SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.59 número3Teatro, uma (auto)análisePsicanálise de casal e família: Reflexões latino-americanas índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641Xversão On-line ISSN 2175-3601

Rev. bras. psicanál vol.59 no.3 São Paulo  2025  Epub 14-Nov-2025

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v59n3.22 

Resenhas

Guerra e psicanálise

Luciane Falcão1 

1Psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (sppa). Porto Alegre

Delouya, Daniel. inm, 2025. p. 392


Daniel Delouya, psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, autor de inúmeros artigos sobre psicanálise, é considerado um dos importantes articuladores entre a metapsicologia freudiana e o pensamento psicanalítico contemporâneo. Nas últimas décadas, tem realizado uma série de conferências no Brasil e na América Latina e várias delas estão agora compiladas nesse livro: Guerra e psicanálise.

A complexidade do seu pensamento livre não foi desenvolvida apenas pelo estudo rigoroso dos conceitos metapsicológicos, o que poderia tornar a psicanálise fechada em si mesma. Ao contrário, é o seu vasto conhecimento e interesse pelos mais diversos temas que tornam sua escrita rica e em permanente diálogo com o outro. Além da sólida base teórica que lhe permite uma aproximação com as ideias referentes às origens do psiquismo, sua obra se constrói também a partir de vértices distintos, cujas peças são arquitetadas e construídas com o uso de diferentes artefatos: mitologia, filosofia, história, literatura, cultura geral, conhecimento sobre os conflitos geopolíticos mundiais e fatos da atualidade, somados a outra característica fundamental - um pensamento crítico. A tudo isso, acrescenta-se, ainda, sua vasta experiência clínica como psicanalista contemporâneo, portador de um olhar e uma escuta meticulosa direcionados a seus pacientes.

Mas nada disso seria constituído internamente se ele próprio negasse suas origens e seu lugar como um estrangeiro perene (p. 169) que tem a necessidade de buscar algum lugar para tentar construir como seu, implicando locomoções e vivências em diferentes zonas que, nem sempre, oferecem um dentro e um fora de forma clara e protegida.

Delouya deixa claro, já nas primeiras páginas, que a sua escrita relaciona-se com uma confissão espiritual, com seus mergulhos nas zonas pelágicas e incertas das narrativas-clínicas para se deixar cair nos abismos da nossa mãe de origem. O resultado é a eterna busca desse encontro, ou seja, toda a escrita psicanalítica contém esse movimento que, de uma maneira ou outra, leva o psicanalista e o leitor a uma eterna tentativa de traçar e retraçar esses passos que formaram o aparelho psíquico. A escrita psicanalítica seria, para Delouya, essa eterna e infinita busca jamais concluída.

O próprio título escolhido pelo autor, Guerra e psicanálise, carrega uma marca da sua história e suas tentativas de compreender o porquê da guerra: “A guerra ocorre quando surge a fórmula ‘ou eu ou você’” (p. 18). Carrega o horror da continuidade das guerras atuais, entre todos os inimigos da possibilidade de uma paz na humanidade. Ele próprio se questiona se a escolha desse título poderia estar relacionada aos acontecimentos estarrecedores de outubro de 2023.

Esse livro, portador de um texto heterogêneo e elaborado que agora tenho a honra de resenhar, é estruturado em quatro partes - cada uma constituída por diversos capítulos - por meio das quais acompanhamos o desenvolvimento de ideias complexas sobre o funcionamento da mente humana: 1) “Guerra e poder”, 2) “Morte e vida”, 3) “A luta contra a guerra na metapsicologia” e 4) “A história de lutas em torno da formação analítica”. Em cada uma delas, encontraremos o autor tecendo a sua travessia, organizada e desorganizada, integrada e desintegrada, introjetada e projetada, criadora das suas camadas psíquicas que, graças a sua capacidade de tecê-las no seu psíquico, lhe dá a possibilidade de transformar a conjunção desses elementos na palavra escrita, numa linguagem passível de tradução. Do primeiro ao último capítulo, duas ideias freudianas acompanham permanentemente o autor: desamparo e pulsão de morte.

A primeira parte, “Guerra e poder”, está dividida em oito capítulos. Servindo-se de diferentes autores psicanalíticos, como Freud, Ferenczi (dedica dois capítulos específicos a esse último: “Ferenczi político, do plural no singular” e “Ferenczi, entre passividade e reciprocidade/mutualidade”), Bion, Winnicott e Green, e dos seus conhecimentos históricos, busca compreender a necessidade de o homem viver em guerra. Os textos freudianos Totem e tabu e Moisés e o monoteísmo (basais para sua compreensão sobre como o judaísmo e o cristianismo se constituíram em relação ao assassinato do pai), o entendimento sobre os processos identificatórios, a relação da angústia primordial com o desamparo, do poder com o desamparo, a relação do grupo e o pertencimento étnico, acompanham permanentemente Delouya nessa sua busca.

A cada incremento e manifestação da guerra e da impossibilidade da paz (Guerra e paz - Tolstói: presente!), ele utiliza sua história infantil, impregnada de lembranças do convívio possível entre árabes e judeus, como forma de repensar, elaborar e tentar não repetir o que fica domado pela pulsão de morte, numa eterna compulsão à repetição que faz o homem seguir repetindo, sem elaborar, o eterno e sempre atual desamparo, que não se inscreve como uma memória do passado, mas permanece presente e vívido. Assim como viveu a paz com seus amigos árabes e judeus, também viveu algumas experiências em que viu a guerra ocorrendo, literalmente, aos seus pés (“A guerra: versões pessoais”), aos 9 anos (início da Guerra dos Seis Dias) e aos 15 anos, num ataque realizado pelos sírios e egípcios a Israel. Diz Delouya, com um certo toque de esperança:

Tenho a convicção, com Freud, que apenas uma personalidade forte, e não os jogos de forças e interesses, pode restaurar as vontades dos inocentes pela paz. … Tenho certeza de que haverá alguém [que possa] assinar a tão esperada abertura para um novo tempo. (p. 40)

E, ao mesmo tempo, tentando entender sua própria dor, exacerbada com a tragédia de outubro de 2023 diz: “Eu pertenço a um povo que constitui minha identidade e [esses fatos] convocaram em mim dor, raiva, revolta, compaixão e tristeza. ... Convivi com palestinos desde a minha juventude e vida adulta” (p. 50).

Os gritos de Delouya se fazem presentes:

Não, não, não; três vezes não. Parem, por favor! Devolvam os reféns! Alimentem os famintos! Cuidem dos feridos. Garantam uma infância para aqueles que ainda podem desfrutá-la, enquanto os adultos de ambos os lados se esforçam para sentar-se juntos e conversar. Mais uma vez, aqui estou eu, o ingênuo, com apenas uma esperança. (p. 51)

Seus gritos representariam os gritos de grande parte da humanidade? Mas, desde que o homem é homem, a destrutividade, a força da pulsão de morte, tem sido vencedora e torna nossos gritos por paz inaudíveis?2

Dedicará alguns capítulos para pensar a guerra da pandemia, a questão da linguagem na era digital (propondo pensar a relação da linguagem com o desamparo, com a ação do corpo e do tempo e com o papel do amor dos pais). Em “Depressão, toxicomania e cultura”, retoma o texto freudiano de 1926 para destacar que “o desamparo diante do desconhecido significa arrancar o recém-nascido de um espaço de gozo de quietude, gerando um vasto distúrbio narcísico, [sendo] esse espaço o negativo da depressão” (p. 142).

Na segunda parte, “Morte e vida”, Delouya se escancara como um psicanalista que utiliza, permanentemente, a metapsicologia freudiana - a feiticeira metapsicologia - como alicerce para seu pensamento psicanalítico e humanista, enlaçando-o a outras áreas, por exemplo, a literatura. Vejamos alguns dos títulos aqui apresentados: “Odisseia, transporte e transferência entre morte e vida” (Odisseia - Homero: presente!); “Morte e vida, algumas configurações” (Morte e vida Severina - João Cabral de Melo Neto: presente!; Vida amorosa - Zeruya Shalev: presente!; Mãe - Aner Shalev: presente!); “Depressão, toxicomania e cultura”; “Corpo, vida e morte” (Sócrates e Descartes: presentes!); “Corpo e linguagem no horizonte do inconsciente”; “O trabalho em duplo e a cultura da excitação/atuação”; “O sexual, a vida psíquica e o campo de atuação psicanalítica”, para citar alguns.

Todos esses capítulos são tecidos numa busca autoral que utiliza a força da pulsão de morte como pano de fundo e mantém, no cerne das suas discussões, a importância do trabalho de luto:

Todo o trabalho da vida, e que a análise permite observar e estender, é odisseia, é travessia pelo mar da alma, na medida em que almeja liberar este que chamamos de o sexual, o infantil, e que é sedução, transporte e transferência incessantes sem a visada de um fim. (p. 123)

Ou ainda entrelaçando esse trabalho com o trabalho humano e o trabalho de análise:

A psicologia nasce do conflito que desencadeia uma via regressiva de exumação da vida de outrora junto aos falecidos, dos elos de ligação e de identificações para com eles. Nesse trabalho de luto, se constitui o universo da transferência, mobilizado pela fuga da morte. … O trabalho humano e o trabalho analítico são frutos desta oposição à morte, que coloca em marcha a transferência, assemelhando-a à exumação da vida dos mortos [que precisará da palavra, do tempo de fala, para sua elaboração]. (p. 125)

Para Delouya, a ação da força da pulsão de morte está relacionada com o papel essencial do objeto. Um espaço criado a partir da intervenção do objeto (espaço potencial de Winnicott, função objetalizante de Green) possibilitará ao sujeito inserir no seu Eu a noção do tempo, do tempo de espera (Em busca do tempo perdido - Proust: presente!).

O desespero do não-tempo - angustiante e deprimente, marcado pelo desamparo - transforma-se, progressivamente, em possibilidade de espera e esperança. Passa-se da desilusão com a satisfação alucinatória do desejo para os Ersatz (sucedâneos), ou seja, para o pensar. O tempo morto [para Green] é o tempo de morte dado ou recebido. (p. 188)

No capítulo “Tempos e reencontros do Homem dos Lobos”, seguirá pensando nesse tema.

“O sexual, a vida psíquica e o campo de atuação psicanalítica” é um chamado aos analistas e a psicanálise contemporânea: não vamos abandonar a noção do sexual, do sexual infantil, da sexualidade humana; não vamos negar a noção da sexualidade infantil na vida de nossos pacientes; não vamos apagar o conhecimento da força da sexualidade infantil nos processos de identificações do sujeito; não vamos esquecer que as origens da vida psíquica estão relacionadas com o início da sexualidade infantil; não vamos esquecer que as “sensações de prazer, a apropriação prazerosa, a erotização geram as sementes do corpo psíquico no universo das representações enquanto presença, corpo e movimento” (p. 208); não vamos esquecer que a noção da própria sexualidade infantil se constrói a partir do colo de um adulto; não vamos esquecer que a noção da configuração edípica, fantasias de castração, incesto seguem elementos estruturantes do sujeito. Se a nós cabe analisar o paciente, no mínimo, a sexualidade infantil precisaria estar presente nesse trabalho.

A terceira parte, “A luta contra a guerra na metapsicologia”, apresenta nove capítulos: “Ideias, idealizações, sublimações e suas ambiguidades e destinos na cultura” (apresenta um estudo primoroso sobre a sublimação desde os primeiros escritos de Freud até suas próprias ideias para se pensar a cultura); “O estranho e seus confidentes e inconfidentes”; “O trabalho no limite do analisável: destrutividade e enquadre interno no analista”; “O Eu prazer e o Eu realidade entre 1911 e 1915”; “O Eu, o self e a clínica contemporânea”; “Entre o Eu, o Isso e a cultura”; “Tempos e reencontros do Homem dos Lobos”; “Notas sobre o espectro dos pensamentos selvagens em Bion” (reforça a importância dos pensamentos selvagens na constituição do aparelho psíquico e a ideia de que, mesmo que esses pensamentos estejam identificados e enjaulados, vão continuar selvagens; entrelaça essa ideia com o Unheimliche freudiano e complementa: os pensamentos selvagens “abrangem tudo o que atiça a ordem psicanalítica” [p. 297]); e “Alucinação, desejo e hostilidade: eixo originário do projeto freudiano”.

Na quarta parte, “A história de lutas em torno da formação analítica”, constrói os capítulos utilizando seus instrumentos consolidados: a metapsicologia, sua experiência como psicanalista e supervisor, sua experiência com as instituições psicanalíticas e sua vivência num mundo contemporâneo que engloba aspectos sociopolíticos fundamentais. Os capítulos: “O palco sociopolítico, a comunidade e a transmissão psicanalítica” (questiona-se o quanto uma “escuta emoldurada standard fere a liberdade necessária ao trabalho da escuta” [p. 339]); “Da exigência de deformação na formação” (“Tanto na supervisão como nos seminários de estudo de um texto, a escuta retoma e deve retomar, o trabalho de deformação e da liberdade associativa” [p. 347]. Tomando Pontalis, lembra que “a psicanálise é uma tribo nômade que deve, a cada momento e lugar, reerguer seus fundamentos” [p. 354]); “Notas sobre o trabalho da supervisão e seus fins” (“Como supervisores, … não instruímos, não ensinamos, não direcionamos o supervisionando, mas fazemos outra coisa: ajudamos ele a se tornar analista para o seu paciente” [p. 355]); “Passando a tocha da psicanálise para América Latina”:

A passagem tem como condição fundamental o exílio. O exílio impõe, sobre o fundo do trabalho do luto, uma dialética entre dois polos: o desamparo e o sítio estrangeiro. O desamparo … é a força de atração do próximo. … O sítio estrangeiro é a descoberta da intimidade psíquica a partir de uma exterioridade. (p. 368)

Finalizando o livro, “Um breve comentário sobre a história da psicanálise no Brasil”, um texto a partir de sua visão dela.

As andanças pela vida apresentadas aqui por Daniel Delouya carregam, sempre, verdadeiras ameaças à vida, mesmo quando se sai à rua para simplesmente comprar pão. Ele segue, até hoje, numa luta e anseios que

visam deixar de ser estrangeiro para voltar e reencontrar a casa. A casa para a qual, como Freud tem enunciado, é a primeira e que não deixa de estar sempre em perigo de ser atacada, de uma maneira ou de outra. A casa é um lugar e, sobretudo, um tempo de encontro, que buscamos no mundo, na nossa cultura, infinitamente. (p. 170)

Esse livro é uma casa que o autor nos oferece como sua e que nos convida para nela entramos e nos sentirmos em casa.

André Green, numa entrevista com Maurice Corcos, diz que, quando um psicanalista faz uma interpretação psicanalítica a respeito de uma obra, precisa levar em conta que essa interpretação é específica e jamais será a totalidade da obra. Ao mesmo tempo, essa visão psicanalítica pode lançar luz em aspectos que talvez não tenham sido percebidos. Pode ter diversos ângulos, tanto podendo ser textual quanto relacionando a obra e a vida do autor. Para Green, é importante não fazer um reducionismo,

desde que se perceba que não se trata de tentar encontrar dados biográficos na produção da obra. Sabemos que eles estão lá. Não podem ser insignificantes. Com todo o trabalho de elaboração, nunca estamos lidando com a biografia em si, mas muito mais com o romance, com a ficção biográfica tal como é vivida pelo sujeito e com as transformações desta ficção biográfica. (p. 104)

Guerra e psicanálise corresponde ao trabalho de elaboração de Delouya que, como tal, integra sua biografia, ficção ou não, a uma narrativa que nos permite ampliar a possibilidade de se pensar o humano.

2 No momento em que finalizo a escrita desta resenha, recebemos mais notícias sombrias: o primeiro-ministro de Israel autoriza a ocupação geral de Gaza. A reação do povo de Israel, liderada pelas famílias dos reféns sequestrados, convoca uma greve geral que busca parar o país - o que corresponderia aos gritos de Delouya. No entanto, a força da destruição parece imperar...

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.