-se a seu medo de ficar aderido à mãe primária, no fundo do útero...

Saber e compreensão insaturada

Penso que Pedro começa a perceber a importância da compreensão da experiência, mesmo que esta seja lenta e sempre inacabada, sobre o "saber" da fantasia onipotente. Este, no meu entender, aparece nas metáforas: dos tios que "sabem" tirar o balde ao sol do meio-dia, dele que "sabe" sair do poço sozinho, de mim que "saberia" dinamitar e remover a pedra que tapa seu manancial mental. Mas é no reconhecimento de que "nem sempre os tios conseguem", que estes podem "não saber", é que ele vai se expor pessoalmente ao perigo da descida regressiva até o fundo do poço para recuperar o balde. Perigo de deixar de ser o "poderoso" (com suas atuações defensivas) e ir ao encontro de sua parte "meninoabandonado" e desvirá-la, com todas as dores e raivas que poderão emergir violentamente, para serem compreendidas verdadeiramente (C).

Mas se a intenção é recuperar o balde (o objeto e ele próprio), o medo de seus próprios afetos ambivalentes que virão à tona o faz temer querer ficar para sempre como um bebê não-nascido, grudado a mim, o que seria paralisação de crescimento psíquico para ambos, morte da análise: ele ficaria para sempre com uma parte de si mesmo "emborcada", como um continente virado sobre si mesmo, o que levaria a distorções no conhecimento (-C).

A partir de material trazido nas sessões seguintes trabalhamos sobre os ambivalentes sentimentos transferenciais expressos por ele tão claramente nesta sessão: a esperança de que eu coopere com a sua vida e o seu crescimento, o pavor e o desejo de ficar colado a mim, como o balde no fundo do poço. O adolescente de quase 18 anos traz à tona como que os temores, angústias e desejos de uma criancinha de 18 meses, que precisam ser nomeados, pois, anônimos, ficarão paralisados, impedindo o uso de seu manancial mental...

Terceiro período (dos 18 aos 18 anos e meio)

"Como desprender-se do menino e assumir seu destino de rapaz?"

Ao receber, no dia em que faz 18 anos, o telefonema do pai para passar as férias do final do ano com ele, Pedro começa a trabalhar as ansiedades em relação a este encontro. Ele conta que o pai "tem a voz grossa e me chamou de rapaz".

Na última sessão dessa semana lembra que a mãe deixou para ele, na casa da avó, além do copinho de plástico, um carrinho para brincar:

PEu tinha também um carrinho que andava sozinho, um jipinho: batia na parede e voltava, batia de novo e voltava. A Beth deixou com minha avó e minha avó deu para eu brincar. (Pausa) É duro...

T – É duro, é doloroso, um menino que já sabe andar procurar a mãe e não a encontrar, procurar por outro lado o pai e não o encontrar... Agora, no fim da semana, além de se perguntar aonde andará a Teresa, você vai se perguntar: aonde andará o meu pai, esse homem de voz grossa que me chama de rapaz?

Ele conta que imaginava que sua mãe o deixara para voltar a viver com o pai, mas que na verdade ela sofrera muito, pois seu avô não a deixara ficar em Floresta para não desencaminhar as tias, por ela ter tido um filho sem se casar e ser assim uma mulher "perdida".

Digo-lhe que ao imaginar que a mãe o deixara para viver com o pai, deveria ter sentido muita raiva dela, como sentia de mim ao deixá-lo, como neste final de semana, para ficar com meu marido. E raiva também por ficar com meu marido só para mim, como ele imaginava que sua mãe havia feito, distanciando-o do pai...

Pedro diz que sentiu raiva por muito tempo. Mas que depois ficou com dó da mãe, quando soube a verdade.

Digo-lhe que talvez, ao saber a verdade, quis resgatá-la, como fez com o balde "perdido". Que deveria então ter se sentido culpado por ter tido tanta raiva dela, como sente quando vou embora e ele não pode fazer nada...

Pedro fica em silêncio, como que pensando no que acabáramos de falar e então, quase ao final da sessão, lembra-se de um filme:

POntem eu assisti o filme O rapto do menino dourado. É um menino careca que tem poder e é raptado por um velho e depois é salvo por um herói. Para os da terra do menino ele era um Deus, então os do mal o roubam e o prendem numa gaiola. No filme não falam se ele tem pai ou mãe. Queriam que ele tomasse sangue, aí eles o poderiam matar. Tentam, mas ele não bebe. Jogavam borboleta morta dentro da gaiola, passarinho morto: ele encostava o dedo e eles saíam voando. Só comia uma folhinhas de mato que tinha trazido com ele, uma cada dia.

T – Que idade ele tinha?

PUns 13 anos, não era criança não. O cara do mal se transformava em demônio e só morria com um punhal que estava numa sala escura, que não tinha chão. O herói tinha que andar por cima de uns paus que se mexiam, levando um copo de vidro com água e não derrubar, e beber quando chegasse para pegar o punhal e matar o demônio...

T – E o que impressionou mais você no filme?

PAcho que tudo. (Pausa) Acho que quando prenderam o menino e ele nem se mexeu.

T – É como você. Você se sente preso aqui, longe de Floresta, alimentando-se com as lembranças que guarda de lá, que nem o menino com as folhinhas que trouxe da terra dele. Você gostaria de já ser adulto como o herói: de carregar o copo de vidro sem derrubar, procurando seu caminho no escuro e conquistar sua força de homem, como o herói conquista o punhal.

P(Silêncio) Pegaram o menino, colocaram dentro da gaiola e ele não falou nada... Quando eles o prenderam, ele estava lá com os caras que acreditavam que ele fosse o Deus deles. (Pausa) Esses é que elegeram o herói para salvar o menino. Quando o Eddie Murphy perdeu a chave do carro, o menino enfiou o dedo no contato e o carro andou. Tinha um portão grande de ferro, igual ao daqui, com um cadeado: o menino pôs o dedo na cabeça e o portão abriu.

T – Era bom ser esse Menino Dourado, não? Punha o dedo na cabeça e o portão já abria... Você não precisava apertar a campainha, esperar que abrissem...

PO menino passou por uma frestinha e o Eddie Murphy perguntou: "Vai me deixar aqui?" Ele fez um gesto, o portão abriu e o Eddie Murphy passou.

T – Agora já está na hora de você ir embora, passar o portão. Quem sabe você não gostaria que eu falasse: "Vai me deixar aqui?", para eu ir junto com você?

PIsso só acontece em filme... – ele diz rindo.

Comentários:

Ao falar do copinho e do carrinho, penso que ele está se referindo a suas capacidades como menino: a primeira, representada pelo copo plástico, de conter de maneira flexível, como uma pessoa individualizada, sentimentos e pensamentos; a segunda, representada pelo pequeno jipe: sua força masculina já organizada e com uma direção, que lhe possibilita ter iniciativas, mostrando sua identificação com o pai, como homem. Quando no final diz: "É duro" e silencia, imagino um menino muito pequeno que, embora no seio de uma família que o adota, se sente de repente sem a mãe e sem o pai. Tudo o que lhe resta é um copinho de plástico e um jipinho, e uma dor, que bate na parede e volta, bate de novo e volta, anônima, assim como os sentimentos que a acompanham...

Nomear seus sentimentos bons e maus e resgatá-los, assim como as situações originais a que pertencem, é tarefa primordial da análise. Integrar essas experiências iniciais ao seu self o tornará mais forte para enfrentar tarefas futuras, tais como o encontro com o pai, que se avizinha. Ao lembrar o "copinho plástico" e o "jipinho", Pedro parece estar inventariando os recursos que tem para prosseguir rumo ao seu futuro. Embora esteja se encaminhando para a conquista de sua masculinidade, como rapaz, precisa ainda refazer relações primárias: é por isso que o "herói" ainda guarda algo de onipotente. No meu entender (cf. Blos, 1982), ele precisa reviver comigo uma relação diádica com o pai idealizado, protetor; uma relação pré-competitiva, para restabelecer a confiança básica como homem que o pai e o avô lhe proporcionaram ao amá-lo e ao se orgulharem dele na infância inicial. Assim, poderá enfrentar as ansiedades relativas ao pai "mau", advindas de suas próprias fantasias ou das emoções negativas inconscientes, que poderão surgir na relação com o pai, o padrasto e outras figuras paternas. Somente após a reelaboração desta relação primeira com o pai é que Pedro, fortalecido, poderá lutar contra a passividade da submissão ao pai. Somente após revisitar a identificação primária com o pai, é que vai poder des-idealizar esse pai e se desprender da passividade à sua proteção onipotente. Somente após a evolução do complexo de Édipo negativo é que a posição positiva pode ser naturalmente alcançada. Blos diz que o ideal de ego adulto é "uma agência de aspirações autônomas; como tal é cuidado como um estimado atributo da personalidade, cuja origem arcaica baseia-se no apego ao pai, na identificação paterna, ou, em resumo, no Complexo de Édipo Negativo; isto é, o Ideal de Ego adulto é o herdeiro do Complexo de Édipo negativo" (Blos, citado por Breen 1993, p. 62).4

Há então o perigo do "sequestro" dele como "menino", não só pelos do "mal" (os que querem que "beba" sangue: a parte dele que se entrega à bebida), como pelos do "bem": a parte dele que quer ficar eternamente sob a proteção do pai-primário idealizado, como menino, ou ficar numa relação idealizada comigo, numa infância dourada idealizada...

Pedro quer ser como o herói: levar, como um adulto, um copo de vidro sem quebrar através de chãos incertos e beber água desse copo, para atingir sua masculinidade. Mas o herói não é tão onipotente como o menino: é livre e enfrenta o perigo com coragem, lutando e enfrentando frustrações da realidade.

Numa sessão posterior ele conta que no filme há também um velho que sempre acompanha o herói, embora não possa fazer as tarefas que este tem que fazer. Relaciono-o então a mim, ao avô-pai, que o acompanhamos em seu crescimento, embora o caminhar seja dele, na sala-escura-de-chão-incerto que é a vida...

A partir do material trazido por Pedro em sessões subsequentes, evoco as cenas do filme trazidas por ele nesta sessão, para trabalharmos na transferência seu desejo e temor de ficar para sempre o menino dentro da mãe (como o balde emborcado), o menino sob a proteção do pai-avô (na gaiola) e a intenção de se arriscar e crescer, levando o que recebeu da mãe (água, alimento psíquico) com o cuidado de um jovem adulto (num copo de vidro) e usar esses recursos para atingir a sua masculinidade adulta (a posse do punhal).

O trabalho de desidealização na adolescência

O adolescente precisa desidealizar o adulto pré-genital, desprender-se da proteção onipotente das imagos pré-genitais, para andar pelos caminhos da realidade. No meu entender, quando Pedro traz o filme, é para contrastar com a realidade: "só acontece em filme..."

Quando aos 13 anos Pedro sai da proteção do pai-avô, penso que faz um movimento exogâmico, como Édipo ao deixar a casa dos pais adotivos: é homem já e o quer ser fora da casa materna-paterna. Mas nesse movimento, há o retorno à mãe primária, que o gestou e criou até os 18 meses, e o perigo da fusão-morte no útero materno (poço). E há o perigo do incesto com essa mãe-moça, sempre buscada. Contra este, Pedro atua contrafobicamente tendo várias mulheres mais velhas, não agindo como Édipo.

O novo movimento exogâmico, no meu entender, é a vinda para a análise: para, no exílio da não atuação sensorial, poder ver o que faz, o que sente, o que lembra, e poder, pouco a pouco, ir-se situando, e às figuras familiares internas. Ir assim abrindo caminho para a vida com a ajuda de pais internos que o convidam a pensá-la realisticamente.

Não sem antes revisitar as imagos pré-genitais, como tais, como para se certificar que continuam em algum lugar de sua mente, como repertório, como que para tirar alento para prosseguir, com esperança, em direção a novos caminhos.

Os dois últimos sonhos

Apresentarei agora trechos de uma sessão de dois meses após, uma primeira sessão da semana, às vésperas das férias de verão em que Pedro irá conhecer o pai. Ele traz dois sonhos em que representa vivamente a nossa relação.

Primeiro sonho: a lagoa com pessoas conhecidas (ou: "Banhando-se nas águas do pai primário em direção a futuros encontros").

Logo ao entrar, depois de um curto silêncio, Pedro conta que o zelador de seu prédio quase sofrera um acidente pois "quebraram os dois primeiros degraus de uma escada muito alta em que subira. Por sorte ele tinha amarrado bem a escada no prédio. Ele ficou pendurado, mas não caiu. Imagine se ele não tivesse amarrado!"

Digo-lhe que ele também sente que é perigoso "ir para cima" e crescer, quando teve tantas dificuldades nos primeiros degraus da vida, mas que sente confiança na nossa relação, sente-se bem "amarrado" e amparado para zelar de seu prédio mental, cuidar de seu crescimento psíquico. Após um curto silêncio, ele diz:

PLembro de um pedacinho de um sonho. Estava nadando não sei com quem num rio cheio. Entrava no rio, aqui em São Paulo e saía numa cachoeira igualzinha à que tem em Floresta, perto do sítio do meu avô. A correnteza da água era forte. Eu sei que caía na cachoeira junto com essa pessoa – não sei se era homem ou mulher – saía numas pedras. Entrava no rio, nadava, caía em outra cachoeira. Depois essa cachoeira dava numa lagoa com todo mundo tomando banho, e eu também. Não sei se acordei, ou o sonho acabou... As pessoas eram conhecidas, só que não lembro quem eram. Tinha mais velho que eu. Tinha criança também... Hoje eu tentei lembrar quem eram, não consegui... Estava todo mundo nadando, muito contente. (Pausa).

Interpreto que ele estava muito contente de poder prosseguir em seu caminhar como homem, sentindo-se acompanhado e acolhido por mim como o fora por seu avô na infância. E que, sendo assim, tinha esperança de ser bem acolhido na terra de seu pai (famosa por ter uma cachoeira e um grande lago). Digo-lhe que ele podia perceber que havia várias gerações: a de seu avô, a de seu pai, a dele, a das crianças. Mas ele gostaria que todas estivessem se banhando nas mesmas águas, que não houvesse muita diferença entre adultos e crianças.

Ele contesta que "lá não tem piscina de adulto e criança, como aqui", rindo.

Respondo-lhe que aqui, na nossa relação ele percebe quando está sendo mais criança ou mais adulto, e também percebe que eu sou de outra geração que a dele. Mas no momento ele parece estar me comunicando a alegria de que eu possa compartilhar com ele do contentamento de ter sido convidado pelo pai para ir à terra dele e da esperança de ser bem recebido. Mas ele sabe que isso ainda é um "sonho" e que a realidade pode ser diferente...

Segundo sonho: a rua com pessoas desconhecidas

Em seguida ele relata um outro sonho:

Está caminhando por uma rua cheia de gente desconhecida, numa manhã ensolarada, e encontra uma mulher "adivinha" que lhe fala de seu futuro e das coisas boas e más que podem lhe acontecer. Ele está com tanta pressa para ir em frente que nem para para agradecer à mulher.

Interpreto que quando ele me vê como uma mulher que cuida dele, precisa partir com pressa, pois teme que, além de gratidão, possa emergir muita raiva de mim por deixá-lo fazer sozinho seu caminho, não lhe dando minhas invejáveis capacidades que ele imagina que o protegeriam de qualquer dor no enfrentamento da realidade, de tudo o que pudesse lhe acontecer no futuro, no próximo encontro com o pai, por exemplo.

Ele parece se entristecer. E, a partir do sonho, traz associações sobre a possibilidade de antecipações para que não aconteçam coisas desagradáveis, como ser posto fora de casa pela mãe se chegar bêbado.

Interpreto que ele parece temer que se desejar ficar numa relação comigo como uma criancinha pequena que só "mama", eu o mande embora da análise. Mas ele parece estar reconhecendo que para crescer é preciso deixar de querer só "mamar" e olhar para a raiva que tem de mim quando me vê como diferente dele, como mulher e adulta, como uma mãe que não é adivinha, mas que pode antecipar-lhe coisas da realidade. Que então, com medo de viver essa raiva, ele se afasta, para não me destruir, para não se destruir, com a violência dela...

PÉ, não é mole, crescer...

Digo-lhe que não é mole sair de uma situação paradisíaca como a do primeiro sonho "que acabou" de repente, em que ambos estamos flutuando dentro d'água como crianças dentro do útero, e "acordar" para uma situação como a do segundo sonho, em que ambos andamos sobre nossos pés, pensamos com nossa própria cabeça (Alvarez, 1996) e conversamos sobre a realidade, como a mulher e ele, indo depois cada um para o seu destino...

A sessão está terminando e ele sai, dizendo: Quando não dá para agradecer pessoalmente, dá para telefonar, não é?

Penso que está sendo sincero em dizer que, neste momento da análise, pode ficar grato de longe (tele), pois na proximidade, no quente da sessão, teme ainda ou o desejo (dele, meu) de fusão, ou os sentimentos destrutivos que poderão advir pelo fato de ele no segundo sonho já me ver como mulher (no primeiro sonho eu era "alguém", que o seguia) ou por invejar minhas capacidades enormes (de adivinha). Por outro lado, penso que ele também quer me comunicar que já mantém internamente a possibilidade de um "fio" de comunicação comigo, como a criança do carretel (Freud, 1920/1976).

Penso que subjacentes às tarefas edípicas, de alguém que individuado dá os próprios passos em direção a seu destino, existem ainda elaborações em andamento quanto à capacidade dele de manter o vínculo com o bom objeto primário.

Assim como o feto chega a termo no recém-nascido, a criança no adolescente, este chega a termo no jovem adulto. (Bion, 1979) E no meu entender, cada um desses processos traz reelaborações psíquicas dos anteriores a serem refeitas por Pedro.

 

Expansões do continente mental:

o copo, o balde e o poço, a gaiola e a sala escura, a lagoa e a rua

O primeiro objeto psíquico, o mais fundamental, é o objeto continente, introjetado na relação com uma mãe com capacidade de rêverie (Bion, 1962). O pré-requisito fundamental para que seja utilizada com o filho é o "amor da mãe pelo pai". A mãe diz literalmente "nunca ter amado" o pai de Pedro. Diz que viveu um ano e meio com o pai por insistência deste e que teria criado seu filho sozinha. Assim, que disponibilidade teria tido a mãe para receber as primitivas projeções de Pedro, acolhê-las, compreendê-las e devolvê-las com um sentido emocional para ele? Como teria se dado a introjeção do primeiro continente emocional, proporcionada nas relações iniciais com a mãe, resultando na capacidade autocontinente de Pedro?

Bion (1970) diz que a configuração continente-contido é o mecanismo mais importante utilizado pelo psicanalista, derivando-se das posições esquizoparanoide e depressiva de Klein (1946). Em cada sessão o analista expõe-se pacientemente ao desconhecido (como ao caos da posição EP), até que um modelo evolua, proporcionando segurança (como a proporcionada pela posição D). É resistindo à tentativa de apegar-se ao conhecido que se pode alcançar o estado de "não-saber", associado a dor psíquica e tolerância à frustração inerentes ao contato com a realidade. É desse contato da realidade psíquica do analista com a do paciente que surge algo, firmemente, a ser formulado. Desde que analista e analisando considerem esta formulação como insaturada, como passo do trabalho analítico, este pode evoluir, sempre como passagem de segurança (D) à paciência (EP), e vice-versa (EP<=>D).

Hanna Segal (1997b) acredita "ser mais fácil pensar na transferência/ contratransferência em termos do modelo de Bion do continente e do conteúdo. O paciente projeta para dentro do analista partes não assimiladas e não elaboradas de seu mundo interno, como na descrição de Bion do bebê projetando elementos beta para dentro da mãe. O analista tem uma resposta emocional a elas, mas também uma compreensão, e a contenção é essa compreensão. Se isso puder ser transmitido ao paciente, num momento propício, os elementos beta serão modificados pela capacidade do analista de conter os sentimentos, compreendêlos, e transformá-los em elementos alfa passíveis de serem usados pelo paciente. Eu enfatizaria que o elemento essencial da continência é a compreensão do analista." (p. 125)

O copo

Ao fim do primeiro semestre de análise, Pedro traz a narrativa do copo-de-vidro e do copo-plástico perdido e recuperado. Se tomarmos esses copos como a representação do primeiro continente mental de Pedro, a representação deste objeto continente oscilaria entre: um continente frágil, ameaçado de se quebrar, "explodir" até, ou um continente flexível mas ameaçado de ser perdido ("o vento levou"), porém passível de ser recuperado.

Na relação primária com a mãe, há ainda, como conteúdo, a sexualidade não-reprimida, mas desbordada. Se é a mãe quem funda a sexualidade inicial (Laplanche, 1987), quando criança Pedro é marcado pelo padrão materno: ele próprio é fruto do transbordamento da sexualidade dos pais (estavam embriagados ao concebê-lo). É esta sexualidade atuada que vai aparecer no segundo semestre do processo analítico, onde então pode adquirir um "contexto narrativo" ao ser interpretada tanto quanto a possibilidade de testar contrafobicamente o temor de sua sexualidade sentida como "explosiva", desmesurada, como seu desejo de criança que perdeu a mãe, de ser capaz de "possuir" o corpo da mãe e assim mantê-la sempre, nunca perdê-la. Aqui "a compreensão do conteúdo afetivo" primitivo dessas atuações, vai dando "prosseguimento ao processo analítico" (Laplanche e Pontalis, 1973), onde os vínculos podem deixar de ser concretos e atuados, e passam a ser "sonhados".

O balde e o poço

Já com uma capacidade de autocontinência emocional mais estável, Pedro pode simbolizar seus objetos internos e vínculos, "pensá-los". No final do segundo semestre de análise, Pedro é capaz de expressar seu sentimento de dor da separação de alguém que vai embora, trazendo em seguida o sonho-narrativa do "balde emborcado". Penso que ele "fala" ricamente de nossa relação: o "outro balde", no qual desce sentado para resgatar o balde perdido, poderia ser a minha capacidade de continência "não emborcada", já introjetada por ele, que poderia ajudá-lo a enfrentar os sentimentos violentos que poderiam advir no resgate de sua parte paralisada, emborcada, ao ser desvirada: um continente cuja compreensão seria distorcida pelo ódio. Uma capacidade de continência em que prevalece o amor à realidade e compreensão amorosa, construtiva, podendo ajudá-lo a pensar e conhecer (C) aquilo que pelo ódio fora distorcido (-C), e que ficara "invisível" (O'Shaughnessy, 1989), escondido até dele, lá no fundo de sua mente, por detrás do balde emborcado, da mãe perdida... Ajudá-lo a resgatar assim uma parte dele paralisada, sem uso, amortecida, para poder integrá-la a seu self e fortalece-lo, após o verdadeiro enfrentamento dos primitivos sentimentos soterrados há tanto tempo, sentimentos relativos à ruptura da relação primária, sentimento de abandono e exclusão relativos ao Édipo precoce...

E Pedro "fala" também da sua iniciativa própria, tanto para "descer" (ele é que decidiu) quanto para "subir". Penso que aqui, além de um lado contrafóbico, há uma constatação de que a decisão e a iniciativa de sair do poço (nascer psiquicamente) tem que ser dele.

O poço, como continente de um manancial de água viva, funcionando com todos os seus componentes, pareceu-me ser uma representação fina da compreensão dele, neste momento da análise, do que é o psiquismo.

Preso na "gaiola", ou livre para andar com o copo de vidro numa "sala-escura – com-chão-incerto", até pegar o punhal

Através do filme The Golden Child (Ritchie, 1986) Pedro "fala" de um continente apertado: é a gaiola (e a passividade) de menino pré-edípico, da qual precisa sair, com a ajuda de um "herói". Ele agora representa sua aventura de apropriação de seu continente mental e de seus conteúdos, através da "façanha" do herói que leva um copo de vidro com água para beber quando chegar ao punhal, dentro de um continente sem solo firme, enquanto não atinge a masculinidade adulta (a posse do punhal). Sinto que neste ponto da análise ele me vê como o "herói" que o pode ajudar a se desprender da sua "gaiola" de menino que usa passividade ou onipotência para lidar com a realidade... Para libertar o menino ele conta também com sua própria iniciativa: ele, como o herói, teve a capacidade de suportar os perigos de enfrentar a escuridão do poço-mente, buscando o encontro com a realidade, (tanto externa quanto interna).

A oposição "gaiola"/"sala-escura-com chão-incerto" seria a oposição entre um continente conhecido restrito (claustrum – Meltzer, 1992) e um continente desconhecido e com chão incerto, ambos ameaçadores.

Todos esses elementos da narrativa de Pedro foram usados como metáforas, evocadas por associações dele, em diálogos subsequentes. Assim como o feto chega a termo e sai do útero (na metáfora do balde emborcado resgatado por ele, que passa então a poder fazer uso dessa sua parte bebê até então excindida: a continência de seus aspectos de amor e de ódio, de vida e de morte), o "menino dourado" precisa sair da "gaiola" quando a infância chega a termo na adolescência. E apenas atingida esta, já o processo de tornar-se adulto está em andamento. Despedindo-se da infância, Pedro antevê o término da adolescência. E todos estes lutos, desde o primeiro, alternam-se no material trazido por ele.

"Meninos e meninas douradas vão para o pó, como os limpa-chaminés"5 (Bion, 1979, p. 436 – cf. Shakespeare em Cymbeline): para que a chama de nossa vida mental singular possa se alentar, é preciso que se desobstrua o espaço entre ela e o ar fresco da realidade, para que este venha animá-la verdadeiramente, mesmo sabendo que algum dia, quando ela se extinguir, dela só restarão cinzas...

Transmutação de ouro a cinza, de grandiosidade a humildade, pode ser sentida como catástrofe e exigirá paciência, até encontrar continência firme, sempre provisória.

Esta metáfora do "limpa-chaminés" parece-me traduzir com exatidão nosso ofício humilde e paciente de analistas, onde é fundamental a coragem de enfrentar situações confusas e deixar-nos "empoeirar" por elas até que, desobstruída um pouco a comunicação com a realidade (O), possamos oferecer algum "ar" ou formulação que realmente vivifique a chama mental do analisando e esta possa ganhar algum alento, assim como a nossa. O importante é a disponibilidade para entrar em contato com a realidade, é abrir o caminho para que seja acolhida (manter limpa a chaminé) e os resultados aparecerão: aqui uma chama mais iluminadora, ali outra nem tanto, mas todas mantendo acesas as nossas vidas mentais.

A lagoa e a rua

Acredito que, após três anos de análise, Pedro sente as "águas vivas" de sua mente fortalecidas pelo nosso vínculo que é como um rio onde ele pode recuperar o seu curso de menino, renascendo nas terras do pai-avô diádico, que é como ele me vê na transferência. Aí ele fortalece suas "águas" (confiança básica adquirida nessa relação diádica) para prosseguir em direção a futuros cursos, onde tem a esperança de renascer bem, amparado por uma lagoa (continente mental com solo firme) que contém muita vida, de várias idades.

O "sonho acaba" ou "ele acorda": acredito que, como quando fala numa sessão anterior: "Isso só acontece em filme", Pedro está cada vez mais distinguindo entre fantasia e realidade, podendo então utilizar seus sonhos não mais para refugiar-se onipotentemente neles, mas como projetos que poderão fortalecê-lo na relação com a realidade desde que esta seja levada em consideração.

Em seguida ele conta outro sonho em que conversa com uma mulher "adivinha", que ele encontra numa manhã ensolarada numa rua cheia de gente que ele não conhece, que lhe faz antecipações realísticas sobre seu futuro. Eles caminham um certo tempo enquanto conversam, depois se separam. Pedro diz que gostaria de agradecer à mulher, mas que segue adiante o seu caminho e não a vê mais.

 

Continência primária e continência psíquica "adulta"

Penso que os dois sonhos de Pedro falam de duas modalidades de continência: uma continência básica adquirida e introjetada nas relações iniciais com a mãe (e o pai diádico), cerne de futuras modalidades de continência que se caracterizarão por caminhar com liberdade rumo à apreensão do desconhecido, caminhar acompanhado de fé e risco (Bion, 1970).

O primeiro sonho de Pedro parece-me um sonho de "recapitulação" (Guillaumin, 1979) em que ele realça e junta vários momentos do curso de sua vida, passados e futuros, desde a "queda" na fazenda do avô (a primeira cachoeira que o conduz à Floresta) em que se assegura de que é acompanhado e acolhido (embora essa primeira queda tenha sido "dura": sobre pedras), o rio continua a levá-lo em seu curso, através de outras cachoeiras e lagoas, até desembocar na lagoa grande, cheia de gente conhecida.

Pedro percebe que o "sonho acabou", que é preciso "acordar" e partir rumo à vida adulta, como no último sonho: solto no mundo, numa rua cheia de gente desconhecida, caminhando com uma mulher que o reconhece e se interessa pelo que pode acontecer a ele, a quem ele é grato mas da qual se distancia.

 

Narrativas e sonhos que "viram a página": marcos de mudanças psíquicas estruturais

Penso que algumas narrativas e sonhos de Pedro são como "sonhos que viram a página" (Quinodoz, 1999, 2001). Se a principal característica destes é a intensa reação de ansiedade do sonhador, alguns sonhos e narrativas de Pedro trazem esta marca, desde a do "copo", como a do "balde emborcado", assim como a do "menino dourado preso na gaiola": a cena do filme que mais impressionou Pedro.

J.-M. Quinodoz (1999) diz que tais sonhos coincidem com uma fase de integração, quando retornam ao self projeções indesejadas anteriormente expelidas por identificação projetiva no mundo interno e externo, atingindo o ego integração dos afetos de amor e ódio em termos de self total e objeto total. Há então aumento de ansiedade, confrontandose o ego momentaneamente com o medo de confusão e loucura.

Se aproximarmos estas observações das observações de Freud (1893-1895/1974) sobre o processo adolescente e das ideias de Bion sobre mudança catastrófica, podemos conjeturar que a cada mudança estrutural corresponde uma capacidade continente que, ao chegar a termo, abre-se para outras, ante-vistas, como quando um horizonte é atingido e então se descortina a existência de outros, inumeráveis...

Voltando à análise de Pedro, cada vez mais percebo que as narrativas e sonhos selecionados por mim (ou expressos vivamente por ele, e nesse sentido, sendo "fatos selecionados" de seu material), dão conta, o mais realisticamente possível das "viradas" de sua análise ou das "e-voluções" de sua capacidade de contenção psíquica e consequentemente, de sua personalidade...

O sonho da "rua" mostra a ansiedade de Pedro, mas também a alegria ao se perceber separado, sem as qualidades onipotentes atribuídas à adivinha, caminhando entre desconhecidos, de acordo com sua singular destinação, com seus próprios pés, no chão de uma clara manhã, sob o sol da realidade...

Trabalhamos atualmente ainda os extremamente ambivalentes sentimentos de Pedro entre agradecer e reconhecer a separação ou temer ficar grudado e/ou destruir nossa relação. As ansiedades do umbral da posição depressiva (Klein, 1946) colorem o processo analítico e este prossegue.

Ele cada vez mais percebe a sutileza da intimidade entre duas pessoas e isso o assusta: a imagem do copo de vidro tem aparecido agora nas associações de Pedro para representar a capacidade adulta de lidar com relações delicadas, "duras", em oposição às relações "moles" – como o copo de plástico flexível à boca... Por aí se depreende a importância da flexibilidade da continência primária, subjacente a todas as outras: se a realidade é "dura", que o analista seja compassivo e pacientemente possa respeitar o ritmo de tolerância do analisando, a cada momento de e-volução, com suas dores inevitáveis e sucessivos rompimentos de continente (mudanças catastróficas, Bion 1965). Pois, como bem lembra Bion6 (1970, p. 373): "não sabemos onde os confins da mente estão, nem onde os impulsos começam..."

Ainda há muito trabalho a fazer, na transição de Pedro a sua vida adulta. Cabe-me acompanhá-lo, com viva escuta psíquica.

 

Referências

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Endereço para correspondência

Teresa Rocha Leite Haudenschild
[Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo SBPSP]
R. Tomé de Souza, 1029 | City Lapa
05079-200 São Paulo, SP
e-mail: haudenschild@sti.com.br

 

[Recebido em 30.9.2010, aceito em 29.10.2010]

 

 

1 Prêmio "Niños y adolescentes" do XXVIII Congresso da FEPAL, em Bogotá, 2010.
2 Analista didata. Analista de crianças e adolescentes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo SBPSP.
3 If the geometer's concept of space derives from an experience of "the place where something was" it is to be returned to illuminate the domain where it is in my experience meaningful to say that 'a feeling of depression" is "the place where a breast or other lost object was" and that "space" is "where depression, or some other emotion, used to be". (Tradução livre da autora)
4 An agency of autonomous aspiration; as such it is guarded as a cherished and beloved personality attribute whose archaic origin lies in father attachment, father idealization or, briefly, in the negative complex, i.e., the adult ego ideal is the heir to the negative Oedipus complex. (Tradução livre da autora)
5 Gold boys and girls all must
Like chimney sweepers come to dust.

(Tradução livre da autora)
6 We do not know where the mental boundaries are, nor do we know where the impulses commence.