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Ide

versão impressa ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) vol.47 no.79 São Paulo jan./jun. 2025  Epub 11-Jul-2025

https://doi.org/10.5935/0101-3106.v47n79.16 

Contrapontos

Paixão, essa moeda cósmica: a escrita apaixonante de Annie Ernaux*

Passion, this cosmic currency: the passionate writing of Annie Ernaux

Helena Cunha1 

Di Ciero1 

1Membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).


Resumo

Este artigo analisa a interseção entre paixão e dependência, destacando as semelhanças nos estados emocionais que ambos evocam. Com base na obra Paixão Simples (1991/2023), de Annie Ernaux, a autora examina a experiência da paixão, enfatizando a idealização do objeto amado e os conflitos internos entre Eros e Thanatos que revelam a vulnerabilidade inerente à entrega emocional. Além disso, o artigo ressalta a escrita de Ernaux como um ato político que desafia as normas sociais sobre sexualidade e desejo, convidando à reflexão sobre liberdade e os tabus que cercam a experiência feminina.

palavras-chave Paixão; Desejo; Eros; Thanatos; Narcisismo.

Abstract

This article analyzes the intersection between passion and addiction, highlighting the similarities in the emotional states that both evoke. Based on the work Simple Passion (1991/2023) by Annie Ernaux, the author examines the experience of passion, emphasizing the idealization of the beloved object and the internal conflicts between Eros and Thanatos, which reveal the vulnerability inherent in emotional surrender. In addition, the article highlights Ernaux’s writing as a political act that challenges social norms about sexuality and desire, inviting reflection on freedom and the taboos surrounding the female experience.

KEYWORDS Passion; Desire; Eros; Thanatos; Naricissism.

Em todos os tempos e em todas as religiões os amantes foram respeitados por isso: porque sobem à pira quando desabam nos braços um do outro. Os de verdade, você sabe. Os corajosos, os poucos, os escolhidos... Por trás de todo abraço de verdade se encontra a morte, com suas sombras, que não são menos completas que a irradiação das luzes e da felicidade. Por trás de todo beijo de verdade está o desejo secreto de aniquilação, o sentimento definitivo de felicidade que não regateia, que sabe que ser feliz é se extinguir por completo e se entregar a um sentimento, e sentimento não tem finalidade. Talvez por isso as antigas religiões e os antigos e heroicos poemas respeitem os amantes. No fundo da consciência dos homens reside a lembrança de que o amor foi um dia maior que as ramificações dos contratos sociais...

(Marais, 1949/2008, p.243)

Taquicardia, sudorese, alucinação, distorção da realidade, tremores, falta de ar, ideia fixa, obsessão, dependência. Sintomas que poderiam ser descritos como vivências experimentadas por alguém atormentado pelo vício das drogas ou acometido por algum distúrbio ansioso. Também, frequentes na pessoa apaixonada, cativa de todas essas sensações e sentimentos. Li, certa vez, que a comparação de tomografias de apaixonados com as de dependentes químicos revelou que as áreas cerebrais afetadas são as mesmas. Assim, como a droga, a paixão cria no sujeito apaixonado a ilusão de fusão - somos eu e você uma única coisa; portanto, sem você não tenho prazer, nada sou. Diz Freud (1930/1973a, p. 83) em O mal-estar na civilização: “No auge do sentimento amoroso, a fronteira entre Eu e objeto ameaça desaparecer.”

Annie Ernaux inicia seu livro, Paixão Simples, com o seguinte relato:

Desde setembro do ano passado não fiz outra coisa além de esperar por um homem: que ele me telefonasse e viesse a minha casa. Eu ia ao mercado, ao cinema, lavava roupa, corrigia trabalhos, lia, agia exatamente como antes, mas só conseguia seguir em frente porque estava acostumada a fazer isso tudo. A impressão que eu tinha, sobretudo quando falava, era de estar vivendo no automático... Minha conduta era totalmente artificial. As únicas ações que envolviam minha vontade, meu desejo e qualquer coisa da ordem da inteligência humana (prever, avaliar os prós e contras, as consequências) tinham relação com esse homem. (Ernaux, 1991/2023, p. 9)

Na primeira página do livro, encontramos uma crua descrição de uma cena de um filme pornográfico assistida por Annie. Já se anuncia algo não tão comum em nossa sociedade: uma mulher revelando com naturalidade seu desejo sexual. A narrativa, contudo, refere-se anatomicamente ao coito, numa exposição quase “asséptica”, desprovida de erotismo. Ao longo da leitura, entendemos a escolha do verso de Roland Barthes feita por Annie para iniciar sua narrativa: “Noux deux - a revista - é mais obscena que Sade.” Isto é, aquilo que é vivido por nós tem um motor muito mais pulsante do desejo, pois nos pertence e foi banhado pela nossa libido.

A maneira como essa experiência inebriante e deliciosamente enlouquecedora é relatada é tão honesta e universal que o leitor prontamente se identifica. Identificação que se dá, pois, a autora oferece ao leitor numa escrita nua, sem “purpurina” - cuja característica é a simplicidade denominada: escriture plate. A linguagem escolhida pela autora não possui ornamentos, é facilmente compreendida. Trata-se de uma maneira de não se afastar de seu pai, homem de origem simples e pouco cultivado intelectualmente. Nesse ponto, podemos pensar que é uma escrita solidária e que, embora seus textos sejam autobiográficos, o leitor neles se enxerga com facilidade.

Para a autora, escrever é um ato político e a linguagem deve ser usada como uma faca rasgando o véu da imaginação. Annie apoia-se no conceito de escrita grau-zero de Roland Barthes que explora a natureza da linguagem escrita e as convenções literárias. Barthes defende uma escrita pura, que elimina os excessos e ornamentos, buscando uma linguagem objetiva e democrática, evitando assim a subjetividade. Destaco, aqui, a generosidade da autora em seu processo de criação: não se trata de uma escrita exibicionista de um saber e sim de uma escrita genuína, que nos toca exatamente pela qualidade da experiência de verdade e honestidade nela contida. Uma narrativa que aproxima.

Penso que Paixão simples me parece um título quase irônico: nada há de simples quando estamos apaixonados. Nos estados passionais o conflito entre Eros e Thanatos se presentifica de forma intensa. A paixão pura e simples carrega a dor e a delícia secreta dos “avassalados”. Paixão avassaladora abriga em si a palavra vassalo, escravo, aprisionado por um sentimento, refém. Trago aqui um recorte da canção Avassalador de Lenine (2010), que invadia nossas casas à noite por causa da antiga novela, que considero uma fotografia da paixão:

Avassalador

Chega sem avisar

Toma de assalto, atropela

Vela de incendiar

Arrebatador

Vem de qualquer lugar

Chega, nem pede licença

Avança sem ponderar

Aquilo bate, ilumina

Invade a retina

Retém no olhar

O lance que laça na hora

Aqui e agora,

Futuro não há

Aquilo se pega de jeito

Te dá um sacode

Pra lá de além

O mundo muda, estremece

O caos acontece

Não poupa ninguém Avassalador

Chega sem avisar

Arrebatador

Vem de qualquer lugar

(Lenine, 2010)

Nesses versos, podemos localizar os ingredientes principais do apaixonamento: Idealização (invade a retina retém o olhar/ um lance que laça na hora/, aqui e agora futuro não há), uma referência à impulsividade e urgência do sujeito apaixonado. O fato do compositor ter escolhido a palavra “aquilo” para falar de paixão me parece uma escolha bastante acertada: Aquilo que vem do id. Aquilo que avança sem ponderar. Que reage em cadeia, incendeia, marcado por seu caráter de combustão. Acrescento que o verso final também pode ser entendido como “vende”, avassalador vem de qualquer lugar - no sentido de se vender qualquer lugar ou qualquer coisa: os apaixonados não medem esforços em troca de seu vício, a pessoa escolhida. Tudo fica em segundo plano.

Nessa música, observamos a força dominante da paixão como quem encontra um exame de uma doença se apossando de um corpo. Derivado da palavra grega pathos, a paixão significa excesso, sofrimento, assim como no latim a palavra paixão também deriva de passus, que designa sofrer. Como representação de um sentimento intenso, a paixão tem a sua iconografia relacionada ao imaginário amoroso. No entanto, a paixão é tida como um estado de emoção agudo, sendo bastante associada à atração, ao desejo sexual, à luxúria e ao romance.

No filme Todas as mulheres do mundo, o protagonista Cabral (alter ego do diretor Domingos de Oliveira) refere-se à paixão como a única moeda cósmica ofertada pelos deuses aos homens. Mas essa tal moeda custa caro para o Eu. No estado passional, o tempo do sofrimento excede consideravelmente o tempo do prazer. O outro, objeto da paixão, satisfaz tanto Eros, no prazer sexualizado de encontros reais ou imaginários, como Thanatos. Piera Aulaigner (1984, p. 180-181) situa a paixão amorosa no mesmo plano das adições a substâncias e jogos, uma vez que carregam em si o mesmo modo de relação com o objeto e a mesma potencialidade de morte.

Quando Ernaux fala de sua vivência, revela a aprisionante sensação pela qual o sujeito enamorado se submete. O excesso pulsional é tanto que, na ausência do objeto amado - assim como nos estados de trauma -, entramos num estado de rememoração dos encontros, numa necessidade de elaborativa, tentando costurar algo de difícil em uma acomodação para o aparelho psíquico.

Em uma cena do livro, a autora descreve o cenário de seus encontros, como quem avista uma cidade devastada por uma invasão:

Quando ele saia, um cansaço extremo me paralisava. Não conseguia arrumar as coisas de imediato. Ficava um tempo olhando os copos, os pratos com as sobras, o cinzeiro cheio, as roupas e peças de lingerie espalhadas pelo corredor e pelo quarto, o lençol sobre o carpete. Minha vontade era manter aquela desordem como estava. Ali cada objeto significava, um gesto e um momento, e compunha um quadro cuja força e cuja dor eu nunca sentiria diante de nenhum outro quadro num museu. Claro que eu só me lavava no dia seguinte, para poder guardar dentro de mim o esperma dele. Contava quantas vezes tínhamos feito amor. Sentia que a cada vez alguma coisa nova era adicionada à nossa relação, mas, ao mesmo tempo, sabia que era esse acúmulo de gestos e de prazeres que alguma hora iria nos afastar. Gastávamos um capital de desejo, tudo o que ganhávamos na ordem da intensidade física, perdíamos ao longo do tempo. Caía numa espécie de sono leve em que tinha a sensação de dormir sobre o corpo dele... No dia seguinte mergulhava numa espécie de torpor, revivendo inúmeras vezes uma carícia que ele fizera ou repetindo uma palavra que ele havia dito...

Esse estado anestésico ia se dissipando aos poucos à medida que se afastava a data do nosso último encontro, eu voltava a esperar uma ligação dele com cada vez mais sofrimento e angústia, da mesma forma que em outros tempos quanto mais eu me afastava do dia em que havia feito uma prova, mais tinha certeza de ter sido reprovada. Agora quanto mais dias passassem sem que ele me procurasse, mais tinha certeza de ter sido abandonada. (Barthes, 1977/1994, p. 95)

O apaixonado banha-se com tanta força nas ilusões, que carece de elementos concretos e os busca como quem procura migalhas, provas de que aquela vivência foi real. Lembremos aqui de Gradiva cujos pés não tocavam por completo o chão.

Bruno Bettelheim (apud Barthes, 1977/1994) situa a paixão como algo do âmbito psicótico: A catástrofe amorosa está talvez mais próxima daquilo que se chamou no âmbito psicótico, de uma situação extrema, que é uma situação vivida pelo sujeito como potencial de destruição. Uma situação sem resto, sem troco. Projeto-me no outro com tal força que, quando este me falta, não posso me retomar. Estou perdido para sempre”. Para Piera Aulaigner, o Eu do outro é colocado como objeto de necessidade (e não somente de prazer), pois seu próprio Eu fica como se privado daquilo que somente esse objeto poderia tornar possível.

Annie rememorando os momentos sem o tal homem declara:

Os únicos momentos felizes que passava em sua ausência eram aqueles em que ia às compras e depois ficava diante do espelho experimentando vestidos novos, brincos, meias com o objetivo ideal impossível, de que a cada encontro ele pudesse me ver com um figurino diferente. Por não mais de 5 minutos ele notaria a minha camisa, os meus sapatos novos que, então ficariam abandonados em qualquer lugar até que ele fosse embora... Mas usando uma roupa que ele já tinha visto me parecia um erro, um descuido do esforço que eu fazia para atingir a perfeição no nosso relacionamento. (Ernaux, 1991/2023, p. 16)

Em Sobre o narcisismo, Freud (1914/1973b) se refere à humildade do apaixonado: a dependência do objeto amado tem um efeito rebaixador no Eu, empobrecendo-o. Quanto mais se emprega a libido do Eu no objeto, mais ela se esvazia. Esse transbordamento da libido narcísica para o objeto amado, essa idealização, torna o Eu do apaixonado cada vez mais modesto e o objeto amado, por sua vez, cada vez mais precioso. Por este motivo, o sujeito a quem dirijo minha paixão se torna tão vital e necessário. A ele dirigi tudo o que tenho de mais forte, meu amor-próprio. Quando não mais o possuo, sinto como se tivesse sido roubado de minhas qualidades.

Barthes, no livro Fragmentos de um discurso amoroso (1977/1994, p. 95), compara o afastamento do objeto amado como uma nave fantasma: “o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho.”

De alguma maneira, o estado apaixonado coloca o amado numa condição de “Eu ideal”, isto é: na posição como gostaria de ser tratado. O que o apaixonado vê no outro, não é exatamente o amado; mas, sim, uma parte de si mesmo projetada nele. Aquilo que gostaria de ser. O nosso amor a gente inventa, já dizia a canção. Convido Annie para um dueto com Cazuza, diz a autora: “Eu tive o privilégio de viver desde o começo, de modo constante e em plena consciência, aquilo que depois sempre acabamos descobrindo, imersos em estupor e angústia: que o homem que amamos é um completo estranho.” (Ernaux, 1991/2023, p. 27)

Nos estados passionais, o elã erótico é portador de violência - uma violência que reside na reciprocidade impossível, pois o outro “objeto da paixão” está esmagado pelas projeções, em que o Eu Ideal se transporta em massa sobre o objeto de projeção narcísica, escreve Menezes no artigo “A paixão na clínica psicanalítica” (1989). Artigo que termina com uma preciosa citação: “Na paixão, vida e morte se tornam simultaneamente mais visíveis, e a vida na exacerbação, no excesso de seu movimento, deixa entrever o vazio sobre o qual caminha” (Menezes, 1989, p. 25).

Paixão é projeção, é idealização. Distorção de realidade. Transe. Fantasia. Loucura. Entretanto, não há como suportar a realidade sem fantasia. Ela é responsável pela expressão de nossos desejos; também é um meio de realização deles. É o que nos mobiliza. Sem fantasia, não há onde nos refugiarmos do dia a dia, do cotidiano, das frustrações. É preciso paixão para se levar adiante um projeto. Sem desejo, ficamos paralisados. Paixão tem a ver também com movimento instintual, com vida e criatividade. Sempre pensei que os artistas deveriam estar embalados por uma espécie de transe apaixonado antes de suas criações.

Segundo o escritor húngaro Sándor Márai, no livro De verdade (1949/2008, p. 189):

a insanidade não tem explicação. Uma vez tudo na vida se arrebenta… e talvez seja muito pobre a vida sobre a qual não se arrasta ao menos uma vez a tempestade dessas explosões, que não tem as paredes de sustentação abaladas por essa espécie de terremoto, que não tem as telhas do teto arrancadas pelo furacão cujo uivo desloca por um instante tudo que até então a razão e o ser mantinham em ordem.

A chama da paixão, que arde, dá sentido a muitas coisas e questiona outras.

Trata-se de uma crise que abala as estruturas mentais. Porém, sem movimento, não há crescimento; não há questionamento. Mais uma vez cito Márai (1949/2008, p.242): A paixão não festeja. Dá tudo e exige tudo: a paixão incondicional cuja energia mais profunda à própria vida e à própria morte”. Talvez seja necessário que alguém, de alguma forma, surja para estremecer nosso mundo, para que esse então seja novamente reconstruído.

Annie finaliza o livro com a seguinte reflexão:

Graças a ele, eu me aproximei do limite que me separa do outro, a ponto de, às vezes, imaginar que chegaria ao outro lado. Passei a medir o tempo de outra forma, com todo meu corpo. Descobri que podemos ser capazes de tudo: desejos sublimes ou mortais, falta de dignidade, crendices e condutas que eu julgava insensatas nos outros, uma vez que eu própria não havia experimentado. Sem saber, ele estreitou minha conexão com o mundo. (Ernaux, 1991/2023, p. 60)

Acredito que a paixão seja, ao mesmo tempo, um elemento de combustão e um combustível. Precisamos dirigir ao outro nossa energia, pois, aprisionada, também ela nos intoxica. Em outros termos, sábias as palavras de Freud (1914/1973b, p. 101): “É preciso amar para não adoecer, estamos destinados a cair doentes, se, em consequência da frustração, formos incapazes de amar.”

Enquanto mergulhava nas páginas de Ernaux, fui me apaixonando por ela. Sua honestidade, coragem, entrega, sua escrita simples e sem adjetivos foram se apossando de meus dias. A simplicidade com que ela falava da fragilidade do feminino, ao mesmo tempo, em que resgatava o poder de ser mulher, isso tudo me fascinava. Ouvia música, pensava em Ernaux, ao entrar no carro, ouvia seu discurso no prêmio Nobel. Encantava-me sua liberdade, o tom delicado de sua voz, o prazer que admitia desejos inconfessáveis, a crueza de suas vivências. Em sua escrita, não há juízo moral. Annie fala sobre adultério, sobre o desamparo de renunciar à maternidade precocemente. Ao falar de suas paixões, traz o prazer em se entregar a essa aventura - em suas linhas não aparece a culpa que tanto marca nossa sociedade patriarcal. Quando ela se revela, revela-se também a voz de tantas mulheres que se cala e se reprime.

Em O jovem, ela escreve sobre a relação que teve, aos 54 anos, com um rapaz de 25: “Há cinco anos, passei uma noite inapropriada com um jovem estudante que vinha me escrevendo havia um ano e que queria me encontrar”. A partir daí, Ernaux traça um paralelo da sua experiência com aquela de homens que se relacionam com garotas mais jovens e, no que pode ser descrito como uma autoanálise, procura entender suas motivações para sustentar uma relação em que “se misturavam o sexo, o tempo e a memória” (Ernaux, 1991/2023, p. 7).

A autora admite que precisou desse romance para se despedir de sua juventude. Como se, ao vê-lo desejando seu corpo envelhecido, passasse também a aceitar os limites temporais. No texto diz que nunca se sentiu tão desejada por ninguém como aos 54 anos por aquele rapaz. Aqui, retomo a fala de Freud, em Sobre o narcisismo (1914/1973b), quando ele se refere ao tipo de amor narcísico quando nos apaixonamos por alguém que já foi parte de nós. Quando relembra seus encontros, ela resgata seu tempo de universitária, revisita o local onde fez seu aborto clandestino - e ao fim desses encontros inicia a escrita do seu majestoso livro O acontecimento. A autora, a partir da experiência com o jovem, rememora e se despede de sua juventude. Como se ao reviver algo de sua mocidade, acomodasse sua velhice. O livro termina com Annie contando sobre o fim da relação: “Era outono, o último do século 20. Percebi que estava feliz por poder entrar sozinha e livre no terceiro milênio.” (Ernaux,1991/2022, p.37). Seria esse terceiro milênio a fase da velhice? Um terceiro tempo da vida? - A autora, em recente entrevista, destacou a importância de viver bem a velhice, pois é a única fase da vida da qual não teremos recordações.

É uma escritora que escreve sem disfarce, pudor ou hipocrisia. Narra os fatos de sua vida com coragem e honestidade, sentimentos hostis estão na mesma bandeja que os prazerosos. Penso em Annie, contando de sua experiência com a pornografia, trago minha mãe me confessando que lia O amante de Lady Chatterley as escondidas, temendo por ser reprimida. Lembro de mães de pacientes lendo Cinquenta tons de cinza na sala de espera, enquanto seus filhos estavam na sessão. Madame Bovary castigada por seu adultério, Juliana de O Primo Basílio que enlouquece. Todas as mulheres condenadas por vivenciar seus desejos. Logo me vêm à mente minhas pacientes mais jovens, contando com naturalidade da compra de vibradores pelo Rappi. Há uma abertura para o sexual, para as paixões. Uma mulher que fala com verdade sobre sexualidade, liberta tantas outras oprimidas.

Annie é humana, demasiadamente humana. E, talvez, por isso, simplesmente apaixonante: “Se não escrevo as coisas, elas não encontram seu termo, são apenas vividas”, quando ela nos oferece suas vivências, ela participa também da libertação de páginas de nossa autobiografia, certamente (Ernaux, 1991/2022, epígrafe). .

* Artigo baseado nas ideias apresentadas em mesa-redonda no 29o Congresso Brasileiro de Psicanálise, realizado de 1 a 4 de novembro de 2023 (Campinas, São Paulo)

REFERÊNCIAS

Aulagnier, P. (1984). Los destinos del placer: Alienación-amor-pasión. Paidós. [ Links ]

Barthes, R. (1994). Fragmentos de um discurso amoroso. (14. ed.) Francisco Alves. (Trabalho original publicado em 1977). [ Links ]

Ernaux, A. (2023). Paixão simples. Fósforo. (Trabalho original publicado em 1991). [ Links ]

________. (2022). O jovem. Fósforo. (Trabalho original publicado em 1991). [ Links ]

Freud, S. (1973a). Civilization and its Discontents. In S. Freud. Standard Edition Of The Complete Psychological Works Of Sigmund Freud. (Vol. 21, pp. 75-174). Hogarth. (Trabalho original publicado em 1930). [ Links ]

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Lenine. (2010). Aquilo que dá no coração. In Lenine.doc. Mameluco Prod. [ Links ]

Márai, S. (2008). De verdade. Companhia das Letras. [ Links ]

Menezes, L. C. (1989). A paixão na teoria e na clínica psicanalítica. ide, 18, 20-25 [ Links ]

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