Enquanto escrevo, sinto uma presença ao olhar para minha imagem refletida na tela do computador. Uma santa me espia, quer entrar no meu corpo, transverberar. A mulher devotada, aquela que ama incondicionalmente a família e que por ela se sacrifica, me persegue em atividades que antes da maternidade eram inocentes. Por vezes, sinto pontas de lanças quererem ferir meus desejos e com fogo cauterizar a minha liberdade de ser mulher. Para decifrar a língua sacra, leio, acolho, subverto. Não pretendo queimar santas em fogueiras. Para transformar a língua sacra, conjugo. Escrever é verbo feminino direto. Eu escrevo.
RHAINA ELLERY
Escrever em chamas, forjar a lâmina
Para chegar ao universal, é necessário adentrar o que há de mais íntimo, diz uma máxima da criação literária. Um movimento que consiste em encontrar, na singularidade das reminiscências, a chegada da escrita. Mas de qual tipo de escrita queremos falar? Por que, em algumas circunstâncias, escrever torna-se imprescindível? E o que há de singular na atual escrita literária feita por mulheres?
Para muitas mulheres que escrevem literatura atualmente, as palavras vivas, as flamejantes, aquelas que precisam ser ditas, brotam do cerne de experiências dolorosas e traumáticas. São escritoras que manejam palavras que ardem. Palavras que nascem da dor. Escritoras que permanecem perante o que incendeia e continuam a puxar os carvões para agarrar a brasa de uma palavra acesa. Com as pontas dos dedos chamuscadas, escrevem. É do fogo das entranhas que forjam o próprio metal, a arma quente da escrita, a lâmina com a qual serão abertas as passagens para o que precisa ser dito.
A experiência do aborto clandestino é narrada por Annie Ernaux (2022, 2023) na forja de sua própria experiência de mulher. A autora, ao falar por si, fala por muitas mulheres que abortaram. Ernaux define a sua escrita como faca: aguda, cortante, cirúrgica na busca das palavras que alcancem a sensação do acontecimento e possam transmitir a dilaceração sofrida. Ao escrever o indizível em primeira pessoa, ressalta a intenção de romper com as solidões e os silêncios impostos às experiências das mulheres. “Quando o indizível vem à luz, ele é político” (2023, p. 19).
Mas por que escrever? Para Marguerite Duras (2021), a escrita é algo selvagem. É o desconhecido que trazemos dentro de nós. Escreve-se porque não há outro modo de dizer o que precisa ser dito. É o mistério do ato de criação. É a noite por dentro do humano. A morte. É a fibra da dor. É existir como mulher e ter a solidão como companheira. São as horas de desespero. E também o dia, o que renasce, o outro, a vida.
Escreve-se para viver. “Escrevivência” é o termo proposto pela escritora negra Conceição Evaristo (2020). A escrevivência carrega a “história silenciada, aquilo que não podia ser dito, aquilo que não podia ser escrito, são aquelas histórias que incomodam, desde o nível da questão pessoal, quanto da questão coletiva”.
Como saber da vida de Carolina Maria de Jesus na favela sem ser por intermédio de suas próprias palavras? “Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem” (2020, p. 26). Ela, como Ernaux, alerta que suas palavras ferem mais do que espada, e declara: “E as feridas são incicatrizáveis” (p. 51).
Muito da atual escrita feita por mulheres é composta de temas vinculados a experiências de ser mulher em uma sociedade desigual, racista e machista. As publicações versam sobre assédio, estupro, aborto, racismo, homofobia, transfobia, feminicídio, maternidade, entre outros temas. Comumente, esse tipo de escrita que brota da experiência é denominada como “narrativa de si”, “autoficção”, “escrita do eu”, entre outras classificações. Para além dos contornos que as definições imprimem, chama a nossa atenção o que é da ordem do alastramento. Nunca a produção literária feita por mulheres foi tão fértil. Alcança patamares nunca vividos, segundo a escritora Andrea Del Fuego (González, 2024).
A palavra torna-se laço?
A partir da escrita literária, quem escreve entra em contato com elementos sentidos, não ditos, e, pela via da escrita, essas experiências são elaboradas psiquicamente e transformadas. As leitoras, por sua vez, se identificam com as narrativas, ou conhecem realidades de experiências de outras mulheres, histórias que desencadeiam impactos estéticos e emocionais em quem recepciona esses escritos.
A dor de uma é a dor de todas, é o que diz Camila Sosa Villada (2019) ao escrever sobre a sua vida de travesti. O trauma do estupro é narrado por Adriana Negreiros (2021), que ressalta que a violência sexual não é somente uma experiência individual, mas coletiva. Tatiana Salem Levy (2024), em sua escrita, narra o assédio do padrasto quando era adolescente, e rompe com o pacto do silêncio. Djamila Ribeiro (2021) escreve sobre o racismo de todos os dias e conta que, a partir de suas linhas, se humaniza e humaniza toda uma linhagem de mulheres negras.
Hélène Cixous cresceu na Argélia em uma época de intensos conflitos e perdas. Do âmago das experiências dolorosas, ela compreendeu que não deveria reagir à morte com morte, e sim com vida. E, para ela, a vida estava na escrita.
Eu falarei da escrita feminina: do que ela fará. É preciso que a mulher se escreva: que a mulher escreva sobre a mulher, que faça as mulheres virem à escrita, da qual elas foram afastadas tão violentamente quanto o foram de seus corpos; pelas mesmas razões, pela mesma lei, com o mesmo objetivo mortal. É preciso que a mulher se coloque no texto - como no mundo, e na história -, por seu próprio movimento. (1975/2022, p. 41)
Cixous deu um nome à sua técnica de escrita. Ela chamou-a de Técnica da Fênix.
Escrever em chamas por todas as santas e bruxas queimadas em fogueiras. Escrever por todas as nossas antepassadas. Por nossas irmãs. Como Rosa Montero (2021), cuspir fogo com nossa goela de dragão, pois o mundo não é mais o mesmo.
Agora, as mulheres escrevem.
Mulheres, escrita e psicanálise: uma conversa entre Sigmund Freud, Hélène Cixous, Safo, Virginia Woolf, Melanie Klein, Karen Horney e Julia Kristeva
Se, no atual contexto literário, várias mulheres escrevem e publicam suas produções, no passado não foi assim.
Nos anos 1920, Virginia Woolf (1929/2024) indagava sobre a assimetria dos papéis sociais destinados às mulheres e aos homens. Defendia que as mulheres precisavam de condições básicas para escrever: de tempo disponível e de um lugar propício, o que ela chamou de “um teto todo seu”. Para Woolf, portanto, a assimetria de papéis sociais impunha obstáculos severos para o crescimento de uma escrita feita por mulheres.
A trama da cultura patriarcal empurrava a escrita de mulheres, quando existia, a fazer morada em cadernos secretos e diários pessoais.
Nascida no contexto do patriarcado europeu do final do século 19, a psicanálise surgiu contemporânea à primeira onda feminista. Como Freud compreendeu a produção artística e literária das mulheres e sua liberdade de expressão? Acerca do tema, como podemos revisitar as declarações do pai da psicanálise hoje?
Durante sua vida, mesmo vivendo em uma sociedade conservadora vitoriana, Freud defendeu campanhas a favor de “reforma da lei do divórcio, legalização da homossexualidade e do aborto” (Appignanesi & Forrester, 2011, p. 603), entre outras. Ele também favoreceu o acesso das mulheres à vida profissional, inclusive à psicanálise. Freud desafiou as crenças de seu tempo: enquanto a histeria era essencialmente entendida como uma condição feminina intratável, ele foi um dos primeiros que se aproximou das acometidas com profundo interesse. A partir de sua escuta, compreendeu que seus sintomas eram decorrentes de conflitos psíquicos entre a sexualidade e a moralidade de sua época. Era preciso dar um destino ao desejo. Como resultado, Freud tornou públicas as insatisfações das mulheres, dando voz a elas, e reivindicou a histeria tanto para os homens quanto para as mulheres. Foi com elas, também, que Freud criou a psicanálise.
Freud, assim, foi um revolucionário. Porém, em sua obra, também nos deparamos com declarações convencionais a respeito das mulheres. Em seu último grande texto sobre a questão do feminino, “A feminilidade” (1933/2018b), reiterou posições que ressaltavam as insuficiências da condição feminina. As mulheres, pelo ângulo desse texto de Freud, tinham uma diminuta capacidade sublimatória, e o destino da feminilidade era a maternidade. Apesar disso, Freud assumiu que algumas de suas conclusões eram incompletas e fragmentárias.
O rastro da incompletude das conclusões de Freud transformou-se em convite para uma conversa atual, na qual ficcionalizamos um encontro entre Sigmund Freud, Hélène Cixous, Safo, Virginia Woolf, Melanie Klein, Karen Horney e Julia Kristeva.
Vamos à conversa.
FREUD: Todas as pessoas oscilam entre atividade e passividade. Assim, é “insuficiente fazer coincidir a conduta masculina com atividade e a feminina com passividade” (1933/2018b, p. 317). Devemos também “atentar para que a influência das normas sociais não seja subestimada, normas que, de forma semelhante, forçam a mulher para situações passivas” (p. 317-318). A repressão à agressividade, por exemplo, “é prescrita constitucionalmente e imposta à mulher socialmente” (p. 318).
CIXOUS: Sim, Freud. Aliás, a “questão ‘O que ela quer?’ que se coloca à mulher”, fala desse “pouco lugar para seu desejo na sociedade” (1975/2022, p. 89).
FREUD: “Tudo isso ainda está muito obscuro” (1933/2018b, p. 318). No entanto, imagino que vocês já estejam “preparad[a]s para o fato de que a psicologia também não irá resolver o enigma da feminilidade” (p. 318). Afinal, “não é papel da psicanálise ‘descrever o que a mulher é - isso seria para ela uma tarefa quase impossível de resolver -, mas, sim, pesquisar como ela se torna mulher, como se desenvolve a partir da criança dotada de disposição bissexual” (p. 318).
CIXOUS: Freud, “não se pode falar de uma sexualidade feminina, uniforme, homogênea, de percurso codificável, não mais do que de um inconsciente similar. O imaginário das mulheres é inesgotável, como a música, a pintura, a escrita: sua cascata de fantasmas é incrível” (1975/2022, p. 42). safo: E o desejo é um ser ambivalente. Em um de meus poemas digo: “Não sei o que devo fazer: há dois estados mentais dentro de mim” (c. 600 a.C./2020, p. 159).
FREUD: Cixous e Safo, a discussão sobre o assunto frequentemente faz com que as nossas colegas expressem “a suspeita de que nós, os analistas homens, não [conseguimos] superar determinados preconceitos profundamente arraigados contra a feminilidade, o que agora nos penalizaria pelo caráter parcial de nossa pesquisa. De nossa parte, no terreno da bissexualidade, era fácil evitar qualquer indelicadeza. Só precisávamos dizer: ‘Isso não vale para as senhoras. As senhoras são uma exceção; mais masculinas do que femininas nesse ponto’” (1933/2018b, p. 319). Porém, eu continuo a defender que “o desejo de finalmente conseguir o pênis almejado pode ainda contribuir para os motivos que levam a mulher madura à análise e o que ela compreensivelmente pode esperar da análise, por exemplo, a aptidão para exercer uma profissão intelectual” (p. 329).
HORNEY: Freud, será que, em vez de inveja do pênis, as mulheres não sentem uma inveja do que está mais relacionado à posição social e ao poder associados ao masculino (1967/1991)?
CIXOUS: Sim, imagino que as mulheres, especialmente em sua época, em uma Viena extremamente conservadora, queriam falar. Em 1975, eu costumava dizer que as mulheres tinham que escapar “da armadilha do silêncio” (1975/2022, p. 53). Você não tem ideia do tamanho do “recalque que nos manteve nessa ‘escuridão’” (p. 42).
KLEIN: Eu já acredito que a inveja do pênis é subsequente à inveja do seio. “O primeiro objeto a ser invejado é o seio nutridor, pois o bebê sente que o seio possui tudo o que ele deseja e que tem um fluxo ilimitado de leite e de amor que guarda para sua própria gratificação” (1957/1975, p. 214). O pênis, além disso, está dentro da mãe!
FREUD: Eu continuo a defender que “a situação feminina só se estabelece se o desejo do pênis for substituído pelo desejo do filho” (1933/2018b, p. 333). A maternidade, assim, é a saída saudável para o Édipo feminino. cixous: Freud, há outras saídas possíveis, únicas para cada mulher. Um dia, escutaremos mulheres dizendo: “eu … transbordo, meus desejos inventaram novos desejos, meu corpo conhece cantos extraordinários” (1975/2022, p. 43).
FREUD: Gostaria de também “apresentar-lhes mais algumas particularidades psíquicas da feminilidade madura”. Não pretendo “considerar mais do que um valor de verdade mediano para essas afirmações; além disso, nem sempre é fácil distinguir o que deve ser atribuído à função sexual e o que deve ser atribuído à educação social” (1933/2018b, p. 338), mas conferimos “à mulher pouco senso de justiça. Também dizemos das mulheres que seus interesses sociais são mais fracos e que sua capacidade para sublimação pulsional é menor do que nos homens” (p. 340).
WOOLF: Freud, ao te escutar, me lembrei do título do livro de Von X: A inferioridade intelectual, moral e física do sexo feminino, que mencionei em meu livro Um teto todo seu (1929/2024). Na ocasião, acabei recorrendo à psicanálise para fazer uma análise selvagem do autor. Cheguei à conclusão, com base em seus ensinamentos, de que ele só podia estar querendo preservar a sua superioridade. Mas vamos pensar juntos, quais eram as opções sublimatórias para as mulheres de nossa época? Como nos interessar por um mundo em que não podíamos ter voz? Nós não tínhamos a liberdade para pensar nas coisas em si mesmas.
KLEIN: Faz todo sentido, Woolf. Mary Chadwick, em 1925, “[atribuiu] o valor excessivo que o homem confere ao pênis, assim como sua atitude de rivalidade intelectual em relação às mulheres, à frustração do desejo de ter filho e ao deslocamento desse desejo para o plano intelectual” (1957/1975, p. 220). Postulei que tudo isso “tem sua origem no complexo de feminilidade. [Essa tendência] é acompanhada por uma atitude de desprezo e de “saber melhor”, [o que], além de ser extremamente antissocial e sádica, [é] determinada em parte pela tentativa de ocultar a ansiedade e a ignorância que se encontram por trás dela” (p. 220).
FREUD: Woolf e Klein, “não é minha intenção acompanhar a conduta posterior da feminilidade através da puberdade até o período da maturidade. Nossos conhecimentos não seriam suficientes para isso”. Estou apenas reunindo “alguns traços” (1933/2018b, p. 336). Aliás, acredito que “talvez uma parte do que nós, homens, chamamos de ‘enigma das mulheres’ derive [da] expressão da bissexualidade da vida da mulher” (p. 337). “O desdobramento da feminilidade permanece exposto à perturbação através de fenômenos residuais da pré-história masculina. Regressões às fixações daquelas fases pré-edípicas ocorrem com muita frequência” (p. 336-337).
KRISTEVA: Compreendo que, com isso, Freud, você está defendendo que há uma bissexualidade psíquica polifônica que é mais acentuada nas mulheres.
WOOLF: Em meu livro Um teto todo seu, rascunhei um “esquema da alma no qual, em cada um de nós, os dois poderes presidem, um masculino e um feminino. … Nos homens, a parte feminina da mente também precisa atuar, e uma mulher também deve ter relações com o homem dentro de si” (1929/2024, p. 139). Postulei que “uma grande mente é andrógina”, e é nessa fusão que “a mente se fertiliza por inteiro, pois usa todas as suas faculdades” (p. 140).
KRISTEVA: Dessa forma, há uma festa que é formada por pelo menos quatro pessoas: “o feminino do homem, o feminino da mulher, o masculino do homem e o masculino da mulher” (2019). Isso é gerador de tensões, conflitos, angústias e alegrias!
FREUD: Isso mesmo. Aliás, propus a ideia do complexo de Édipo mais completo, duplo e dependente da bissexualidade original da criança, em meu texto O ego e o id, de 1923. No mais, “isso é tudo o que eu tinha para lhes dizer sobre a feminilidade. Certamente está incompleto e fragmentário, e nem sempre soa amigável” (1933/2018b, p. 341). “Não [percamos] de vista o fato de que, além disso, cada mulher deve ser um ser humano” e, como tal, único. “Se quiserem saber mais sobre a feminilidade, então perguntem às suas próprias experiências de vida, ou voltem-se aos poetas” (p. 341).
CIXOUS: Concordo, “é preciso que a mulher se escreva: que a mulher escreva sobre a mulher, e que faça as mulheres virem à escrita. … É preciso que a mulher se coloque no texto - como no mundo, e na história -, por seu próprio movimento” (1975/2022, p. 41-42).
KRISTEVA: O “enigma das mulheres” não pode mais ser considerado um enigma. Não em 2025. Afinal, há um “transbordamento de atos existenciais e sociais, como atesta a impressionante polifonia” das mulheres escritoras. Abramos espaço para suas múltiplas vozes!
CIXOUS: Mulheres, “é a nossa vez de escrever. … papel, imaginação e decolar!” (1975/2022, p. 30). Mas vou logo avisando, “aquele que é ‘O Recalcado’ da cultura e da sociedade, quando retorna, retorna de modo explosivo, absolutamente devastador, espantoso, com uma força nunca antes liberada” (p. 64).
Psicanálises e feminismos
Desde a entrada das mulheres em institutos psicanalíticos, muito aconteceu. A conversa ficcional que trouxemos foi apenas uma tentativa de atravessar os tempos e fazer com que algumas delas, juntamente com mulheres escritoras, pudessem dialogar com Freud. Horney, Klein e Kristeva são algumas das muitas psicanalistas responsáveis por uma incandescência das ideias psicanalíticas em relação às mulheres.
Karen Horney, por exemplo, foi uma das primeiras analistas a contestar a primazia do falo em Freud. Em sua época, ela já criticava a ideia de que as mulheres fossem pensadas principalmente por homens. Melanie Klein, além de dar importância aos vínculos pré-edípicos, defendeu, entre outros pontos, a importância da vagina para o psiquismo da mulher. Julia Kristeva, uma psicanalista contemporânea, trouxe a contribuição de que há uma sexualidade feminina complexa e em constante transformação.
Baruch e Serrano, em seu livro Women analyze women: in France, England, and the United States, reconhecem que há “uma revolução quieta” (1988, p. 1) dentro da psicanálise, decorrente também de mulheres sendo analisadas por outras mulheres. Em uma série de entrevistas feitas com mulheres psicanalistas, ressaltam que, apesar de nem todas se reconhecerem como feministas, elas querem ajudar as suas analisandas a encontrar uma voz própria - uma voz livre dos parâmetros masculinos. Afinal, a psicanálise, assim como o feminismo, tem um caráter subversivo e emancipatório.
Mas como o feminismo tem estado presente nas escutas e nos escritos de psicanalistas mulheres? Tendo em vista que, assim como não há apenas uma mulher, não há um só feminismo ou uma única psicanálise, Baruch e Serrano anunciam três principais tipos de feminismo dentro da psicanálise: o feminismo liberal, conectado às ideias de “tornar-se mulher”, de Simone de Beauvoir, que perpetua o sistema binário e privilegia o Édipo; o feminismo cultural, que valoriza as diferenças entre homens e mulheres, e tem como preceito central as mulheres terem características próprias, femininas, tais como empatia, cuidado, sensibilidade - que devem ser reconhecidas e valorizadas; e o feminismo metafísico, que tenta sobrepujar o dualismo, a ordem patriarcal e eliminar a oposição hierárquica entre masculino e feminino.
O diálogo entre psicanálise e feminismo, assim, arde. Ele é múltiplo, dinâmico e, muitas vezes, tenso, mas essencial para a ampliação do pensamento psicanalítico sobre as mulheres e as mutações na cultura. Essa conexão se encontra também na clínica psicanalítica, especialmente nas demandas que surgem entre mulheres. São mulheres que procuram palavras para experiências que lhe parecem, por vezes, incomunicáveis. Elas desejam contar o que não é plenamente compreendido, narrar emoções que as movem como brasa, romper o silêncio que as carboniza. Elas querem escutar o som da própria voz em meio às chamas.
Assim aconteceu com Dite.
Dite
Dite chegou ao consultório após ouvir sua vizinha falar dos benefícios da análise. Há tempos, ela observava uma mudança na vizinha, que se posicionava mais e tinha opiniões sobre tudo. A vizinha, inclusive, cobrava uma participação maior do marido nas tarefas domésticas e na criação dos filhos. Dite disse que gostaria de experimentar algo assim. Para isso, ela procurou uma analista que acreditasse na importância da emancipação da mulher. Queria ter voz e deixar os velhos hábitos que a mantinham em uma repetição aprisionadora. Foi pesquisando na internet que ela achou a sua analista, após ler alguns de seus artigos.
No início de sua análise, Dite parecia estar vagando como um ser errante, mas sempre de forma acelerada. Ela sentia-se responsável por tudo na família. Era a provedora, no entanto não se apropriava de nada. Sua relação com o marido e com a filha era mecânica e afetivamente distante.
A analista tentava ajudá-la a se aproximar de suas emoções. Parar de-vagar, no entanto, era difícil. Era mais fácil manter-se acelerada, repleta de tarefas, sem pensar. Os espaços para pausa, mesmo em sua fala, eram escassos.
Zanzando pelas superfícies e cumprindo um roteiro já conhecido, Dite evitava entrar em contato com suas fragilidades e com seus territórios inexplorados. Recorria à capa de supermulher, aquela que faz tudo para todos e não precisa de ninguém. Com isso, não baixava a guarda e barrava a possibilidade de se deixar penetrar pelas intervenções da analista.
Uma das saídas encontradas foi o trabalho a partir da relação das duas. Além das pontuações corriqueiras sobre o que estava acontecendo na intercomunicação, passou a haver espaço para brincadeira na sala de análise. Enquanto Dite falava palavras comedidas ao abordar assuntos sexuais, sua analista brincava trazendo palavras ousadas. Enquanto Dite pedia desculpas por estar suada ou com algum odor indesejado, sua analista dizia que aquilo a tornava uma pessoa como outra qualquer.
Gradativamente, Dite conseguiu se conjugar mais com sua analista, e com algumas de suas emoções. Ela passou a ter mais espaços de hiância em sua fala. E, com isso, novas aberturas. Foi se dando conta de que havia um desamparo, uma noite misteriosa dentro dela que era preciso conhecer e cuidar.
A presença do outro passou a ser necessária. O marido foi reconhecido de uma forma nova. Ela dizia, espantada, que o marido a escutava, e mudava diante do que ela falava. Ele parecia aberto a se deixar penetrar com os conteúdos dela e, como resultado, Dite também foi se deixando penetrar por ele. Surpreendia-se com a filha crescendo e sendo capaz de verbalizar seus sentimentos. Dizia que gostaria de ter tido a mesma oportunidade.
Ela passou a falar sobre o seu ciclo menstrual, com todas as suas alternâncias. Reclamava do mal-estar durante a tpm, da sensação de esgotamento durante os dias mais intensos do seu fluxo menstrual e da vontade de ter relações sexuais durante o período ovulatório. Ela era uma mulher de fases e poderia se sentir sensual e atraente.
Paralelamente, Dite ingressou em um curso de escrita criativa. Chegava às sessões entusiasmada, mas também com medo do que estava sendo despertado na criação de seus textos. Ela chamou sua coletânea de “A descoberta de um novo mundo”. Enigmática. Atraente. Angustiante. Apaixonante.
O mundo da chegada da escrita.













